31/12/2011 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Oficina Escola “As Mãos de Luz” promove o “Encontro das Sabedorias”, em Lumiar.

A Oficina Escola “As Mãos de Luz”, inaugurada em 1997 e recentemente transformada em Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura continua fazendo um belíssimo trabalho de valorização da cultura e dos saberes locais. Mais um evento realizado pela Oficina focou, desta vez, o trabalho que fazem as rezadeiras e as curandeiras do lugar. As sábias e humildes senhoras estiveram presentes ao evento e contaram, para uma grande platéia, a sua história de vida e os seus “causos” de cura, sempre com muitos exemplos de gratidão a Deus.

Jeany Amorim

“Encontro das Sabedorias “

Odia 26 de novembro foi marcado por celebração, alegria, e muita sabedoria na Oficia Escola As Mãos de Luz, em Lumiar – Nova Friburgo. Comoculminância do 1º ano de trabalho, o Ponto de Cultura de Lumiar realizou o evento “Os Tesouros da Terra: Nossa Gente, Rezas, Ervas e Danças”, com o objetivo de difundir o valioso patrimônio imaterial cultural da região. Neste evento,o Ponto de Culturalançou dois livretos da Série “Os tesouros da Terra – Nossa Gente” ; um dedicado à dona Hilda Pinto de Aguiar, antiga rezadeira de Lumiar, e outro à dona Maria do Socorro, curadora através das ervas.

Humildade e saberes tradicionais

A doçura, a humildade e a alegria são traços marcantes de Dona Hilda e Dona Maria do Socorro.Para elas, não existe dia nem hora de almoço, jantar ou dormida. Estão sempre prontas, de mãos estendidase portas abertas: “A gente só tem que agradecer muito a Deus”, conclui Dona Maria do Socorro.

Além dos livretos contarem um pouquinho da história dessas duas encantadoras senhoras, é possível conhecer mais deste universo rico em Fé, doação e sabedoria popular, através dos ‘causos’, das orações e das receitas.

A produção desta série de livretos da sabedoria popular é umimportante passo para o reconhecimento e resgate de nossas verdadeiras raízes. É a valorização das práticas dos mestres populares que trabalham pelo bem e pelasaúde da comunidade, além de ser a partilha desse precioso tesouro com as gerações mais novas.

Quem faz o bem é Deus

Nossa gratidão à sabedoria ancestral, herança Divina. “Eu não faço nada...quem curaé Deus!” ( Dona Hilda) Simples frases proferidas com fé e esperança, atenuam os sofrimentos, aliviam a alma e reconstroem os ânimos...Um olhar mais atento e uma sintonia ‘fina’ com a Mãe Terra, faz com que mãos experientes encontrem em meio à tantas plantas uma especial: aquela que cura a quem precisa de ajuda.

Quem não tem a lembrança de uma avó, ou mesmo mãe, que com serenidade, impunha as mãos sobre a cabeça que doía, dizendo pequenas frases positivas ou orações, ou fazia um chá para aliviar uma dor de estômago, ou outra mazela?A cura através das orações e da medicina popular – as ervas – fazem parte da trajetória do homem na Terra. O poder de cura destes seres históricos vai além do que é tido como racional: sabedoria ancestral, tradição passada de geração à geração, patrimônio e riqueza da nossa cultura.

Outra visão de mundo

“Meu filho, você não vai me pagar... Você vai é rezar para agradecer ao nosso Pai.” ( Dona Maria do Socorro)

É fato que a sociedade está cada vez mais voltada para as possibilidades e riquezas da natureza;a descoberta, pela Ciência, dos benefícios que alimentos e plantas trazem à saúde não é uma novidade para quem durante uma vida inteira usou “matos” para tratar dos filhos e todos que lhes procurassem. Talvez, novidade seja o interesse das grandes indústrias farmacêuticas ou mesmo da biopirataria.

Mas o fato ainda maior é que a forma usurpadora quese é proposta para usufruir destes bens acabam explorando o ser humano e esgotando a Terra, além de caminharmos para a perda do real sentidode práticas milenares como a dos erveiros e rezadeiras.

Partilhar saberes de tradição oral – seja o conhecimento das ervas ou o poder da oração – está muito longe dos interesses de uma sociedade capitalista. É realmente mágico que nos dias atuais ainda existam “anjos” que optem por viver em doação. Guardiã de muitos saberes da tradição oral, Dona Hilda traz consigo uma indagação constante: “ Se eu morrer, quem vai continuar rezando?”

Jeany Amorim é professora de Artes Visuais - jeanyamorim@ig.com.br

Por: ForumSec21