03/11/2011 Noticia AnteriorPrxima Noticia

Sete bilhes de seres humanos. E uma humanidade por construir

O mundo atingiu nestes diasuma populao de sete bilhes de habitantes. A previso da ONU era de que esse divisor seria alcanado no dia 31 de outubro, na ltima segunda feira. A marca redonda, superlativa, leva gua ao moinho dos apelos neomalthisianos que tem conquistado adeptos aqui e alhures. Escudado na justa preocupao com o equilbrio ambiental, o neomalthusianismo pega carona num boa causa para rejuvenescer um velho truque histrico: atribuir a pobreza ao excesso de pobres.

O planeta vive hoje uma crise endogmica, ambiental e econmica. A superao de uma no se far sem a equao da outra. Mas h hierarquia entre causas e efeitos. No a demografia que explica as conexes entre misria, fome e devastao ecolgica. H uma devastao precedente sempre omitida nas manchetes demografbicas: a concentrao histrica de poder econmico e poltico que acarreta a explorao devastadora de recursos humanos e naturais. Um dado resume todos os demais: 20% da populao mundial consome 80% dos recursos que formam as bases da vida na Terra. Ainda que os demais 80% da demografia excedente fossem exterminados, o padro de consumo capitalista, e o desperdcio intrnseco a ele, continuaria a fazer estragos estruturais no planeta. A desordem exacerbada pelo colapso neoliberal tende a acentu-los. Ela amplifica a misria numa ponta e justifica a procrastinao temerria de acordos e medidas cautelares para refrear a rapinagem ambiental na outra. A salvao das finanas ocupa as atenes e os recursos disponveis na agenda do mundo: no h sobras para acudir a fome, tampouco espao para investir em reordenao ambiental.

Esse segundo plano ameaa a relevncia da Cpula da Terra, a Rio 2012. Ser necessrio uma mobilizao poltica contundente para romper a blindagem financista predominante na agenda da crise e incorporar os reais interesses da humanidade e do planeta na reordenao da economia mundial. Isso no se faz com tergiversaes demogrficas que ofuscam em vez de iluminar a raiz dos problemas.

Cerca de 1,1 bilho de pessoas sobrevivem com menos de 1 dlar por dia e 2,8 bilhes subsistem com menos de 2 dlares/dia nesse momento. A infncia da humanidade, formada por dois bilhes de crianas, tem a metade de seus protagonistas aprisionados no redil da pobreza e da insegurana alimentar.

A OIT (Organizao Internacional do Trabalho) explica como se d a transmisso geracional da excluso: quatro em cada dez trabalhadores do mundo so pobres e a natalidade evolui na razo inversa da curva de renda. O colapso neoliberal adicionou mais 30 milhes de desempregados s ruas: hoje so mais de 200 milhes em todo o planeta. Entre os que esto empregados, 1,3 bilho ganham at dois dlares por dia; 489,7 milhes ganham menos de 1 dlar/dia. Dados da ONU e do Banco Mundial indicam que 80% da humanidade vive com menos de dez dlares por dia.

A especulao no mercado de commodities, que inflaciona os preos dos alimentos e multiplica a fome, rene hoje recursos da ordem de US$ 400 bilhes de dlares. Quatrocentas vezes o oramento anual da FAO, principal organismo de cooperao voltado para o desenvolvimento agrcola e a segurana alimentar. Nos anos 80, antes da desregulao neoliberal, o volume total aplicado em contratos especulativos era inferior a US$ 20 bilhes.

Esse o pano de fundo sobre o qual ser decidida a sorte de sete bilhes de seres humanos. No h soluo demogrfica para o destino da humanidade. Seu verdadeiro desafio humanizar a sociedade humana.

Por: Carta Maior