02/11/2011 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Multidões ocupam praças do mundo por mudanças globais

O movimento mundialparece ser um despertar coletivo em busca de uma alternativa mais solidária,democrática e ambientalmente viável à esta situação de crise planetária, uma alternativa que tenha como base as necessidades e anseios humanos e também a sustentabilidade.

Sandra Ortegosa

A vontade de mudança e a indignação são os principais motes da crescente onda de manifestações no mundo inteiro, e que representam nada mais do que a entrada em cena de um potente “basta” de centenas de milhares de cidadãos às injustiças sociais, aos desmandos das grandes corporações que dominam a economia global, e aos políticos corruptos que as apóiam. As redes sociais da internet têm cumprido um papel fundamental na articulação desses movimentos, possibilitando uma comunicação mais rápida e produtiva, que se materializa nas ruas, mobilizando e dando voz aos manifestantes, numa estratégia que foge à lógica partidária e ao conteúdo programático pré-definido.

500 mil pessoas em Madri

O dia 15 de maio desse ano pode ser considerado um marco histórico nas grandes mudanças queestão por vir. Nesse dia, milhares de espanhóis “Indignados” desafiaram a proibição de manifestações, numa iniciativa idealizada pelo grupo espanhol “Democracia Real Já”, e montaram um acampamento na Praça do Sol em protesto contra a corrupção política e a maneira como o governo vem lidando como a crise econômica. Essa manifestação colocou em marcha um movimento da sociedade civil auto organizada, chamado 15M que, mesmo com a quase nula divulgação por parte da mídia espanhola, expandiu-se pela Europa, Ásia, África e América, passando a ser denominada como “revolução global”. A onda de protestos vem se alastrando rapidamente com a ajuda das redes sociais da internet, e do Norte da África ao Oriente Médio, os oprimidos começam a derrubar ditaduras bizarras.

Ocupando Wall Street

De todos esses movimentos, no entanto, um dos que mais está incomodando os grandes interesses do capital financeiro global é, sem dúvida, o Occupy Wall Street e o seu rápido alastramento por inúmeras outras cidades dos Estados Unidos e dos quatro cantos do mundo. Existe uma clara relação entre esse movimento e os protestos antiglobalização que conquistaram a atenção do mundo em 1999, em Seattle. A mensagem dos manifestantes é clara e direta: “somos os 99% da população que não toleram mais a ganância e a corrupção do 1% restante”. São milhares de jovens acampados no epicentro do poder financeiro global, protestando contra a corrupção do sistema financeiro e a injeção de dinheiro público para salvar os bancos. Para desespero dos magnatas corruptos, os “indignados” norte-americanos estão recebendo cada vez mais apoio de intelectuais e artistas famosos, como Noam Chomsky, Michael Moore, Cornel West e Susan Sarandon.

O curioso é que, apesar das prisões e da brutalidade da repressão policial, o movimento continua resistindo e inspirando vários outros no mundo todo.

As grandes Coorporações controlam o mundo.

A explicação reside naindignação coletiva em relação à perversidade do processo de globalização capitalista, que levou à construção de um mundo extremamente desigual e injusto. Um dos documentários de maior sucesso mundialmente, o “The Corporation”, mostra que não são os governos que controlam o mundo , mas sim as corporações, através da mídia, das instituições e dos políticos, facilmente corruptíveis. A atual crise do capitalismo vem acompanhada da centralização do capital nas mãos decorporações transnacionais e caracteriza-se pelo aumento do desemprego, pela precarização das relações de trabalho, pela degeneração de valores éticos, pela escalada da corrupção e da impunidade, configurando-se como uma crise de caráter civilizacional e de dimensões planetárias.

As grandes corporações empresariais controlam a economia global explorando a mão de obra dos países dependentes e produzindo uma verdadeira fábrica de mazelas em todos os continentes: ao mesmo tempo em que se gera o desperdício, a fome dizima milhões de pessoas na África, Ásia e América Latina. Atualmente, os vinte maiores bancos do mundo possuem um poder financeiro muito superior ao de dezenas de paísesjuntos, e quem paga o ônus da crise são os trabalhadores. É contra essa gritante injustiça social que se insurge a multidão que ocupa a Wall Street, composta principalmente de jovens desempregados, recém egressos das universidades e sem perspectiva de trabalho. Esse grito de revolta colocou em foco o enfrentamento do cerne do capitalismo etem encontrado repercussão e empatia no mundo inteiro.

Como surgiu a ideia de ocupação da Wall Street?

A ideia de ocupação do lugarque é o ícone máximo do capital financeiro, surgiu de uma das cenas do filme “Capitalismo”, de Michael Moore, onde ele, no papel de um cidadão comum, tenta executar a prisão da diretoria da empresa de seguros AIG, envolvendo a entrada do edifício da Bolsa de Valores de Nova Iorque com uma fita de isolamento usada em cenas de crime. No dia 13 de julho deste ano, o grupo de ativistas culturais Adbusters.org publicou em sua revista uma convocatória para que milhares de cidadãos dos Estados Unidos ocupassem a Wall Street no dia 17 de setembro, replicando a ocupação da Praça Tahrir do Egito. Mais de cinco mil pessoas atenderam ao chamado e a partir de então, o movimento vem crescendo, ao mesmo tempo em que enfrenta a repressão policial e o silêncio conivente da mídia oficial.

O movimento é mundial: “Unidos por uma Mudança Global”.

No dia 15 de outubro, multidões em mais de mil cidades, espalhadas por 82 países, inclusive o Brasil, protestaram contra a crise financeira mundial e a corrupção. O Movimento 15-O, cujo slogan é “Unidos por uma mudança global”, reuniu cidadãos nos cinco continentes.

Nova Friburgo também se fez presente no movimento mundial

Em Nova Friburgo, na esteira das transformações mundiais e como resultado da articulação dos vários movimentos que vinham atuandona cidade, realizou-se, nos dias 14 e 15 de outubro na Praça Getúlio Vargas, uma acampada e manifestação pacífica e criativa. Um dosobjetivos foi pressionar as autoridades a adotarem medidas de prevenção com relação às chuvas de verão. No final da tarde, formou-se um grande círculo para homenagear as vítimas da catástrofe e aprovou-se um manifesto que destaca a situação de vulnerabilidade em que se encontram as cidades da região serrana , reivindicando a construção de bairros em áreas seguras e em harmonia com a natureza, transporte coletivo de qualidade, ciclovias, uso inteligente dos recursos naturais, investimentos nas áreas de saúde, educação, democracia real e transparência no uso do dinheiro público.

No encerramento, a confraternização com danças circulares e a acampada tiveram que ser interrompidas devido ao temporal que, rapidamente, transformou as ruas do entorno da praça em rios caudalosos, ilhando os manifestantes e reavivando o sentimento de pânico ainda latente no inconsciente coletivo da população local. No dia 18 de outubro, mais de 300 pessoas realizaram um panelaço na Câmara Municipal, cobrando medidas emergenciais que garantam um mínimo de segurança aos moradores de Nova Friburgo.

O que se revela de forma indubitável nessa onda mundial de manifestações, é que as ruas e praças estão readquirindo seu caráter de locus privilegiado para o exercício da vontade popular. Como explicita um dos documentos oficiais do Occupy Wall Street:“Estamos construindo o mundo que queremos, tomando por base as necessidades humanas e a sustentabilidade, no lugar da ganância das grandes coorporações mundiais”.

Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP, Phd em Antropologia pela PUC-SP

Por: ForumSec21