03/10/2011 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A Rio+20 e os grandes desafios do Século XXI

“O Planeta não é inanimado. É um organismo vivo. A terra, as rochas, oceanos, atmosfera e todos os seres vivos são um grande organismo. Um sistema de vida holístico e coerente, que regula e modifica a si mesmo”.(James Lovelock).

Em junho de 2012, vinte anos após a realização da Eco-92, teremos a Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável), num momento crucial de definição dos rumos do planeta. Novamente estarão reunidos na cidade do Rio de Janeiro, governantes e ambientalistas do mundo inteiro com o objetivo de avaliar e renovar os compromissos dos líderes mundiais com o desenvolvimento sustentável do planeta, através da definição de uma agenda global futura, cujos temas centrais são a reestruturação da governança mundial e a implementação da “economia verde”.

Segundo o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, o desafio coletivo atual é a transição para uma economia verde em meio a uma era de incertezas, mas com algumas certezas inquestionáveis, como os impactos das mudanças climáticas sobre as cidades. A previsão é que, em 2050, 70% da população mundial estará vivendo em cidades, concentradamente nos países mais pobres, intensificando os problemas ambientais decorrentes do desemprego, da pobreza, do transporte precário e da proliferação de assentamentos irregulares em áreas de risco. A grande meta dessa conferência mundial, portanto, é a busca de respostas mais efetivas ao desafio de aumento da geração de emprego, renda e riqueza, com menos emissão de carbono e sem destruição do meio ambiente.

Grandes desafios

Dentre os maiores desafios deste início do século XXI, adquire destaque a questão dos refugiados do clima – os excluídos do banquete da globalização. Cresce no mundo inteiro o número de pessoas forçadas a abandonar seus territórios em função das inundações, queimadas, contaminação química ou qualquer outro tipo de desastre ambiental. Só em 2010, aproximadamente 42 milhões de pessoas tiveram que abandonar suas casas por causa dos impactos dos desastres naturais (mais do que o dobro do ano anterior). Mais de 90% desses desalojamentos foram causados por enchentes, tempestades ou secas. As previsões são de que, com o aumento da intensidade e frequência dos eventos climáticos extremos, essa situação deva se agravar. No Japão, o desastre ocorrido em março desse ano deixou um saldo de mais de 10 mil mortos, 19 mil desaparecidos e 500 mil desalojados. A tragédia que atingiu a região serrana fluminense figura entre os dez piores deslizamentos do mundo nos últimos 111 anos, segundo a ONU.

No Brasil, obras públicas mal projetadas e impactantes

O que mais deteriora o meio ambiente, no Brasil, são as obras públicas mal projetadas e impactantes (como é o caso do projeto da mega usina hidrelétrica Belo Monte, na Amazônia) e a inépcia ou frouxidão do poder público em relação às ocupações irregulares em área de risco (quadro que deve se agravar, ainda mais, se as alterações do Código Florestal forem aprovadas).

A Lei da Mãe Terra; natureza tem direitos iguais aos humanos.

No outro extremo, a Bolívia está nos dando o exemplo do caminho a seguir. A “Lei da Mãe Terra”, colocando-a no centro de todo o universo vital, resgata a visão de mundo indígena andino, onde Pachamama é considerada “sagrada, fértil e a fonte da vida que alimenta e cuida de todos os seres viventes em seu ventre” (David Choquehuanca). Essa lei propicia, à natureza, direitos iguais aos dos humanos: direito à vida, direito à continuação de ciclos e processos vitais livres de interferência humana, direito à água e ar limpos, direito ao equilíbrio, e direito de não ter estruturas celulares modificadas ou alteradas geneticamente; garantindo também que o país não seja afetado por megaestruturas e projetos que alterem o equilíbrio de ecossistemas e comunidades locais.

Diferenças em relação a ECO 92 e os tres desafios da RIO + 20

Uma diferença fundamental entre a Eco-92 e a Rio+20, é que agora a sociedade civil tem uma capacidade de mobilização muito maior que há vinte anos atrás. No mundo inteiro estão pipocando protestos e manifestações políticas organizadas a partir de articulações pelas redes sociais, como o facebook e o twitter, que se transformaram em ferramentas para intervir e transformar a realidade, a grande “ágora” do mundo contemporâneo.

As novas tecnologias da comunicação nos capacitam a expandir a imaginação criativa e o poder intelectual, gerando as condições para uma total reformulação da nossa relação com o planeta.

Portanto, os três grande desafios que se apresentam aos atores da Rio+20 são: controlar as mudanças climáticas, redesenhar a arquitetura da governança mundial e mudar o modelo de civilização, a partir de valores como a sustentabilidade, a solidariedade e a responsabilidade.

A economia de mercado é compatível com a preservação do meio ambiente?

Desenvolvimento sustentável pressupõe um equilíbrio entre o social, o econômico e o ambiental. Cabe indagar se existe compatibilidade possível entre desenvolvimento sustentável e o modo de produção capitalista. Como afirma Leonardo Boff, “o sistema econômico que gerou a crise não pode ser o mesmo que vai nos tirar dela”. O homem contemporâneo é um predador que age de forma imediatista e cega, deixando de calcular o quanto pode consumir antes de atingir a autodestruição.

Em meio a esse quadro de crise generalizada, que coloca em risco a continuidade da vida no planeta, a boa nova é que veem surgindo experiências no mundo inteiro de mudanças paradigmáticas a partir da criação de ecobairros, ecovilas e projetos sustentáveis, com emprego de energia limpa, redução da emissão de gases poluentes, implantação de hortas orgânicas comunitárias, incentivo ao comércio local e à prática da economia solidária.As cidades começam a ser vistas como sistemas ecológicos, onde a solução para os seus desequilíbrios está na implementação de um “metabolismo” circular que leve à diminuição do consumo e à maximização dos recursos, mediante a reciclagem de materiais, redução do lixo e preservação dos recursos não renováveis. O êxito dessas mudanças, no entanto, depende do envolvimento e motivação dos cidadãos.

A principal missão da nossa geração

O que se torna cada vez mais inquestionável é que a perversidade do processo de globalização capitalista levou à construção de um mundo extremamente desigual e injusto, cabendo a nós a reorientação de nossa trajetória histórica como única opção de sobrevivência. A nossa geração está passando pela oportunidade de viver no limiar de uma civilização terminal e uma civilização que emerge. Trata-se, portanto, de um momento de encruzilhada, um ponto de mutação (Fritjof Capra) para um novo modelo de civilização, baseado em valores como a cooperação, a solidariedade e a compaixão, no lugar da competição, do individualismo e da indiferença em relação ao próximo, colocando em cena a oportunidade de redesenharmos essa transição planetária com consciência do que queremos e do que não nos interessa mais.

Sandra Ortegosa

sandraortegosa@yahoo.com.br

Arquiteta e socióloga pela USP

Phd em Antropologia pela PUC-SP

Por: ForumSec21