03/10/2011 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Conjunto de políticas públicas é solução para êxodo rural de jovens, aponta ONG

Entre os anos 2000 e 2010, 835 mil jovens brasileiros deixaram o campo e foram para a cidade. Com isso, a população jovem rural caiu de 18% para 16%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como principais motivos para a mudança, especialistas assinalam falta de políticas públicas e acesso a direitos básicos, como saúde, educação, lazer, cultura e inclusão digital.

Coordenadora do Núcleo do Centro de Desenvolvimento do Jovem Rural (Cedejor) no Vale do Rio Grande do Sul (estado da região sul do Brasil), Adriana Bôer acredita que é necessário implementar um conjunto de políticas públicas para reverter o quadro.

"Tem que dar oportunidades para o jovem. O Pronaf Jovem [programa do governo para incentivar agricultura familiar e promover acesso ao crédito] tem muitas dificuldades de acesso, eles acham que o jovem não vai empreender. Precisa de acessos básicos – educação, voltada de fato para o campo, lazer, cultura, e políticas de inclusão digital”, afirma.

De acordo com o IBGE, os jovens brasileiros urbanos têm nível de escolaridade 50% maior que os que vivem na zona rural.

No Sul, ela explica que o principal fator que motiva o êxodo rural é a sucessão de terras. "Os filhos não tem propriedade da terra, então acabam não ganhando o seu próprio dinheiro, porque trabalham, mas a terra é do pai. Por outro lado, todo jovem quer ter acesso às coisas, que ter dinheiro para comprar o que lhe interessa e sair com os amigos. O fato de o jovem não participar da gestão familiar faz com que ele saia cada vez mais cedo do campo”, aponta.

Frente a isto, o Cedejor desenvolve há dez anos, em seu Núcleo no Rio Grande do Sul, o Programa do Empreendedorismo Jovem Rural.

São turmas de 30 jovens, que passam por um ano intenso de formação. Primeiro eles debatem o papel dos jovens no campo, o que implica um processo de autoconhecimento; depois vão ao campo, para reconhecer o território; e por fim elaboram um projeto de empreendedorismo para geração de renda junto à família ou, no caso dos que já têm produção familiar melhor estruturada, desenvolvem projeto da linha social, como centros de cultura digital.

Adriana destaca a utilização da Pedagogia da Alternância, em que os jovens permanecem uma semana no Núcleo e duas em casa, onde vão fazer estudo orientado e retornam com questões para debater com os orientadores. "Sempre essa relação de ida e vinda, que é pra eles não perderem vínculo com o local onde moram”, detalha.

Mesmo com o esforço de formação, a coordenadora avalia que o processo de êxodo rural na região continua intenso, principalmente neste ano. Ela cita alguns motivos para a permanência do fenômeno social. "Há poucas instituições que trabalham com esse foco de incentivar o jovem a ficar no campo. A Secretaria de Agricultura ou de Educação tem que dar aval para esse jovem. Ele sai da formação e não é bem recebido pelo meio, então se sente fracassado”, coloca.

Outro problema grave, ligado a falta de políticas públicas, é o acesso difícil a serviços básicos. "Não é suficiente só o recurso agrícola. Falta saúde, educação e lazer, que é muito importante. Para os jovens pesa muito a questão da inclusão digital, que aqui é bastante precária”, ressalta.

Camila Queiroz

Por: ADITAL