25/08/2011 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Ferrovia alemã deve ser movida a sol e vento para manter clientes satisfeitos

22/08/2011

Não será fácil alimentar uma ferrovia nacional com energias renováveis como a eólica, a hidrelétrica e a energia solar, mas é isso que a Deutsche Bahn da Alemanha pretende fazer, por uma simples razão: é isso que seus consumidores querem.

A Deutsche Bahn diz que quer aumentar a porcentagem de energia eólica, hidrelétrica e solar para alimentar seus trens dos atuais 20% para 28% em 2014, e se tornar livre de carbono até 2050.

“Os consumidores na Alemanha deixaram claro que querem que todos nós deixemos a energia nuclear e usemos mais energias renováveis”, afirmou Hans-Juergen Witschke, diretor-executivo da Deutsche Bahn Energie, sobre os objetivos revistos da ferrovia, que excedem as metas já ambiciosas do governo.

“É o que os consumidores querem e estamos fazendo acontecer”, declarou Witschke em uma entrevista com a Reuters. “A demanda por eletricidade verde continua aumentando a cada ano e essa é uma tendência”.

As atitudes predominantes na Alemanha já eram decididamente ‘verdes’, mesmo antes que o acidente nuclear na usina japonesa de Fukushima em março incitasse um mergulho pioneiro nas renováveis.

O governo alemão mudou abruptamente o curso da energia nuclear, fechando oito usinas nucleares e votando pelo fechamento de outras nove até 2022.

Isso pegou a Deutsche Bahn – e a indústria alemã – de surpresa. As ferrovias estatais se baseiam fortemente na energia nuclear. Mas agora o público e a indústria estão cada vez mais em sintonia com a sustentabilidade e com o que as companhias estão fazendo, disse Witschke.

“A proteção ambiental se tornou um assunto importante no mercado e especialmente no setor de transporte”, afirmou ele. “É uma megatendência. Ainda que as renováveis custem um pouco mais, isso pode ser resolvido com um mix inteligente de energias e um período de tempo razoável. Estamos confiantes de que cortar as emissões de CO2 (dióxido de carbono) nos dará uma vantagem competitiva”.

‘GREEN-WASHING’?

Ainda há preocupações sobre a confiabilidade das renováveis, à medida que sua participação sobe para 100% e antes que mais capacidade de armazenamento esteja disponível. O que acontece quando não há vento ou luz do sol?

Alguns analistas da indústria de transporte são céticos.

“Isso parece um pouco de ‘green-washing’”, afirmou Stefan Kick, analista da Silvia Quandt Research, uma agência corretora de Frankfurt. “Obviamente os custos das energias renováveis vão ser maiores. Mesmo se os clientes estiverem realmente dispostos a pagar, seria assim”.

O novo impulso da ferrovia para aumentar a quota das energias renováveis para operar trens, que transportam 1,9 bilhões de passageiros e 415 milhões de toneladas de peso a cada ano, ganhou a aprovação de grupos ambientais.

Eles comemoraram as parcerias da Deutsche Bahn com fornecedores de energia eólica e hidrelétrica e seus movimentos para coletar energia solar dos tetos de suas 5,7 mil estações.

Paineis fotovoltaicos no telhado de vidro da principal estação de Berlim produzem 160 mil kW/h de eletricidade por ano – atingindo cerca de 2% das necessidades da estação central.

Anteriormente, ambientalistas acusavam a companhia de negligenciar o desenvolvimento de energias renováveis em suas vastas propriedades e por sua forte dependência da nuclear.

Peter Ahmels, especialista em energias renováveis da Associação Alemã de Ajuda Ambiental (DUH), declarou que as ferrovias poderiam ter feito mais com a eólica e a solar em suas propriedades.

Em vez disso, ele disse que a Deutsche Bahn dependeu complacentemente de sua imagem de um meio de transporte de baixa emissão.

A empresa pôde fazer isso porque mesmo trens de alta velocidade têm emissões de CO2 por passageiro de 46 gramas, comparadas com uma média de 140 gramas para carros e 180 para aviões.

“Desde Fukushima, a Deutsche Bahn está indo na direção certa”, afirmou Ahmels. “Há claramente um novo pensamento a bordo. Eles estão fazendo coisas sensíveis. Antes eles resistiam. O argumento era que as renováveis não eram seu empreendimento principal”.

VISÃO LIVRE DE CARBONO

Os trens de alta velocidade cortam o país a 300 quilômetros por hora. Até 2014, um terço da eletricidade para trens de longa distância virá de fontes renováveis.

A Deutsche Bahn também faz milhares de operações ferroviárias locais em vilas e cidades. Algumas operações, como as das ferrovias em Hamburgo e Saarland, já são movidas 100% a energias renováveis e a empresa se vangloria orgulhosamente disso na publicidade.

Para mover seus trens, as ferrovias usam uma surpreendente quantidade de energia a cada ano: 12 terawatt hora. Isso é tanto quanto Berlim, com seus 3,2 milhões e residentes, consome.

As ferrovias sozinhas usam 2% da eletricidade total da Alemanha. Um único trem ICE (Expresso Interurbano) de alta velocidade de Frankfurt a Berlim usa cerca de 4,8 mil kW/h, o suficiente para uma família de quatro pessoas para um ano inteiro.

A Alemanha já é a líder mundial em energias renováveis. Cerca de 17% de sua energia vêm das renováveis, dos cerca de 6% em 2000.

O governo alemão visa aumentar essa participação para 35% até 2020 e 80% até 2050. Witschke declarou que a Deutsche Bahn terá 35 ou 40% de energia renovável até 2020 e 100% até a metade do século.

“Temos a visão de sermos livres de carbono até 2050. Isso não é apenas uma declaração de intenção. É uma meta concreta de negócios”.

Alguns passageiros e parceiros de negócios, como a fabricante de carros Audi, já pagam voluntariamente pequenas sobretaxas por pacotes de transporte livres de CO2, que garantem que energia verde é usada.

“A demanda por nossos produtos livres de CO2 tem estado acima das expectativas”, disse Witschke. “Os clientes realmente querem isso. Se eles continuarem voltando-se para produtos livres de CO2 nesse ritmo, estaremos acima da marca de 40% em 2020.

Para ajudar a atingir essa meta, a Deutsche Bahn tem operado dois parques eólicos em Brandeburgo e assinou em julho um acordo de € 1,3 bilhões com a empresa RWE para receber 900 milhões de kW/h por ano de 14 usinas hidrelétricas – o suficiente para 250 mil famílias.

Porque ainda há questões sobre a confiabilidade das energias renováveis até que as capacidades de armazenamento possam ser aumentadas, Witschke afirmou que ele monitora cuidadosamente os parques eólicos para aprender mais.

“É um processo de aprendizagem”, declarou ele. “Enfrentamos o mesmo problema que todos: o que faremos quando não houver vento? A experiência que temos é que vento demais (quando as turbinas são desligadas) é um problema maior do que quando não há o suficiente”.

O acordo hidrelétrico com a RWE é de 15 anos e abastecerá as ferrovias em cerca de 8% de suas necessidades.

“Há um impacto bastante simbólico quando a maior usuária de eletricidade do país dá um passo tão grande para as energias regenerativas”, disse Witschke. “Somos também uma das maiores usuárias de eletricidade na Europa. Isso não vai passar despercebido”.

Erik Kirschbaum

Por: Reuters