06/05/2011 Noticia AnteriorPróxima Noticia

O modelo de urbanização da região serrana e os desafios da reconstrução pós-catástrofe

Sandra Ortegosa

sandraortegosa@yahoo.com.br

“Os problemas do mundo não podem ser resolvidos por céticos ou cênicos cujos horizontes sejam limitados por realidades óbvias. Nós precisamos de pessoas que sonhem com algo que nunca existiu”. (F. Kennedy)

Um dos maiores desafios na tarefa de reconstrução de Nova Friburgo e das demais cidades da região serrana do Rio de Janeiro, atingidas pelas chuvas torrenciais de janeiro, é o da provisão de moradias em larga escala e em locais seguros, a partir da adoção de soluções técnicas que não repitam os erros do passado. O desastre ambiental, que devastou essa região, colocou em foco na mídia mundial a situação de vulnerabilidade em que se encontram nossas cidades em razão de um desenvolvimento urbano pautado na sobreposição dos interesses do capital imobiliário sobre os da coletividade, ignorando os limites da natureza. Catástrofes como essa e a que atingiu o Japão no mês passado, trazem à tona a urgência de reformularmos radicalmente a maneira como nos relacionamos com o nosso habitat, colocando em destaque as questões do direito à moradia segura e da preservação ambiental do planeta como um todo.

O ser humano tem uma relação muito agressiva com o planeta

Numa avaliação incisiva sobre o estado limítrofe em que se encontra o meio ambiente em termos globais, Leonardo Boff afirma que a relação agressiva da humanidade para com o planeta tornou-se “uma força geofísica altamente destrutiva, inaugurando, como já se fala, o antropoceno, uma nova era geológica, marcada pela intensiva intervenção descuidada e irresponsável do ser humano”. O sucesso e a preservação da vida no planeta Terra estão intimamente associados à sua capacidade de adaptação às transformações do meio ambiente. Das civilizações passadas, aquelas que souberam cuidar dos seus recursos naturais foram mais bem sucedidas ao se anteciparem às alterações climáticas e ambientais. As que, ao contrário, exploraram de forma abusiva esses recursos traçaram o caminho da própria extinção. É o que Jared Diamond chama de “eco-suicídio”, ou seja, a incapacidade de entender a fragilidade do meio ambiente combinada com a ganância que leva à exploração dos recursos naturais muito além do limite sustentável.

Uma das principais contradições dialéticas do sistema capitalista, como demonstrou Karl Marx, é que o avanço das forças produtivas já não é capaz de gerar progresso ou riquezas sociais, mas apenas desemprego em massa, aumento dos conflitos sociais e dilapidação dos recursos naturais. O aprofundamento dos mecanismos de exclusão social, intrínseco à atual etapa de globalização do capitalismo, gerou uma profunda desigualdade social na exposição aos riscos ambientais. Além da insegurança do desemprego, da falta de políticas sociais e da precarização do trabalho, os excluídos do direito à cidade são submetidos aos riscos da moradia em encostas perigosas, várzeas de rios sujeitas a enchentes, áreas contaminadas por lixo tóxico, imediações de indústrias poluentes, áreas localizadas sobre gasodutos ou sob linhas de alta tensão de eletricidade. Em conseqüência, a degradação social e ambiental dos bairros periféricos tornou-se um problema que diz respeito ao mundo inteiro, tanto quanto o aquecimento global, a perda da biodiversidade, o esgotamento dos recursos hídricos ou o pico do petróleo.

A questão no Brasil

No Brasil, como na maioria dos países periféricos, as cidades nasceram e cresceram sob a égide de uma expansão urbana em forma de mancha de óleo e à margem da lei, avançando de forma predatória sobre áreas agrícolas, florestas, mananciais, manguezais, encostas íngremes e margens de rios. A ausência de planejamento urbano e a especulação imobiliária resultaram em cidades espraiadas, permeadas de vazios urbanos, baixa densidade e periferização da população de baixa renda. Trata-se de um modelo de urbanização que não produz cidade, mas apenas espaços sem urbanidade, verdadeiros acampamentos desprovidos de infraestrutura ou equipamentos básicos. Durante muito tempo acreditou-se que esses assentamentos precários eram provisórios e que seriam substituídos pelo Estado, através da produção massiva de unidades habitacionais financiadas. No entanto, a incapacidade dos nossos governantes em enfrentar o problema na escala requerida, levou à opção pela sua consolidação, gerando uma situação propícia aos desastres ambientais.

A sustentabilidade urbana

De todas as sociedades que, ao longo da história, contemplaram a possibilidade de um colapso, apenas a nossa tem a oportunidade de aprender com o passado. Isso nos coloca frente à necessidade inadiável de adoção de uma linha de conduta onde o ponto de partida é o presente: a situação caótica das cidades contemporâneas e a perda de todo o sentido do que é uma cidade, ou o que os gregos um dia chamaram polis. A própria noção de cidade está passando por uma mudança radical que coloca em cheque uma série de dogmas e teorias urbanísticas, trazendo à tona uma das estratégias mais significativas do século XX: “a tábula rasa, a ideia de se começar do zero, algo absolutamente indispensável para arquitetos como Le Corbusier. Essa postura demonstrava um otimismo extremo que as décadas seguintes demoliram por completo. Talvez o uso da tábula rasa necessite ser repensado, assim como as estratégias de urbanização são revisadas. Melhor isso, que ser desesperadamente conservador por incapacidade de especular em termos do novo” (Rem Koolhas).

Mudança radical

Cabe indagarmos se num mundo tão desencantado como o nosso ainda há lugar para as utopias. Num contraponto à perspectiva de um mundo perfeito e inatingível, podemos buscar a construção de um mundo melhor, eliminando a fome, as guerras e diminuindo as desigualdades sociais. Uma das tarefas mais urgentes dos planejadores e administradores urbanos, é priorizar o investimento em políticas sociais que diminuam a desigualdade e a exclusão das populações de baixa renda. A possibilidade de alcançarmos uma situação de sustentabilidade passa, portanto, pela conquista da justiça social e de um maior equilíbrio na distribuição das riquezas.

O momento presente é decisivo e propício a uma mudança radical de rumos e de construção de um projeto coletivo de desenvolvimento urbanoharmônico e em consonância com as exigências e limites da natureza. A Rio+20, no próximo ano, reunirá ambientalistas do mundo inteiro para uma avaliação dos avanços da ECO-92, colocando o Rio de Janeiro em destaque na mídia mundial. Trata-se de uma oportunidadede debate de ideias e experiências da reconstrução das cidades atingidas, mediante a adoção de soluções sustentáveis.

Iniciativas em Nova Friburgo

Desde janeiro, ainda de forma desarticulada, várias iniciativas na região serrana, no sentido de uma transformação positiva pós-catástrofe. Uma dessas iniciativas - o “Nova Friburgo em Transição” - tem como propósito inserir o município no movimento mundial das Cidades em Transição, articulando a sociedade civil organizada e o poder público, na concretização das mudanças necessárias para que a cidade atinja uma situação de sustentabilidade urbana, tornando-se menos vulnerável aos impactos ambientais e esgotamento do petróleo. Os interessados em participar desse movimento podem entrar em contato através do grupo do facebook ou das reuniões presenciais.

Para concluir, podemos acrescentar que a perspectiva de uma transição para um modelo urbano sustentável envolve também, e necessariamente, a transição dos atores sociais, mediante a integração de valores como a cooperação, a convivialidade, a solidariedade, a criatividade e a consciência de pertencimento à Terra-Pátria.

Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP

Phd em Antropologia pela PUC-SP

Por: ForumSec21