27/01/2011 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Barbárie do capital e descaso dos políticos - as lições do desastre que devastou a região serrana

"Chegou o tempo em que o silêncio é traição". Martin Luther King.

Na madrugada do fatídico dia 11/01/11, um caudaloso rio de dimensões amazônicas despencou pelas montanhas íngremes da serra fluminense, provocando uma avalanche de lama e pedras, e deixando um saldo de mais de 800 mortos e quase 30 mil desabrigados. Enquanto uma parcela consciente da sociedade civil brasileira mobiliza-se para tentar impedir mais um enorme desastre ecológico, com a construção da mega usina hidroelétrica de Monte Belo em pleno coração da Floresta Amazônica, as imagens assustadoras da imensa tragédia que se abateu sobre a região serrana do Rio de Janeiro percorriam o mundo, evidenciando a enorme vulnerabilidade a que a população brasileira está sujeita em nossas cidades.

Não apenas as casas improvisadas pelas populações desassistidas que ocuparam ilegalmente essas áreas de risco, mas também condomínios de alto padrão e edifícios construídos de acordo com as normas técnicas vieram abaixo, fazendo com que a paisagem, a geografia e a hidrografia local se transfigurassem de um dia para o outro. As sete cidades da belíssima região serrana do Rio de Janeiro (Bom Jardim, Sumidouro, Teresópolis, Petrópolis, Areal, São José do Vale do Rio Preto e Nova Friburgo), vitimadas por mais essa dura lição da natureza, encontram-se em estado de calamidade. Em abril do ano passado, apenas três dias de chuvas foram suficientes para deixar as cidades do Rio de Janeiro e Niterói à beira de um colapso. Em São Paulo, a mais rica cidade latino-americana, o caos se repete a cada ano.

Como entender as causas dessas tragédias que se repetem, ano após ano, com intensidade crescente? Em grande parte, ela é fruto da longa trajetória de laissez-faire na produção do espaço urbano brasileiro, devido ao descaso e à inépcia das autoridades brasileiras (federais, estaduais e municipais) em relação ao planejamento urbano e à política habitacional. Segundo estimativas oficiais, mais de 5 milhões de brasileiros vivem em situação de risco, em habitações insalubres, construídas de forma improvisada e sem as mínimas condições de saneamento. O déficit habitacional no Brasil ultrapassa a casa dos 10 milhões, fazendo com que desastres naturais transformem-se em tragédias de magnitudes inaceitáveis em pleno século XXI.

Indo um pouco mais além, no entanto, essas tragédias também colocam em evidência o imensurável desequilíbrio ambiental de escala planetária, resultante do processo civilizatório capitalista ao longo do século XX, sem equiparação possível com qualquer período histórico anterior. O século passado - considerado a Era dos Extremos (Hobsbawm) – promoveu, em nome de um suposto progresso ilimitado, a devastação de florestas inteiras, a eliminação da biodiversidade nelas existentes, o aquecimento global e a poluição do ar, da água e do solo; colocando em risco a própria continuidade da espécie humana.

Mas mudanças climáticas, sendo ou não responsáveis por fenômenos como esse que devastou a região serrana fluminense, não eximem a responsabilidade das autoridades no que se refere à adoção de mecanismos capazes de reduzir seus efeitos, com base em informações científicas e recursos tecnológicos já disponíveis. A falta de investimentos em obras de prevenção, desvios de verba, ocupações irregulares de áreas de riscos, loteamentos clandestinos, e o uso eleitoreiro dos recursos públicos, esclarecem as razões fundamentais do enorme impacto das chuvas sobre nossas cidades.

Portanto, a pergunta que se coloca é: será que, em um país, considerado uma potência latino-americana e situado entre as 10 maiores economias mundiais, cidades inteiras podem simplesmente ser riscadas do mapa, da noite para o dia, diante de chuvas torrenciais? E o que fazer diante desse descalabro? É em momentos de crise aguda como esse que também emergem as oportunidades de mudanças de rumo. Cabe às cabeças pensantes, atuantes e comprometidas com a construção de um mundo melhor, exigirem das autoridades que sejam realizadas as mudanças estruturais necessárias em nossas cidades, para que se minimizem os impactos devastadores do fenômeno urbano contemporâneo sobre o equilíbrio ambiental do planeta. Isso envolve a adoção de novos paradigmas urbanísticos, pautados em valores éticos como a responsabilidade e o respeito à natureza, a cooperação, a convivialidade e a criatividade. O que tragédias como essas estão a nos mostrar é a necessidade premente de construção de sociedades sustentáveis, a partir de mudanças estruturais, baseadas numa visão holística da realidade, e que privilegiem a qualidade de vida como valor primordial e superior à supremacia do lucro e dos resultados econômicos. Elas nos sinalizam a necessidade e premência de mudarmos nossos hábitos quotidianos, nossa forma de pensar, de fazer política, de nos relacionarmos com a natureza e com os demais seres vivos; substituindo a ideia de construção do “melhor dos mundos” pelo compromisso inadiável da construção de um mundo melhor.

Podemos transformar esse lamaçal que recobriu as cidades serranas do Rio de Janeiro numa flor de lótus, se quisermos verdadeiramente nos mobilizar para que isso aconteça. O conhecimento técnico, os instrumentos necessários e os recursos financeiros (nacionais e internacionais) existem e estão disponíveis. Resta saber se esses recursos serão empregados de acordo com os velhos padrões que resultaram nessa catástrofe, ou se servirão para colocarmos em prática a possibilidade de uma experiência modelo, que sirva de referência para outros locais com características semelhantes, a partir da aplicação dos princípios de um desenvolvimento sustentável e permacultural: emprego de técnicas da bioconstrução e de materiais locais nas novas construções; prioridade ao transporte público, ao pedestre e ao ciclista; uso de energias limpas e renováveis; tratamento biológico do esgoto; diminuição drástica na produção do lixo, mediante campanhas ecopedagógicas de consumo consciente e reciclagem; redução da impermeabilização do solo através do uso de pavimentação adequada e da implantação de parques, praças e quintais arborizados; produção de alimentos saudáveis em hortas orgânicas e agroflorestas; economia solidária etc. Parece utopia? Como afirma Eduardo Galeano, “temos, há muito tempo, guardado dentro de nós um silêncio bastante parecido com estupidez”. Ao contrário do que muitos ainda acreditam, o planeta Terra não é apenas uma bola mineral girando no espaço, Gaia – a nossa Mãe Terra - é um ser vivo, pensante e consciente, que está clamando por socorro e está nos dando inúmeros alertas de que o momento é de urgência e de ação!

Sandra Mara Ortegosa - sandraortegosa@yahoo.com.br

Organizadora da Feira da Terra

Arquiteta e socióloga pela USP

PHD em Antropologia pela PUC-SP

Por: ForumSec21