27/12/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A escravidão e a presença negra em Nova Friburgo

Por Francisco Rohen

O termo escravidão – condição de uma pessoa como propriedade de outra – vem dos primórdios da civilização humana. Em Atenas os escravos executavam trabalhos domésticos; no Império Romano os inimigos capturados eram escravizados e os mais perigosos eram jogados na cova dos leões. O regime de escravidão mais famoso da História foi imposto aos judeus pelos egípcios, libertos por Moisés.

Falando do Brasil, com o descobrimento, os portugueses, após o ciclo econômico do pau-brasil, tentaram escravizar os índios na lavoura de cana–de–açúcar, mas não deu certo, pois na cultura indígena a tarefa cabe as mulheres. Desta forma, a partir de 1549 começaram a chegar os primeiros escravos vindos da África, desembarcando em São Vicente. O Rei de Portugal Dom João III concedeu autorização a cada colono importar 120 africanos. Para alguns historiadores, em 1511, a nau Bretoa enviada por Fernando de Noronha já trazia negros a bordo.

Mercado de escravos na África

Quando os portugueses chegaram ao Continente Africano – bem antes dos outros colonizadores europeus – já funcionava um antigo mercado de escravos, comercializados por diversos motivos: prisioneiros de guerra; condenados por roubos, assassinatos, feitiçaria, adultério; penhora para pagamento de dívidas; rapto individual ou de grupos de pessoas por ataques as pequenas vilas, etc.

A importação de negros para o Brasil, a principio, foi para suprir a falta de mão de obra na lavoura e também na agroindústria açucareira no nordeste, iniciada no século XVI; - mineradoras nos séculos XVII e XVIII, Minas Gerais e Região Centro Oeste; - lavoura de algodão no maranhão século XVII e XVIII; - cultura cafeeira no sudeste: Rio de Janeiro, Minas, Espírito Santo e São Paulo século XIX.

O curioso é que entre 1820 a 1860, século em que se iniciaram os movimentos abolicionistas no país, importamos 1,2 milhões escravos, mais que o dobro da América Espanhola no mesmo período. Destaque para dois grupos de escravos negros africanos: os bantos (ou bantus) e sudaneses, provenientes de Regiões próximas ao Golfo da Guiné (África ocidental).

Na Bahia os africanos nagôs e yorubás, conhecidos como malês, talvez por terem vindos da região de Mali, onde a presença árabe trouxe a religião muçulmana, lideraram a revolta dos malês em 1835.

Em Nova Friburgo, temendo revolta semelhante a da Bahia a Câmara Municipal criou o Código de Posturas proibindo a prática de danças, cantorias e batuques em áreas urbanas da Cidade. Os senhores viam nas religiões-afro-brasileiras e o culto do candomblé como uma coisa do mal ou um plano de fuga. Para funcionarrem os centros tinham que ter licença da polícia; também foram proibidos ferreiros, barbeiros, espingardeiros, cuteleiros consertarem ou fabricarem armas para escravos.

Se os escravos já sofriam desta forma, imaginem quando fugiam, recapturados como castigos recebiam na testa a letra ‘F’ marcada com ferro em brasa; na reincidência cortavam-lhes o tendão de Aquiles, orelha e no pescoço um colar de ferro (golinha) para dificultarem novas fugas. Ordem expedida em alvará pelo Imperador. Muitos não suportando as crueldades se suicidavam.

No período da escravidão existiam nas áreas urbanas do país os escravos de ganhos, muitos tinham profissões como: mucamas, pajens, cocheiros, amas, tipógrafos, barbeiros, sapateiros, lavadeiras, costureiras, cozinheiras etc. Seus serviços eram alugados aos senhores, principalmente a ama–de–leite, na figura de mãe preta prestigiada, amamentava e ajudava a criar os filhos das senhoras brancas. Por um ganho de 500 ou 600$000 por um ano de trabalho, tinha que abandonar o filho neste período. O índice de mortalidade infantil das crianças negras era alto em comparação com as crianças brancas e indígenas. Com o dinheiro alguns compravam a sua Carta de Alforria.

Entre as datas importantes para os negros brasileiros estão: a Lei Eusébio de Queiroz de 1850 extinguindo o tráfico de escravo africano e a paralisação de uma mina de ouro de Santa Rita da Floresta; Lei do Ventre livre; Abolição da Escravatura; Criação do Conselho Nacional de Mulheres Negras; a Lei Afonso Arinos, colocando a Discriminação Racial como Contravenção Penal; Criação do Grupo União e Consciência Negra no Brasil; dia Nacional da Consciência Negra no Brasil; Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (SEPPIR/PR), ligada à presidência da República; dia de Nossa Senhora do Rosário, protetora dos negros.

Escravidão em Nova Friburgo

Em Nova Friburgo o barão Antonio Clemente Pinto foi um grande comerciante de escravos, negociava negros para os fazendeiros de toda região. Suas propriedades iam de Cachoeiras aos arredores de São Fidelis, e além de ser produtor de café financiava também lavouras de outros fazendeiros; com isso inaugurou em 1884 a linha férrea ligando Cachoeiras-Nova Friburgo-Cantagalo, para o transporte de café e passageiros.

Apesar de raras pesquisas aprofundadas sobre os imigrantes suíços e alemães em Nova Friburgo, nossos irmãos colonizadores adotavam também a mão de obra escrava em suas fazendas de café no Vale de Macaé. Tanto que existia a Praça do Pelourinho, atual Praça Marcílio Dias. Fatos que estão no livro Presença Negra, de Gioconda Lozada.

O Centro Cultural Afro Brasileiro Ysun–Okê, coordenado pelas professoras Ilma e Eliana Santos, que fazem parte dos conselhos municipais de Saúde; Meio Ambiente; Segurança Alimentar e Nutricional e do Conselho Municipal da Mulher (sendo implantado). Também dão palestras em escolas públicas, particulares e universidades. Cujo objetivo é falar e divulgar a cultura negra; do preconceito e a discriminação racial vindo período colonial. Após a Abolição da Escravidão a política do embranquecimento da raça preteriu os negros abrindo as portas aos imigrantes libaneses e japoneses. Contatos com o Movimento Negro aos sábados/domingos, Praça das Colônias – Colônia Pan Africana – Centro – Nova Friburgo/RJ Tel. (22) 2543-6292 ou 2533-2051.

Por: ForumSec21