27/12/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Violência urbana adquire dimensões de guerra civil

Por Sônia Ortegosa

A principal motivação dos jovens das camadas médias, atualmente, é a aquisição de bens materiais. Sua adesão ao crime tem a ver não só com os apelos ao consumismo, mas, sobretudo, com a ausência de uma utopia e de projetos coletivos.

A recente onda de violencia urbana no Rio de Janeiro colocou o Brasil inteiro em estado de alerta e tornou evidente o quadro de debilidade política da sociedade civil, especialmente nos domínios territoriais das quadrilhas de traficantes. Carros e ônibus incendiados, invasões às favelas comandadas por facções inimigas, arrastões, caos geral - os acontecimentos traumáticos que marcaram o mês de novembro, ganharam repercussão na mídia mundial (tendo em vista que o Rio irá sediar a próxima Copa do Mundo e as Olimpíadas), merecendo uma reflexão mais profunda sobre suas causas.

Nos debates cada vez mais freqüentes em torno da escalada da violencia nas grandes metrópoles do mundo inteiro, está se esboçando um preocupante consenso, tanto por parte dos intelectuais, como da mídia e do cidadão comum, quanto à visão de que esse fenômeno já atingiu as dimensões de uma guerra civil molecular sem conteúdo ideológico. Como adverte Hans Enzensberger, “dela não participam apenas terroristas e agentes secretos, mafiosos e skinheads, traficantes de drogas e esquadrões da morte, neonazistas e seguranças, mas também cidadãos discretos que à noite se transformam em hooligans, incendiários, dementes violentos e serial killers”.

Esse surto epidêmico de violencia nos faz pensar que cenas de filmes como Assassinos por Natureza, Collors, Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Um Dia de Fúria e Tropa de Elite, entre tantos outros, há muito deixaram de ser ficção para se transformarem em realidades bastante concretas e, de alguma forma, já vivenciadas por grande parte dos habitantes de metrópoles como o Rio de Janeiro, São Paulo ou Los Angeles. Essas manifestações descabidas de violencia cotidiana constituem, sem dúvida, sérios alertas da relação entre a criminalidade e a deterioração aguda da qualidade de vida nas metrópoles, levando um número crescente de pessoas a buscarem outros locais mais tranquilos e seguros.

Busca de explicações

As explicações para esse fenômeno são de diversas ordens, desde o aprofundamento dos contrastes sociais e a elevação das taxas de desemprego, em decorrência dos avanços técnico-científicos e ajustes ao neoliberalismo; a crise generalizada dos valores culturais, éticos e ideológicos; o desmesurado crescimento urbano; e todo um quadro de desequilíbrios psíquicos associado a um aumento assustador dos níveis de agressividade individual e coletiva.

Segurança na insegurança

As estratégias de segurança frente às ameaças decorrentes do aumento da criminalidade e da proximidade entre os bolsões de miséria e riqueza, têm levado ao aparecimento de uma “estética da violencia”, visível nas grades pontiagudas, muros, cercas eletrificadas, guardas, guaritas, câmeras e outros dispositivos de vigilância que pontuam, cada vez mais, a paisagem urbana. Os espaços públicos deixaram de ser lugares de congregação social, transformando-se em cenários de pavor urbano. As pessoas passam pelas ruas e praças como se estivessem se arriscando numa missão perigosa, com bolsas grudadas ao corpo, olhos atentos em todas as direções e passos acelerados. Mas todos esses cuidados, na maioria das vezes, não são suficientes para evitar os assaltos ou até mesmo ameaças com armas em plena luz do dia.

A falta de perspectiva de emprego numa sociedade cujos valores se baseiam na capacidade de aquisição e posse, a frustração e perda de autoestima, especialmente entre os jovens, cotidianamente submetidos aos apelos de consumo e impossibilitados de concretizar seus sonhos, transmuta-se em agressividade e delito. O mais assustador é que as pessoas estão se matando nas relações de convivência e pelos motivos mais banais. Mata-se por pequenas dívidas do tráfico ou por pequenos roubos para se obter droga, além de apoiados sob seu efeito. Com medo da banalidade dos assassinatos, os moradores desses territórios, onde a ausência do poder público é absoluta, enclausuram-se e obedecem à “lei do silêncio”, submetendo-se às regras das gangues.

Um fenômeno social

Este fenômeno pode ser observado também nos índices de violencia representativa dos guetos de elite, como os condomínios de luxo, onde apesar de todo o patrulhamento e dos gastos com segurança, os filhos dos condôminos são os próprios formadores de quadrilha. A falta de perspectiva desses indivíduos, somada à confiança num suposto poder absoluto das famílias influentes, são a alavanca para o encontro com as drogas e a delinqüência. A perpetuação de privilégios dos assassinos e agressores faz a justiça cair em descrédito, colaborando para que o jovem agressor confie ainda mais na impunidade de seus atos.

A delinquencia infanto-juvenil resulta, também, do mercantilismo antiético do show business, da crise da família e da desestruturação escolar. Alguns setores da indústria de entretenimento, apoiados no conceito de liberdade de expressão, produzem programas onde a violencia passou a ser a diversão mais rotineira (Programa do Ratinho, Cidade Alerta, Linha Direta, Leão Livre etc.), subestimando a influencia da violencia ficcional. A psicologia explica que a promoção do sadismo como instrumento de diversão não produz a sublimação da agressividade, antes representa um perigoso incitamento a comportamentos antissociais. No início de 98, o país se chocou com a notícia de que, em Brasília, um garoto de apenas nove anos havia esfaqueado quarenta vezes a vizinha de sete anos, após assistir ao filme “Brinquedo Assassino 2”, exibido pela SBT.

A miséria, as desigualdades sociais e o desemprego não são, portanto, os únicos fatores responsáveis pela escalada da criminalidade. A crescente participação de jovens de classe média em quadrilhas do crime organizado e em diversos episódios marcados pela violencia, denota a erosão de valores na sociedade contemporânea, pautada, cada vez mais, no individualismo e numa concepção de mundo absolutamente materialista. A principal motivação dos jovens das camadas médias, atualmente, é a aquisição de bens materiais. Sua adesão ao crime tem a ver não só com os apelos ao consumismo, mas, sobretudo, com a ausência de utopia e de projetos coletivos.

Para concluir, transcrevo aqui uma frase do Prof. Hermógenes que nos traz uma centelha de esperança: “o mundo está chegando num ponto tão crítico que vai ser obrigado a retomar um caminho saudável. É preciso acender a chama do amor no coração de cada um para resgatar a humanidade”. De nada adianta reforçar o policiamento e aperfeiçoar os códigos penais quando o crime é onipresente e onisciente. Como afirma Gandhi, “se um único homem chegar à plenitude do amor, neutraliza o ódio de milhões”.

Por: ForumSec21