05/11/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A crise das grandes metrópoles contemporâneas e a busca de novos paradigmas II

“Os povos originários sempre foram encarados por nós, cara-pálidas, como inimigos do progresso. Ora, é a nossa concepção de desenvolvimento que se opõe a eles, e ignora a sabedoria de quem faz do necessário o suficiente e jamais impede a reprodução das espécies vivas”. (Frei Beto in Grito da Terra, clamor dos povos).

No último número deste jornal, abordamos o tema da deterioração da qualidade de vida nas metrópoles contemporâneas a partir do exemplo emblemático de São Paulo, cujo principal criador do espaço urbano é o mercado imobiliário. No presente artigo, pretendemos apresentar um contraponto a esse quadro, focando o surgimento de algumas experiências urbanísticas pautadas em novos valores éticos, como a cooperação, a convivialidade, a criatividade, a responsabilidade e o respeito à natureza.

Ao analisarmos o fenômeno urbano contemporâneo e seus impactos devastadores sobre o equilíbrio ambiental do planeta, surge uma questão básica: é possível invertermos o modelo desenvolvimentista em curso, no sentido de preservação e proteção da vida, ou a insustentabilidade e as crises ambiental, social e econômica constituem uma característica inerente à atual etapa de globalização do capitalismo?

Como nos alerta Anne Brigitte Kern e Edgar Morin, em “Terra Pátria”, estamos atravessando um momento de verdadeira “agonia planetária”, que nos coloca frente à necessidade premente de novos paradigmas voltados para a construção de sociedades sustentáveis, a partir de mudanças estruturais que privilegiem a defesa da qualidade de vida como valor primordial e superior à primazia do lucro e dos resultados econômicos.

Sustentabilidade e Visão Holística

Partimos do pressuposto, portanto, de que a construção de sociedades sustentáveis requer uma visão holística da realidade, capaz de integrar os requisitos da sustentabilidade à compreensão do funcionamento histórico da sociedade humana. Tal integração deve estar ligada a uma redefinição política da nossa sociedade e do seu modelo civilizatório, bem como a um trabalho de conscientização individual capaz de gerar ações positivas rumo às mudanças necessárias.

Um dos principais sintomas da crise da civilização moderna, segundo Richard Sennett, encontra-se no declínio da vida pública, visível no abandono e degradação dos espaços públicos, especialmente nas grandes metrópoles. O resgate da vida pública, fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e equilibrada, pressupõe o rompimento da segregação sócio-espacial e o restabelecimento da comunicação direta entre pessoas de diferentes classes sociais, Sem isso a solidariedade não se desenvolve e a sociedade torna-se extremamente perversa e cruel. Não se pode pensar em cidades sustentáveis sem que haja justiça social e participação política da população.

Em Atenas, a Ágora – lugar onde a poesia, a música, o teatro e a filosofia grega se desenvolveram – era um espaço impressionante pelas suas dimensões e intensidade de vida pública. Uma das tarefas do urbanismo contemporâneo, portanto, é ajudar as pessoas a resgatarem sua ägora e o amplo acesso de todas as classes sociais a ela.

Novos Paradigmas e as Cidades em Transição.

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Nessa busca de novos paradigmas, vem adquirindo destaque o movimento das Cidades em Transição, ou “Transition Towns”, criado e disseminado pelo inglês Rob Hopkins, com o propósito de transformar as cidades em modelos sustentáveis, menos dependentes do petróleo, mais integradas à natureza e mais resistentes a crises externas, tanto econômicas como ecológicas. Com base em sua vasta experiência em ecovilas e permacultura¹, Hopkins construiu um plano de mudanças objetivando atingir a resiliência - capacidade de sobreviver a choques externos como o esgotamento do petróleo, crises na produção de alimentos, falta de água e de energia. Atualmente, já são mais de 110 cidades, bairros e até ilhas, em 14 países do mundo, em processo de transição.

Uma maneira mais simples de viver e ser feliz

O objetivo dessas mudanças é depender o mínimo possível da tecnologia e voltar ao tempo onde não eram necessários carros, geladeiras, ar condicionado, tratores e aviões. Nesse contexto, técnicas e conhecimentos ancestrais são valorizados e resgatados.

A reeducação da população em aptidões como costura, gastronomia, agricultura familiar, pequenos consertos e artes manuais, como a marcenaria; a criação de hortas e pomares comunitários; a troca de resíduos entre indústrias (ou simplesmente o reparo de produtos velhos, ao invés de jogá-los no lixo); o investimento em transporte público e a substituição do carro pela bicicleta, são algumas das iniciativas do Transition Tows ².

Totnes (Sul da Inglaterra), considerada o berço e vitrine do movimento, pretende concluir sua jornada em 2030, quando grande parte dos hábitos e costumes da cidade terão se transformado: as pessoas deverão consumir produtos locais e a alimentação será baseada muito mais em vegetais do que em carne. As escolas passarão a ensinar as crianças a cozinhar, plantar, construir casas a partir de materiais naturais, como adobe e barro, e a fazer jardinagem. O transporte público será predominante e o consumo será totalmente baseado na produção local, independente do petróleo e de importações de alimentos.

Experiências como essas, originárias da consciência de que pertencemos ao planeta Terra e de que estamos conectados, cada vez mais, por uma imensa teia de relações onde cada ação local repercute no todo, são fundamentais para a construção de sociedades sustentáveis. Elas nos sinalizam a necessidade de mudarmos a forma de pensar, de fazer política, de nos relacionarmos com a natureza e com os demais seres vivos, humanos e não humanos, abandonando a ideia de construção do “melhor dos mundos” para assumirmos o inadiável compromisso da construção, aqui e agora, de um mundo melhor. .

¹ O conceito de Permacultura foi criado no final dos anos 70 pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren,a partir do desenvolvimento de pequenos ecossistemas sustentáveis. Tem como princípio a agricultura orgânica para o manejo produtivo e o cooperativismo como caminho natural, praticado e incentivado não só entre as pessoas, mas também entre todos os elos da paisagem. Na Permacultura, as plantas, animais, construções, infra-estruturas (água, energia, comunicações) não são tratados como elementos isolados, mas como partes de um grande sistema intrinsecamente relacionado - um mesmo e único organismo vivo.

² Maiores informações a respeito do movimento Transitions Towns podem ser encontradas no site http://transitionculture.org e no livro “The Transition Hand Book”, de Rob Hopkins.

Sandra Mara Ortegosa

Por: ForumSec21