23/09/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A crise das grandes metrópoles contemporâneas e a busca de novos paradigmas

Sandra Mara Ortegosa

As cidades contemporâneas são fenômenos que estão na raiz da atual crise de ambito planetário. Existe a necessidade decompreender as Metrópoles à luz das prioridades do sistema econômico atual. Segundo Frei Beto, “urge desmercantilizar a vida, a água, as florestas, e respeitar os direitos da Mãe Terra, libertando-a da insaciável cobiça do deus Mercado e das razões de Estado. (...)

A desorganização do fenômeno urbano tem sido responsável pelo gigantesco desperdício de recursos naturais no planeta, e tornou-se um dos fardos mais pesados para a sociedade contemporânea, colocando em pauta a busca urgente de construção de novos paradigmas que reintegrem o homem urbano à natureza.

Até o início do século XX, o mundo urbano-industrial apenas se esboçava: só 10% da população do planeta vivia em cidades, sendo que as maiores localizavam-se no hemisfério norte e apenas quatro dessas cidades tinham mais de 2 milhões de habitantes. Hoje, atravessamos uma transição acelerada da sociedade industrial (marcada pela dualidade cidade-campo) para a “pós-industrial” (caracterizada por uma urbanização quase total).

Consequencias do adensamento

As conseqüências dessa nova paisagem já povoam, há algum tempo, o imaginário coletivo. Em 1982, Blade Runner, o Caçador de Andróides, de Ridley Scott, ponto culminante do cinema pós-moderno, mostrava Los Angeles, no ano de 2019, como uma megalópole tentacular, saturada de detritos, veículos, sinais luminosos e poluição. Embora a referência fosse Los Angeles, a descrição poderia ser aplicada a qualquer um dos grandes aglomerados urbanos que vêm se formando nestas últimas décadas.

O caráter de descartabilidade dos espaços urbanos torna-se mais perceptível nessa paisagem mutante: os arranha-céus brotam aleatoriamente por todos os lados; os hotéis são implantados no cruzamento de grandes vias, próximos às zonas industriais e aeroportos; os downtowns se insinuam na paisagem, nascem, morrem e se transferem de lugar. A precariedade do presente é visível no desgaste do território, nas ruínas e restos de antigas construções; armazéns e galpões industriais vazios; vidros quebrados e paredes arrebentadas; estações de trens abandonadas e bairros tradicionais arrasados.

À medida que a globalização avança e que se delineia uma imensa rede mundial de comunicação, paradoxalmente diminuem os contatos interpessoais.A perda de uma relação de identidade com a cidade, associada ao aumento da violência urbana e às profundas mudanças geradas pela sociedade informacional no plano da comunicação, refletem-se no crescente isolamento dos indivíduos. A comédia canadense Denise calls up, de Hal Salwen, onde todos os personagens trabalham ininterruptamente e obsessivamente na frente do computador, traça um perfil sobre uma das maiores contradições dos dias atuais: a exacerbação do isolamento do indivíduo em um mundo cada vez mais globalizado.

Classe Média versus despossuidos

Esta é, no entanto, a “versão classe média”, cuja angústia, derivada do sentimento de desenraizamento e perda de identidade individual e coletiva, traduz-se no seu encasulamento em espaços cada vez mais exclusivistas. Na versão miserável, cresce o número dos “sem-teto” que povoam as ruas e praças nas grandes metrópoles do mundo inteiro. A generalização da pobreza, vista como inevitável, é um dos frutos mais visíveis dos mecanismos excludentes da globalização capitalista, com a conivência e colaboração consciente dos governos nacionais. Como afirma o geógrafo Milton Santos, “nos convidam para sermos modernos e o preço disso é a exclusão, com o assassinato da solidariedade. (...) A cidade grande não só atrai como produz pobres”.

O caso de São Paulo

São Paulo, um dos maiores aglomerados urbanos mundiais (com 17 milhões de habitantes na área metropolitana e 11 milhões concentrados na capital), é um dos exemplos mais emblemáticos desse quadro. Fruto de uma explosão demográfica sem precedentes, a metrópole paulistana surgiu em menos de um século, sem planejamento, num sítio geográfico com inúmeras dificuldades à ocupação urbana.

Longe dos clichês exóticos relacionados ao Brasil, apresenta uma paisagem agressiva e dissonante de torres, casas e favelas, que se estendem infinitamente pelo território, e as qualificações que lhe são comumente associadas expressam a brutalidade que dela emana: “selva de pedras”, “formigueiro humano” caótico, poluído e saturado de engarrafamentos.

As alterações ciclópicas da urbe, num período de apenas um século, transformaram-na numa imensa metrópole desconhecida pela maior parte de seus habitantes. Talvez nenhuma outra cidade no mundo seja tão propícia para se verificar as marcas de um desenvolvimento urbano pautado fundamentalmente na sobreposição dos interesses privados sobre os coletivos. São Paulo é uma das experiências urbanas mais interessantes para se verificar o resultado de um crescimento pautado nos mecanismos da especulação imobiliária.

Uma certa resignação frente ao “incontrolável” é visível no abandono das zonas periféricas à improvisação e ao provisório, contribuindo para reforçar o processo de perda das características gregárias da antiga pólis grega. Ao mesmo tempo em que os espaços públicos tradicionais se deterioram, proliferam os espaços excludentes e “extra-mundo real”, refletindo e acentuando o refluxo da vida pública na metrópole.

A segregação espacial, a violência e a falta de identidade com seu habitat levam ao crescente isolamento do paulistano e à interiorização das relações pessoais, num comportamento típico do personagem individualista e agorafóbico das grandes cidades contemporâneas. Numa estratégia ilusória de defesa contra as ameaças da vida urbana, surgem os shopping centers e os condomínios fechados - manifestações da intenção de realização de um mundo idealizado, onde a poluição, a violência, a miséria, o trânsito e a própria cidade aparentemente ficam fora dos muros.

Em São Paulo, os dois pólos extremos – as ruínas e o shopping – aparecem em conflito: à medida que a metrópole industrial vai se transformando em metrópole terciária, vastas áreas ligadas à atividade fabril são abandonadas e se deterioram, enquanto proliferam as sofisticadas torres de vidro nos novos pólos de serviços, desenhando um cenário futurista de caráter altamente excludenteonde não há lugar para a urbanidade.

Ambiguidades e contradições

Pode-se ler nitidamente nessa paisagem urbana mutante, as várias ambigüidades e contradições que marcam o quadro atual de crise e transição da metrópole paulistana. Nela mesclam-se, de um lado, os diversos sinais de avanço da deterioração física e social em todo território urbano e, de outro, os novos ícones da pós-modernidade – luxuosos edifícios de vidro espelhado e aço, tecnologicamente sofisticados e culturalmente anônimos, os guetos de elite, os não-lugares. Na visão de Richard Sennett, em “O Declínio do Homem Público”, a perda desse marco de interações, que pode ser denominado de âmbito público, devido à superposição dos interesses individuais e privados sobre a concepção de cidade como um bem coletivo, é um dos sintomas mais visíveis da crise da civilização moderna.

Na busca de soluções para o caos da vida urbana temos muito que aprender com os povos indígenas. Como afirma Frei Beto, “urge desmercantilizar a vida, a água, as florestas, e respeitar os direitos da Mãe Terra, libertando-a da insaciável cobiça do deus Mercado e das razões de Estado. (...) Temos muito a aprender com aqueles que possuem outros paradigmas, outras formas de conhecimento, respeitam a diversidade de cosmovisões, sabem integrar o humano e a natureza, e praticam a ética da solidariedade”.

A degradação da qualidade ambiental e das relações interpessoais nas grandes metrópoles contemporâneas exige, portanto, novas posturas éticas, fundadas em uma ética do futuro. Estaremos abordando essa questão, a partir da análise de algumas experiências em curso, no próximo número do Jornal Fórum Século XXI.

Sandra Mara Ortegosa é Organizadora da Feira da Terra em Lumiar (RJ)

Arquiteta e socióloga pela USP e Phd em Antropologia pela PUC-SP

Por: ForumSec21