28/06/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Defensor dos Direitos dos Animais defende o Vegetarianismo

O gosto do alimento natural - Entrevista com Dilip Barman

Dilip Barman, defensor do vegetarianismo e dos direitos dos animais, é presidente da Triangle Vegetarian Society (TVS), sediada na Carolina do Norte (EUA), conselheiro da Vegetarian Union of North America (VUNA) e palestrante da Supporting and Promoting Ethics for the Animal Kingdom (SPEA.K), ou Apoio e Promoção da Ética para o Reino Animal.Barman já publicou artigos sobre culinária em vários livros e jornais. Deu aulas de culinária vegetariana em várias instituições. Dilip atua na Internet há mais de dez anos. Sua página é www.dilip.info e o sítio da TVS é www.trianglevegsociety.org.

Por telefone, ele afirmou à IHU On-Line que sua opção por ser vegetariano não está relacionada a sua formação profissional na área de design e informática, mas ambas se relacionam a uma postura ética de cuidar a própria saúde e a do planeta, além de valorizar as inúmeras possibilidades que a dieta baseada em plantas oferece.

IHU On-Line – Por que tornar-se um vegetariano? Quais as razões para tanto?

Dilip Barman – Bem, há muitas boas razões para tornar-se vegetariano. Existem evidências éticas e nutricionais, indicando que o melhor a fazer para a nossa saúde é tornar-nos vegetarianos, passar para uma dieta baseada em plantas. Houve uma pesquisa ao longo de sete anos, por exemplo, entre Adventistas do Sétimo Dia , uma religião em que mais ou menos a metade das pessoas é vegetariana. Eles descobriram que vegetarianos vivem sete anos mais que os não-vegetarianos. Constataram também que muitos vegetarianos em idade avançada apresentavam menos doença dos rins, do coração, câncer, eram mais sadios nos anos terminais. Outra razão para ser vegetariano é o impacto que causamos ao meio ambiente. Uma dieta baseada em carne exige muitos recursos. De um ponto de vista do bom senso, se nós pensarmos em termos de física, quando convertemos energia, sempre a cada conversão se perde energia, quando se come carne, se converte de energia solar para energia vegetal para energia animal para a nossa energia, ou seja, em cada passo nesse trajeto, perdemos eficiência. Muita gente que se torna vegetariana, e estava acostumada a comer pratos simples de carne, constata que há tantas alternativas atraentes, tantos tipos de alimento que nem cogitava: tudo quanto é tipo de pratos com feijão, lentilhas, diferentes hortaliças. Observo que muitas pessoas reconhecem que suas possibilidades de alimentação aumentam enormemente. Nos últimos dois anos, com minha esposa, nunca repetimos um jantar. A dieta vegetariana oferece uma enorme flexibilidade. Há também uma questão ética, a ética de viver com simplicidade de modo que outros possam viver sem sofrer. Por que precisamos matar animais, quando podemos ser perfeitamente sadios e até mais sadios se não os matamos? Algumas pessoas são motivadas pela religião.

IHU On-Line – Quais são as inverdades sobre o vegetarianismo?

Dilip Barman – Há uma série de mitos. Um mito é que os vegetarianos são fracos e magrelos. Se pesquisarmos, notamos que há muitos medalhas de ouro olímpicos que são vegan. Tem vegans batendo todo tipo de recordes mundiais em atletismo. Um outro mito tem a ver com a obtenção de proteínas.Pelo menos no mundo desenvolvido é extremamente raro algum médico atender um paciente que apresente deficiência protéica. Se alguém se torna vegetariano e só come batata frita, terá não só deficiência protéica, mas muitos outros problemas também. Proteína geralmente não é problema. Pelo menos no mundo desenvolvido, as pessoas, em geral, inclusive os vegetarianos, estão comendo proteína demais. Se olharmos os maiores animais no mundo, elefantes, chimpanzés, esses maiores animais terrestres são vegans, eles obtêm suas proteínas de folhas, ervas, capim e coisas desse tipo. Isso sugere que nós, como vegetarianos obtenhamos nossas proteínas de folhas, ervas, lentilhas, coisas dessa natureza. Então, a proteína não é um problema, a não ser que façamos uma dieta vegetariana baseada em junk food . Um terceiro mito é o B12 . Esse sim pode ser um pequeno problema. Se estivermos em dieta de alimentos crus, sem alimentos processados, nada de soja, por exemplo, talvez não recebamos B12 o suficiente. Antigamente recebíamos B12 de frutas e hortaliças cultivadas ao ar livre e que talvez não tivessem sido lavadas cuidadosamente como se faz hoje, então havia o B12 natural do meio-ambiente que se deposita nas frutas e hortaliças. Ao menos no mundo desenvolvido, o alimento é tão limpo que não recebemos essa dosagem. E só precisamos de 12 microgramas (12 x 10-6 gramas) por dia de B12, e persiste no corpo por muitos meses. Portanto não precisamos de tanto assim. Como vegan – muito alimento processado tem bastante B12 – mas se não estivermos comendo alimento processado, é o único suplemento que eu recomendaria para garantir.

IHU On-Line – Que alimentos podemos colocar no lugar da carne, por exemplo?

Dilip Barman- Não gosto de pensar em alimento como substituto. Penso que alimento vegetariano é em si mesmo. As pessoas que são realmente carnívoras e estão interessadas em cortar o consumo de carne, da perspectiva delas eu posso entender que fiquem pensando em como “substituir’. Com exceção das pessoas que passam por uma transição, geralmente não encaro o alimento como substituindo algo. Penso que refeições vegetarianas são muito fortes em si mesmas. No meu blog de alimentos pode se ver muitas receitas. Compus uma dieta baseada em plantas que pode contribuir para a paz e a justiça no mundo no sentido de um equilíbrio do ecossistema.

IHU On-Line – Nos EUA, origem dos fast food, deve ser muito difícil a conscientização para uma alimentação ética?

Dilip Barman – Sim. A dieta padrão americana tem muita gordura, não encarando a qualidade do alimento que comemos, mas a quantidade do que comemos ou a velocidade em comer e cozinhar. As freqüentes visitas a fast foods demonstram isso. Muita gente parece não respeitar seu corpo, sem se importar em pensar o que realmente ingerem quando freqüentam o fast food .

IHU On-Line – Como o senhor vê a questão dos transgênicos na alimentação?

Dilip Barman- Transgênicos são motivados por algumas grandes empresas que querem criar alimentos enunciando-os como melhores, porque foram desenvolvidos pela engenharia. Muitas vezes a finalidade dos alimentos transgênicos é o transporte, de modo que o alimento não pereça no transporte, não estrague. É do interesse deles comercializar e vender esses alimentos. Eles têm uma motivação muito mais econômica e prática, não uma motivação com a saúde. Nunca foi o objetivo dos transgênicos promover a saúde em qualquer alimento ou vegetal. Pensando no impacto ambiental, é muito negativo. Alimentos transgênicos podem contaminar plantações não-transgênicas. Isso se tornou um grande problema no mundo em desenvolvimento. Com certeza isso é um problema no país dos meus pais, a Índia, onde alguns produtores de transgênicos estão tentando controlar o produto que indianos estão produzindo faz séculos. Agora estão tentando dizer que deveriam receber royalties por algo que simplesmente está crescendo de forma bem natural por milênios.

IHU On-Line – Considerando que apenas 4 bilhões de pessoas estão bem nutridasno mundo, com 6 bilhões de habitantes, como o vegetarianismo poderia ser uma alternativaao problema da subalimentação ?

Dilip Barman – O vegetarianismo até agora é o único caminho viável, se nos preocuparmos com distribuição de alimentos. Produzi um folheto chamado Paz e justiça no mundo, discutindo como gastamos muita energia para gerar alimento baseado em carne. Se o mundo todo de repente se tornasse vegetariano, passaríamos de uma escassez de alimentos para uma abundância de alimentos. A razão é que comeríamos o alimento diretamente, as plantas gerariam o alimento, e nós o comeríamos.Por exemplo, são necessárias duas ordens de magnitude de água para criar alimento baseado em carne, em comparação com alimento baseado em plantas. E a água potável simplesmente está acabando. Certamente estaríamos ajudando a alimentar e a obter alimento em todo o mundo se todos nós optássemos por uma dieta baseada em plantas. É digno de nota que a maioria dos países do mundo até bem recentemente era basicamente vegetariana.

IHU On-Line – Como o senhor combina seu trabalho em ciência e design computacional com a prática e o ensino do vegetarianismo?

Dilip Barman – Simplesmente é minha vida. Eu gosto de ser vegetariano, gosto das vantagens de ter muito menos doenças desde que parei de consumir derivados de leite. Nunca mais tive um resfriado, e eu costumava ter bastante resfriado e gripe todos os anos. Ser vegetariano me ajuda a ser um profissional mais forte, não tenho que enfrentar os mesmos problemas de saúde que muitos outros têm. Profissionalmente, minha formação é em ciência da computação e design, mas estou motivado pela ética, que para mim é a razão primordial para ser vegetariano.

IHU On-Line – Como funciona seu blog de alimentos? Quem costuma lê-lo?

Dilip Barman- Tudo quanto étipo de gente, recebo muitos e-mails. Minha motivação ao criar o blog era passar uma mensagem positiva sobre por que e como é gostoso alimentar-se dessa forma. Não tento passar uma mensagem negativa, fazendo as pessoas ficarem nervosas por causa da sua saúde. O blog dá às pessoas na Internet uma opção de sentir grande diversidade de plantas e alimentos, e espero que influencie as pessoas na sua dieta.

Por: IHU On-Line - UNISINOS