16/05/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

ONU pretende dar valor às perdas da natureza

Relatório vai quantificar os prejuízos à biodiversidade que resultam do desmatamento e da degradação resultantes das atividades das maiores empresas do mundo

Um estudo que deverá ser divulgado em junho vai reabrir um debate quente entre economistas e ambientalistas, mas também ajudá-los a falar a mesma língua.Intitulado A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade (TEEB, na sigla eminglês), o projeto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) pretende dar valor aos benefícios econômicos da preservação da natureza e aos prejuízos causados pela suamá utilização.

No geral, aponta que um investimento anual de US$ 45 bilhões na conservação da biodiversidade do planeta poderia estancar a perda demais de US$ 2,2 trilhões dos serviços oferecidos pelos ecossistemas.

Apresentado esta semana em São Paulo pelo economista sênior do Pnuma, Pavan Sukdhev, o TEEB, que já está sendo chamado de “Relatório Stern da Biodiversidade” vemsendo discutido em vários países com o objetivo de integrar o setor privado ao debate sobre a destruição dos ecossistemas e o impacto que deve causar aos negócios.

O apelido aliás se deve à semelhança com o relatório do economista Nicholas Stern do Banco Mundial sobre os efeitos na economia das alterações climáticas nos próximos 50 anos.

Uma das principais conclusões de Stern é a de que, com um investimento de 1% do PIB mundial para diminuir as concentrações de carbono na atmosfera, pode-se evitar a perda de 20% do próprio PIB nesse prazo.

O TEEB traz uma estimativa das perdas do que Sukdhev chama de "capital natural", que resultam do desmatamento e da degradacao.

Atividades e prejuizos

O valor de cerca de U$ 2,2 trilhoes, obtido pela consultoria inglesa Trucost, considera o ano de 2008 e se refere aos efeitos na natureza de atividades das 3 mil maiores empresas do mundo de diferentes setores, incluindo emissao de gases que contribuem para o aquecimento global, uso da agua e a liberacao de varios tipos de substancias e lixo no ambiente.Seus analistas usaram modelos que incluem os materiais e processos utilizados pelas empresas, dados da Agencia de Protecao Ambiental dos Estados Unidos e os proprios relatorios das empresas, quando disponiveis.

A ministra do Meio Ambiente, Isabela Teixeira, que esteve presente durante uma das apresentacoes de Sukdhev, na sede da Bovespa, adiantou que o governo tem a intencao de fazer um relatorio TEEB do pais, que seria desenvolvido pela Pasta em parceria com o Instituto de Pesquisas Economicas e Aplicadas (Ipea)."A iniciativa e importante para quantificar os servicos ambientais da megadiversidade brasileira", disse.

Gerenciar a necessidade por alimentos, energia, agua e materias- primas, enquanto se busca diminuir os impactos na biodiversidade e um dos maiores desafios da sociedade, afirma Sukdhev.O economista da como exemplo o caso da extracao de madeira para a construcao civil e moveis na China."Ha 20 anos, os chineses perceberam que o calculo do valor da madeira nao incluia os prejuizos que a destruicao das florestas causava .Como as enchentes no rio Amarelo", disse."O custo real era 129% acima daquele aplicado a exportacao do produto se os danos ambientais fossemcontabilizados."

Como cobrar pelos serviços ambientais

Há diversas maneiras de integrar o custo da conservação da biodiversidade na economia e algumas já estão em andamento.

Uma delas é o pagamento por serviços ambientais e vários projetos de lei nesse sentido estão em discussão pelo Congresso.Prevê um incentivo à recuperação de áreas degradadas e à conservação da vegetação nativa pelos proprietários.Outra medida muito discutida no âmbito das mudanças climáticas é o REDD, proposta de compensação financeira aos proprietários de florestas que se prontifiquem a protegê-las.Há também vários projetos-piloto no Programa de Negócios e Compensações para a Biodiversidade (BBOP, na sigla em inglês), formado por uma rede de 600 organizações.O tema deve ganhar destaque em outubro durante o encontro da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP10) em Nagóia, Japão.

TRÊS PERGUNTAS A...

ROBERTO SMERALDI, Jornalista e diretor da organização Amigos da Terra

Smeraldi, que organizou o pré-lançamento do TEEB, considera que a contabilidade dos serviços ambientais gera investimentos.

Dar valor à biodiversidade exige cálculos complexos. É possível chegar a uma metodologia única?

É difícil, mas não é urgente. Sobre valores de longo prazo há uma ciência em evolução: seria ilusória, hoje, uma metodologia que capte tudo.Aguardar a perfeição implica adiar o necessário.Já sobre uso direto e indireto, as margens de incerteza são menores, e é oportuno usar cautela.Em mercados incipientes, você começa usando o piso e logo atualiza de acordo com o avanço da ciência e da demanda.

A aprovação de uma lei sobre pagamentos de serviços ambientais é o primeiro passo nesse sentido?

Há uma dezena de projetos que tocam no tema, bem intencionados mas nem sempre realistas.Falta uma inserção mais ampla: pagar por serviços sem cobrar em igual medida pelo desserviço, ou pelo consumo do serviço, do ponto de vista econômico não é sustentável. Não é só pagar um subsídio, trata-se de incorporar o que hoje é uma externalidade.

Quais as possibilidades que poderiam ser geradas para o setor privado?

Cada dia perdido é um atraso para transformar a genérica vantagem comparativa brasileira em competitiva.Contabilizar ativos e passivos ambientais significa gerar investimentos em tecnologia, inovação, nas cadeias e emprego.Exemplo?Hoje só o valor do carbono associado a um quilo de carne bovina no Brasil supera o preço da carne em si.

Martha San Juan França

Por: Brasil Economico/Amazonia.or