22/04/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

FAO avalia emissões de gases de efeito estufa do setor lácteo

Segundo relatório da agência da ONU, em 2007 o setor emitiu o equivalente a cerca de 2 milhões de toneladas de dióxido de carbono, quase 1,4 milhão de toneladas foram atribuídas ao leite.

O setor lácteo é responsável por cerca de 4% das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa, de acordo com relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO. O documento, publicado nesta terça-feira, inclui dados das emissões associadas à produção, processamento e transporte de produtos e à carne de animais provenientes do sistema de lácteos.

Em 2007, o setor emitiu o equivalente a cerca de 2 milhões de toneladas de dióxido de carbono, quase 1,4 milhão de toneladas foram atribuídas ao leite. O metano foi o gás que mais contribuiu para o impacto do aquecimento global de leite, com 52% das emissões em países desenvolvidos e em desenvolvimento.

O chefe de Mobilização de Recursos da FAO, Roberto Mercado, disse à Rádio ONU, de Roma, que as emissões antropogênicas do setor lácteo se referem aos gases de efeito estufa emitidos pelo homem. "Isso também significa todas as emissões provenientes dos carros, da combustão interna de veículos, toda a parte de gases aerossóis, que através de legislação internacional está eliminado os gases que tenham efeito na camada de ozônio da atmosfera", afirmou.

O relatório da FAO sobre o setor lácteo faz parte de um programa elaborado para analisar e recomendar medidas para a mitigação das alterações climáticas. Segundo a agência da ONU, o próximo passo é avaliar as emissões desses gases de efeito estufa associados a outras espécies de animais grandes, como búfalos, aves, ruminantes e suínos.

Daniela Traldi

Pecuária responde por metade das emissões brasileiras

Estudo elaborado por dez cientistas brasileiros e lançado em Copenhague, durante a COP 15, mostra que as emissões de gases de efeito estufa da pecuária bovina, entre 2003 e 2008, nos biomas Amazônia e Cerrado variaram entre 813 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2008 (menor valor) e 1,09 gigatonelada de CO2 equivalente em 2003 (maior valor). No resto do país, as emissões do setor variam entre 84 e 87 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Em termos gerais, os números representam praticamente a metade das emissões de gases de efeito estufa no Brasil.

O estudo, realizado sob a coordenação de Mercedes Bustamante (UnB), Carlos Nobre (Inpe) e Roberto Smeraldi (Amigos da Terra - Amazônia Brasileira), mostra que a maior contribuição às emissões da pecuária se deve ao desmatamento para formação de novas pastagens na Amazônia, que atinge em média três quartos do total do desmatamento neste bioma. No Cerrado, os pesquisadores detectaram que cerca de 56% do desmatamento no período resultaram também em implantação de novas pastagens.

Os pesquisadores analisaram as três fontes principais de emissão: desmatamento para formação de pastagem e queimadas subseqüentes da vegetação derrubada, queimadas de pastagem e fermentação entérica do gado. O estudo, porém, não considera emissões de solos de pastagens degradadas, da produção de ração de grãos usada no confinamento, do transporte do gado e da carne, e das unidades industriais dos frigoríficos, o que torna, segundo os cientistas, os valores “conservadores”.

Também não foi considerado o desmatamento para formação de pastagens em outros biomas, além da Amazônia e do Cerrado. Já nos casos das emissões das queimadas de pastagem e da fermentação entérica foram contabilizados dados para todo o país.

As conclusões do estudo também apontam para o potencial de redução de emissões de gases estufa oferecido pela pecuária no Brasil. O fato de quase a metade das emissões totais brasileiras de gases de efeito estufa se concentrarem em um único setor é a mais importante oportunidade de mitigação brasileira.

“O Brasil deve caminhar para uma agropecuária integrada ao ambiente tropical, científica e tecnológica que, ao mesmo tempo em que aumenta sua eficiência, diminui seu impacto ambiental, inclusive quanto às emissões”, sugere o climatologista Claros Nobre. Para ele, as opções de mitigação no setor são significativas e “não implicam o corte na produção atual” e ainda podem ser compatíveis com um aumento moderado da produção. As fontes da mitigação incluem a redução do desmatamento, a eliminação do fogo no manejo de pastagens, recuperação de pastagens e solos degradados, a regeneração da floresta secundária, a redução da fermentação entérica, a integração lavoura-pecuária, entre ourtras.

IPAM

Emissões de metano pela pecuária

A pecuária é também uma das maiores fontes de emissão de gás metano para a atmosfera. O processo de formação do gás ocorre durante o processo digestivo de fermentação entérica de animais ruminantes (bovinos, bubalinos, ovinos e caprinos), sendo o metano subproduto deste processo, liberado para a atmosfera através da flatulência e eructação dos animais. Em média, estima-se que 6% de todo o alimento consumido pelo gado no mundo seja convertido em gás metano. O metano é 24 vezes mais potente do que o dióxido de carbono para causar aquecimentos atmosféricos, contribuindo com 15% do total do aquecimento global.

O rebanho mundial de bovinos é hoje estimado em mais de 1 bilhão de cabeças. A EPA (2000) estimou as emissões globais de metano geradas a partir dos processos entéricos de ruminantes de criação em 80 milhões de toneladas por ano, correspondendo a cerca de 22% das emissões totais de metano geradas por atividades humanas. O mesmo relatório estimou a emissão proveniente de dejetos animais em cerca de 25 milhões de toneladas ao ano, correspondendo a 7% da emissão total.

O Brasil possui o maior rebanho bovino comercial do mundo. De acordo com o Inventário Nacional das Emissões de Gases de Efeito Estufa provenientes de Atividades Agrícolas, realizado desde 1996 pela Embrapa Meio Ambiente, 96% do metano produzido na agricultura do país provém da pecuária bovina de corte e de leite. Outros animais como bubalinos, muares, caprinos, asininos, eqüinos e suínos são responsáveis pelos 4% restantes das emissões de metano.

Cerca de 68% da pecuária nacional é representada por bovinos (87% correspondendo aos bovinos de corte e 13% aos bovinos de leite). Estimou-se que as emissões de metano pela pecuária brasileira em 1995 fora de cerca de 9,2 milhões de toneladas de CH4, considerando-se os efetivos de bovinos (160 milhões de animais) e a produção de dejetos animais à época.

Efeito estufa e alterações climáticas

O efeito estufa é um processo natural que permite manter parte do calor irradiado pela Terra na atmosfera. Sem este efeito, a temperatura na superfície da Terra à sombra seria de - 4ºC (quatro graus centígrados negativos). No entanto, o acumulo atmosférico de gases do efeito estufa que passou a ocorrer a partir da industrialização e aumento nas atividades pecuárias tem levado a um rápido aumento das temperaturas médias terrestres.

Estima-se que, se a taxa atual de aumento de gases do efeito estufa no planeta continuar pelo próximo século, as temperaturas médias globais poderão subir até 0,8 ºC por década. Desta forma, em 2100 a terra poderia estar 3,5 ºC mais quente do que é hoje. Tal aumento nas temperaturas implicaria em drásticas e graves conseqüências em escala global.

Parte destas conseqüências pode ser facilmente verificada, através do aumento na freqüência de desastres naturais. Não para menos, do clima dependem os regimes de ventos e chuvas, das correntes oceânicas, a umidade do solo, radiação solar e o fluxo de águas superficiais entre outros. Alterações climáticas implicam não apenas em desequilíbrios ambientais e extinções em massa de animais e plantas, mas afetam diretamente atividades humanas, como a agricultura, por exemplo.

*Sérgio Greif

Biólogo, Coordenador do Departamento de Meio Ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira,Mestre em Alimentos e Nutrição, Especialista em Nutrição Vegetariana

Por: Radio ONU / IPAM / Sérgio Greif