01/04/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Bem Viver: Complementaridade com todas as formas de existência

Fernando Huanacuni Memani é aymara de origem e de prática. Trabalha na Chancelaria boliviana e ainda se dedica a recuperar os princípios e sabedorias ancestrais com o objetivo de poder comunicá-las: internamente, para recordar quem somos, e externamente, para explicar o processo que se está desenvolvendo

na Bolívia.

A Coordenadora Andina de Organizações Indígenas, que trabalha na publicação sobre o tema do Bem Viver/Viver Bem, divulgou uma entrevista realizada pelo pesquisador social Katu Arkonada a Fernando Huanacuni. Adital a reproduz abaixo.

Que é o Viver Bem, Suma Qamaña? Como explicaría este conceito?

Nós diferenciamos viver melhor de Viver Bem. A modernidade, o desenvolvimento, o progresso ocidental motivam o viver melhor, que tem uma conotação de ter mais, de poupar mais, de monopolizar mais bens materiais... É um sistema de competição entre seres, entre povos... Se antes, o princípio era "penso, logo existo", agora a premissa do Ocidente, da modernidade, é "compito, logo existo". Essa é a característica do viver melhor.

Nós não queremos viver melhor, não queremos competir com ninguém. Para nós, a premissa de Viver Bem ou Bom Viver significa viver em harmonia ou equilíbrio, esse é o conceito básico da vida. Para o capitalismo, o capital é o mais importante, para o comunismo, o homem é o mais importante, mas, para a comunidade, para o povo indígena originário, a vida é o mais importante e, nesse contexto, situa-se o Suma Qamaña.

Viver Bem é equilíbrio e harmonia, e esse equilíbrio e essa harmonia têm ações específicas concretas em nossa família, nossa vida e na sociedade. Viver Bem também significa despertar no contexto de relacionamento com a vida, complementando-nos com todas as formas de existência.

Na Bolívia, a Constituição recorre ao conceito do Viver Bem. Que se deve fazer, desde o Estado, tendo como base este conceito de Suma Qamaña?

A Constituição deve projetar direitos da família, direitos comunitários, responsabilidades comunitárias e propagar o marco dos direitos individuais. Na nova estrutura jurídica do Viver Bem, a premissa básica tem que ser o cuidado da vida, da comunidade, da família... Sem deixar desaparecer os direitos individuais, os direitos comunitários e da família têm que se expressar. Nesse sentido, as políticas públicas têm que se expressar.

E a nível comunitário, que práticas do Viver Bem se mantêm ou se estão resgatando?

Nas comunidades estão recuperando-se as cerimônias, que são uma forma de equilibrar com a vida. O conceito de exploração, de ganhar dinheiro pelo dinheiro, não está dentro da comunidade. Na comunidade, primeiro é o cuidado com a vida: um rio não pode ser explorado, uma árvore não pode ser explorada, não pode ser explorado nenhum bem natural somente pelo feito de ganhar dinheiro, e sim deve cuidar do equilíbrio. Isso implica em não explorar.

Nas comunidades, estamos nesse processo de reflexão. Temos muitos recursos, assim cataloga o ocidente. Que vamos fazer com os recursos, vamos vendê-los como até agora? Ou vamos preservá-los, porque são parte do equilíbrio da vida? Então, na comunidade, a partir das cerimônias e oferendas, reconhecendo-nos como filhos da Mãe Terra, damo-nos conta de que não há que explorar por explorar. Estamos nessa reflexão agora na comunidade.

Até agora, temos tido uma produção individual ou familiar, nada mais, por exemplo, na semeadura e na colheita da batata, da quinua e de outros alimentos. Agora estamos trabalhando no conceito comunitário produtivo, no qual todos têm que trabalhar, mas sem entrar no monocultivo, que também destroça.

Nós temos uma forma de cultivo rotativo, circular. O mercado não tem que nos fazer mudar o horizonte da vida diária da comunidade. Assim que de repente, se a humanidade necessita de batata, não podemos semear só batata para vender. É nisso que estamos refletindo agora. Vamos nos manter na nossa tradição de semear o diverso dos alimentos, colher o diverso e rotar a semeadura e a colheita. Desta forma vamos preservar a vida.

Quando falamos de Bom Viver/ Viver Bem, sempre nos situamos no campo, na comunidade. Na cidade se mantêm estas práticas ancestrais?

Sim e não. Sim porque na cidade os migrantes aymaras, ainda que tenhamos nos adaptado às estruturas ocidentais, não necessariamente somos ocidentais, temos práticas comunitárias como nossas festas, continuamos nos encontrando.

Mas algumas coisas se distorceram. Ainda que mantenhamos aspectos de estrutura comunitária, porque seguimos caminhando na comunidade, no horizonte da economia, no dinheiro, romperam-se algumas estruturas nossas. Agora estamos na busca de recuperar nossa sabedoria para recuperar também os princípios da vida, não nos perder nas estruturas ocidentais. Adequamos-nos, inclusive às vezes muito bem, às estruturas ocidentais, mas esse não é nosso horizonte.

Nós vivemos aqui nas cidades e temos ainda o conceito comunitário de cuidar-nos, de sugerir-nos, de aconselhar-nos permanentemente. Um dos princípios da comunidade é o afeto, e seguimos gerando afeto porque seguimos gerando pontos de encontro através de festas, de ritos, de cerimônias. Realizamos oferendas à Mãe Terra aqui na cidade também. Aí é onde nos encontramos com a família outra vez, e a frequência de nos encontrarmos segue aumentando os laços de afeto, que é algo fundamental no processo comunitário.

Por: Adital