15/03/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Empregos verdes podem deter pobreza

Estudo defende benefícios de investir em geração de trabalhos ligados ao meio ambiente, para facilitar transição a economia de baixo carbono

Em um país em desenvolvimento como o Brasil, investir na geração empregos da chamada economia "verde" pode ser uma boa solução para reduzir a pobreza, afirma um estudo publicado pelo CIP-CI (Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo), um órgão do PNUD em parceria com o governo brasileiro.

O pesquisador Maikel Lieuw-Song, autor do estudo intitulado Empregos "verdes" aos pobres: por que uma abordagem pública de geração de empregos é necessária agora e ex-diretor da unidade de Programas Expandidos de Obras Públicas no Departamento de Obras Públicas da África do Sul, defende no documento os benefícios dos investimentos “verdes”, em especial os destinados a acelerar a transição em direção a economias de baixo carbono.

"Inovações políticas aplicadas em países em desenvolvimento, como África do Sul ou Índia, apontam para o valor das atividades ambientais geradoras de emprego relevantes para recuperar ou melhorar o acesso a bens e serviços ambientais públicos, assim como melhorar a subsistência produtiva dos pobres", diz Lieuw-Song.

Entre estas atividades ambientais estão o plantio de vegetação nativa, remoção de espécies invasoras, construção de infraestrutura para diminuir a erosão do solo, proteção de reservas e gerenciamento de bacias hidrográficas, que, segundo o autor, exigem um esforço físico maior, e, por isso, "tem o potencial de criar emprego aos pobres".

Os benefícios trazidos por estas políticas podem ser sentidos pelos pobres e pelas comunidades locais. Além disso, o lucro decorrente destas atividades ambientais pode diminuir a pressão para explorar o meio ambiente, na opinião do pesquisador.

Tantos aspectos positivos acabam, no entanto, sendo ofuscados pela falta de parâmetros para medir, de forma apurada, os benefícios de se investir no meio ambiente. "Essa indefinição faz com que os investimentos não sejam reconhecidos como importantes para reduzir a pobreza e auxiliar em políticas ambientais", acrescenta.

Esta situação leva a uma série de problemas: em primeiro lugar, é difícil competir por recursos com outros projetos cujos benefícios são mais fáceis de ser quantificados. Por sua vez, a ausência de um mercado para absorver a maior dos serviços atrelados ao ecossistema agrava a questão, já que estes não têm seu valor reconhecido.

Papel do governo

No estudo, Lieuw-Song defende também que, em muitos casos, os governos deveriam tomar a liderança e fazer estes investimentos, usando programas públicos para criar trabalhos envolvendo atividades ambientais e tornando a geração de emprego para os pobres parte integrante das estratégias de redução da pobreza.

Em uma época de crise como a atual, em que há muitos desempregados por causa da recessão financeira, os governos devem desempenhar um papel maior quando os mecanismos de controle da economia estão falhando ou não funcionam, argumenta o ex-diretor da unidade de Programas Expandidos de Obras Públicas no Departamento de Obras Públicas da África do Sul.

"É crescentemente claro que os riscos de não se investir em recursos naturais são enormes, tanto em termos da escala do impacto quanto do risco a longo prazo e irreversível que pode ser causado", ressalta o pesquisador, que acrescenta que mesmo quando os benefícios não podem ser medidos de forma apurada, eles eventualmente trazem vantagens ao governo, seja direta ou indiretamente.

De uma forma geral, o autor afirma que é necessário fazer mais investimentos em gerenciamento de recursos naturais e no meio ambiente. "Programas de geração de emprego públicos centrados no meio ambiente representam uma sinergia destas duas mudanças, e ele garantem nossa atenção e consideração agora – não somente como medidas de combate à crise, mas também como intervenções políticas importantes para o crescimento inclusivo e sustentável", defende.

OIT recomenda "empregos verdes"

O Brasil tem cerca de 1 milhão de pessoas trabalhando em "empregos verdes", estima a OIT.

Foto: Envolverde

Segundo OIT, crise é uma oportunidade favorável para as políticas ambientais

27/05/2008 - Apesar de a Alemanha ter se manifestado recentemente dizendo que os países da União Européia deveriam diminuir o ritmo de seus programas de redução das emissões de carbono por causa da crise mundial, o conselheiro principal para desenvolvimento sustentável da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Peter Poschen, disse nesta segunda-feira (27) que a crise é, na verdade, uma oportunidade favorável para as políticas ambientais, com a criação dos chamados "empregos verdes" (postosem atividades ambientalmente sustentáveis).

“Em crises anteriores, como a de 1929, as ações do governo para reverter os problemas econômicos acabaram se tornando as obras que alavancaram o desenvolvimento de países como Estados Unidos durante os anos seguintes”, explicou Poschen.

Segundo ele, com a crise financeira, os investimentos governamentais vão se repetir e é a oportunidade de “pensar no que vai ser a infra-estrutura do século 21”.

“Não é uma questão de consciência ambiental e, sim, de cálculos. A inconsciência energética é um desperdício de recursos”, avaliou o conselheiro da OIT.

De acordo com ele, quando um país investe em economia de energia na construção civil, por exemplo, está apostando numa tecnologia que dará retorno financeiro ao longo dos anos, quando aquele prédio construído deixar de gastar.

Poschen também defendeu que os países invistam em pacotes financeiros para gerar os “empregos verdes” - os postos de trabalho gerados a partir das necessidades de frear o aquecimento global, como a reciclagem ou a produção de biomassa. Segundo ele, além da geração de empregos, esse tipo de pacote também garante que o dinheiro será distribuído em diversas áreas e que vá gerar demanda.

“Quando você injeta dinheiro diretamente na mão do cidadão, ele pode apenas usar esse dinheiro para pagar créditos anteriores Não há garantias de que vá gerar novas demandas. E o dinheiro também pode ficar mais concentrado em uma área do que em outras”, explicou Poschen.

Os Estados Unidos, de acordo com ele, já têm um pacote para a geração de empregos verdes que vai investir US$ 100 bilhões e criar 2 milhões de novos postos de trabalho.

Brasil já tem 1 milhão de "empregos verdes"

Mariana Jungmann, da Agência Brasil

O Brasil tem cerca de 1 milhão de pessoas trabalhando em "empregos verdes" - atividades ambientalmente sustentáveis. Essa é a estimativa do conselheiro principal para desenvolvimento sustentável e mudança climática da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Peter Poschen.

Ele participou da elaboração do relatório “Empregos Verdes: Trabalho decente em um mundo sustentável e com baixas emissões de carbono”, promovido pela OIT e que fala sobre os novos postos de trabalho gerados a partir do combate mundial contra o aquecimento global.

Além dos 500 mil empregos em reciclagem, Poschen estima que existam outros 500 mil em biocombustíveis no Brasil. Mas, segundo ele, o país precisa pensar em criar "empregos verdes" para economizar energia.

“No Brasil há uma situação mista: ele é líder em algumas áreas como biocombustíveis e reciclagem. Mas ainda não há políticas votadas para a geração de empregos nas construções econômicas, ou na preservação da Amazônia, que trazem um bom retorno econômico”, analisa Poschen.

De acordo com o conselheiro da OIT, a energia economizada pelo Brasil com a reciclagem de alumínio seria suficiente para sustentar uma cidade de 1 milhão de habitantes durante um ano.

Contudo, o investimento em lavouras de cana-de-açúcar e em hidrelétricas não vai gerar muitos "empregos verdes", segundo Poschen.

“As hidrelétricas geram muitos empregos enquanto estão sendo construídas, mas depois não precisa de muita gente na manutenção. E a cana-de-açúcar tem mecanizado cada vez mais o corte”, avalia. (M.J.)

Por: PNUD Brasil / Agencia Brasil