05/02/2010 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Vergonha: Brasil se reafirma como maior consumidor mundial de agrotóxicos

Na safra de 2008/2009, o Brasil atingiu a marca de maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Os agrotóxicos são feitos a partir de produtos de petróleo e de químicos não degradáveis e, portanto, depois de fabricados, permanecem na natureza.

Matam a biodiversidade representada pela variedade de vida vegetal e animal, afetam a fertilidade natural do solo (ao acabar com bactérias e nutrientes naturais), contaminam o lençol freático e a qualidade das águas da chuva - pois os venenos secantes evaporam para a atmosfera e depois regresssam com a chuva. Afetam também a qualidade dos alimentos, que quando ingeridos sistematicamente podem causar destruição das celulas e resultar em câncer .

Mas tudo isso não importa. A indústrias anunciam os dados com orgulho. Afinal, a eles apenas interessa os lucros! Certamente seus gerentes buscam apenas produtos orgânicos nas gôndolas dos supermercados, enquanto o povo é obrigado a engolir seus venenos.

Veja e baixe, no arquivo anexo, tabela sobre o consumo de venenos por produto.O Brasil consumiu ao redor de 700 milhões de litros de veneno.Veja a distirbuição por produto (em torno de 629 milhões) e outros produtos mais 70 milhões de litros.Esses 700 milhões de litros foram apliados em 50 milhoes de hectares, equivalentea 14 litros por hectares, a maior media do mundo.

Orgânicos - Agricultores associam respeito ao meio ambiente e aos animais

São Paulo - Azia e desconforto constante no estômago são sintomas que o agricultor Paulo César de Castro relaciona aos agrotóxicos usados para impedir o ataque de pragas na lavoura de batatas. “Tinha o estômago ruim o tempo todo. Sempre que ia fazer uma pulverização, sentia muita azia”, diz.

O mal-estar causado pela aplicação do veneno foi um dos fatores que levaram Castro a trocar o modelo convencional pelo plantio de alimentos orgânicos há dez anos. “[Comecei a plantar orgânicos] por medo de ser contaminado ou contaminar alguém com agrotóxico. Se vem na embalagem que é veneno, boa coisa não é”, afirma o produtor.

Depois que começou a trabalhar com produtos orgânicos, conta Castro, o mal-estar “foi sumindo aos poucos e graças a Deus acabou". Ele foi um dos primeiros produtores a aderir à cultura sem defensivos ou aditivos químicos no município de Gonçalves, em Minas Gerais. Com cerca de 5 mil habitantes, o município, localizado na Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, está se tornando um importante produtor de alimentos.

A preocupação com a conservação do meio ambiente também foi um dos fatores que fizeram com que Castro mudasse a forma de cultivo. “[O agrotóxico] contamina o solo, contamina a água. Quando você faz uma lavoura muito grande, acaba que em uma chuva muito forte desce tudo para as águas. A consciência pesa”.

A preocupação com o bem-estar dos animais também é lembrada por quem opta por alimentos orgânicos, ressalta a veterinária Ísis Mari, autora de uma pesquisa sobre as diferenças entre ovos orgânicos e convencionais. “Quando a pessoa conhece um pouco mais sobre o sistema de produção de ovos, fica mais sensível à questão do bem-estar animal.”

De acordo com a veterinária, a produção convencional das granjas gera muito sofrimento para as galinhas. Nas granjas, as aves têm o bico cortado para evitar que se machuquem, mas as brigas são constantes devido à falta de espaço. As aves também se ferem e deformam os pés nas grades onde ficam presas.

Na criação orgânica, as aves têm mais espaço e sofrem menos, garante a veterinária. Além disso, diferentemente das criadas em granjas tradicionais, as aves não recebem antibióticos e outros remédios para acelerar o crescimento. Ísis Mari diz que, apesar dos resíduos dessas substâncias encontrados nos ovos serem apontados internacionalmente como seguros, os consumidores de orgânicos preferem não ingeri-las.

No entanto, os custos do modo de criação diferenciado, inclusive com a alimentação das aves, acabam fazendo com que os ovos orgânicos custem até três vezes mais do que os convencionais. Ísis Mari destaca que as pessoas pagam o preço por causa de seus “ideais”, mas reconhece que os ovos orgânicos não têm valor nutricional maior do que os tradicionais.

Orgânicos - Chefs de cozinha afirmam que pratos ficam mais saborosos

Daniel Mello

São Paulo - O sabor e o aroma mais acentuados também são pontos que diferenciam o alimento orgânico do convencional, garante Renato Caleffi, chef de um restaurante paulistano especializado nesse tipo de culinária. “Em termos de produto final, sensorial, o orgânico tem muito mais sabor, muito mais aroma, mais cor e um peso maior, inclusive, do que o convencional.”

Ricardo Andrade, que comanda a cozinha de um restaurante em Gonçalves, no sul de Minas Gerais, observa que o alimento orgânico é “menorzinho e tem sabor mais forte”. Especializado em culinária mineira, o restaurante de Andrade usa apenas produto orgânicos na preparação dos pratos. “Cozinha moderna com um toque caipira”, define o lema da casa.

A versatilidade dos alimentos produzidos sem aditivos químicos é outra vantagem apontada pelo chef Renato Caleffi. Ele ressalta, porém, que tais produtos tanto podem ser “destruídos”, quando passam por exemplo por um processo de fritura, quanto valorizados, em receitas que realçam seu sabor natural.

Ele aponta ainda a confusão feita pelos que relacionam alimentação orgânica com alimentação vegetariana e outras similares. São coisas diferentes, explica Caleffi, lembrando que existem carne, ovos, laticínios e até bebidas alcoólicas orgânicas.

Quanto ao preço, Caleffi recomenda que não se pense no fato de o orgânico custar mais, mas no pouco valor do convencional. “O raciocínio não é que o alimento orgânico seja mais caro, o convencional que é muito barato, só que ele causa malefícios.” Ele procura combinar ingredientes mais baratos com outros mais caros para oferecer preços mais em conta. Produtos de origem animal, como carnes e laticínios, por exemplo, são mais caros.

Orgânicos - Processamento pode expandir fronteiras de alimentos sem agrotóxicos

Daniel Mello

São Paulo - O beneficiamento de produtos orgânicos pode ser uma maneira de abrir novos mercados, diz a empresária Fernanda Kurebayashi, que dá como exemplo as geleias que fabrica em Gonçalves, no sul de Minas Gerais.

A framboesa orgânica plantada na região é uma fruta muito frágil e necessita de uma série de cuidados, como transporte refrigerado, para chegar intacta ao consumidor final. A empresária destaca que, mesmo com tais precauções, as longas viagens acabam gerando perdas que são repassadas ao agricultor.

Porém, ela garante que a geleia orgânica de framboesa chega em perfeito estado a lugares como os estados do Amazonas e de Santa Catarina e a cidades da França e da Alemanha. Por isso, ela afirma que a associação entre agricultores e processadores, além de agregar valor ao alimento, permite à produção “ultrapassar barreiras”. Fernanda ressalta que, depois de processado, o produto pode ser conservado por até dois anos.

Segundo a empresária, a exportação de frutas in natura é possível somente com o uso de grandes quantidades de conservante ou com métodos muito caros de congelamento, o que torna esse tipo de comercialização viável apenas para grandes produtores.

Para Fernanda, a produção orgânica inverte essa lógica. “Outra vantagem do orgânico é essa, pequenos produtores conseguem ter uma rentabilidade que não teriam trabalhando no modelo convencional.” No caso das geleias orgânicas, cada vidro custa o dobro do produto convencional.

Esse nicho abre espaço inclusive para comunidades tradicionais como os quilombolas de Ivaporunduva, no município paulista de Eldorado. A banana produzida na região é orgânica por tradição. “Nossos antepassados nunca trabalharam com veneno, desde que fundaram a comunidade”, explicou José Rodrigues, que foi duas vezes coordenador da associação dos 35 produtores da comunidade.

Segundo Rodrigues, os quilombolas estão buscando certificação para outras culturas, como mamão, limão e abobrinha, para rotular como orgânicos produtos que historicamente são plantados sem agrotóxicos ou aditivos químicos.

O agricultor diz que a certificação permitirá que a comunidade estabeleça contratos com grandes redes de supermercado, como já está sendo negociado para a produção de banana.

No entanto, ele aponta uma “pequena dificuldade que precisa ser superada": a travessia de um rio, necessária para escoar as bananas, ainda é feita de balsa. De acordo com Rodrigues, essa barreira logo será superada com a construção de uma ponte.

Orgânicos - Preocupação com saúde motiva consumidor

Antônio Cruz/ABr

Brasília - Consumidores apontam que orgânicos são mais saborosos e nutritivos

Brasília - A preocupação com a saúde e com o impacto ambiental é o principal fator que leva o consumidor a buscar produtos orgânicos.

É o que aponta o pesquisador Francisco Vilela Resende, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Unidade Embrapa Hortaliças.

Resende diz que o interesse em alimentos sem resíduos de agrotóxicos e de produtos químicos é cada vez maior.

Ele ressalta, porém, que não existem pesquisas conclusivas da Embrapa comparando a quantidade de nutrientes e sais minerais nos alimentos orgânicos e nos convencionais. Algumas pesquisas da empresa, no entanto, mostram que os orgânicos têm mais vitamina C e antioxidantes.

O pesquisador explica que o método de produção do alimento também influencia na qualidade nutricional. “Se você tem um alimento produzido em sistema orgânico, que tem maior qualidade agregada, mas não é manuseado de forma correta, ele vai perder qualidade.”

Além disso, a comparação entre orgânicos e convencionais deveria ser feita com alimentos produzidos na mesma área, mas, de acordo com Resende, é impossível produzir os dois tipos de alimento no mesmo terreno.

Para os consumidores, não é apenas a ausência de agrotóxicos que determina a preferência por orgânicos. Eles também destacam a durabilidade e o sabor diferenciado dos alimentos. “Duram muito mais, são mais saborosos, mais crocantes e têm melhor textura”, afirma a consumidora Teresa Cristina Oliveira, de Brasília.

“Consumo orgânicos porque sou agrônoma e sei o mal que fazem os agrotóxicos, não só para quem consome, mas também para a natureza em geral”, diz Muriel Saragoussi, que aderiu aos orgânicos há 20 anos.

Na casa do militar Fábio de Matos, só se consomem alimentos orgânicos. Ele percorre quatro lugares todo os sábados para compor a feira da semana. Matos diz que sua saúde melhorou desde que começou a consumir alimentos orgânicos, há quatro anos.

“Concluí que talvez as doenças que aparecem na televisão fossem por causa de alguma coisa que as pessoas estavam consumindo. A gente sabe que a má alimentação causa um monte de problemas. Eu percebi claramente que minha saúde melhorou.”

No dia a dia, alguns consumidores combinam produtos orgânicos com alimentos convencionais, como a professora Kátia Cardoso. “Não dá para fugir totalmente [dos produtos convencionais]. Nem todas as frutas são orgânicas”, diz.

De acordo com o pesquisador Francisco Resende, da Embrapa Hortaliças, a oferta de frutas orgânicas ainda é restrita porque “falta estímulo para os produtores”. Ele explica que a plantação de frutas é um investimento de longo prazo porque converter a terra de produção convencional para orgânica leva dois anos e o resultado do plantio também é mais demorado.

No caso das hortaliças, carro-chefe dos orgânicos, a conversão demora um ano e é possível ter resultados em 30 dias, segundo ele.

Orgânicos - Produtores formam associações para facilitar a venda e trocar experiências

Marcello Casal Jr/ABr

Brasília - Há 20 anos, a Associação de Agricultura Ecológica promove, aos sábados, feira de orgânicos na entrequadra 315/316 Norte

Brasília - No mercado de alimentos orgânicos, as associações de produtores vão além da simples intermediação de vendas.

Além de dar a seus associados orientação sobre o manejo e a venda dos alimentos, elas garantem a certificação dos produtores, que dividem os custos desse serviço.

Os membros da Associação de Agricultura Ecológica (AGE) do Distrito Federal, por exemplo, aprenderam juntos os princípios da produção orgânica. Com 20 anos de atuação, a AGE tem atualmente 17 associados, sendo 12 deles ativos (os que levam produtos para vender nas feiras).

Os associados da AGE só comercializam os alimentos que produzem em feiras. Eles estimam em R$ 15 mil por semana o total vendido pelo grupo. Depois de retirada a porcentagem da associação e dos gerentes de pontos de venda, o valor obtido é dividido entre os produtores.

O gerente da AGE, Marilberto Zavão Lima, diz que não tem dificuldade para vender. “A dificuldade é ter produto para vender.”

Deusmar Alves, produtor do Sítio Mangabeira, que trabalha com orgânicos há 16 anos, conta que aprendeu o que sabe na AGE e que há muita troca de informações com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-DF).

“Hoje a Emater cresceu muito, abriu muito espaço para o crescimento da agricultura orgânica, mas, no início, a gente tinha mais informações só entre nós mesmos produtores.” Ela destaca o tipo de auxílio que os produtores recebem da associação e a ajuda que prestam uns aos outros. “Nosso lado técnico hoje é bastante informal. Quando um produtor tem dificuldade já vem procurar saber com outro o que está certo, o que está errado.”

Também filiado à AGE, Jorge Artur Chagas produz orgânicos há 25 anos. Segundo ele, no início, a associação não tinha ajuda do Poder Público. “Os programas agropecuários são bastante voltados para o modelo convencional, ainda hoje há dificuldade”, afirma Chagas, que defende a venda sem intermediários. “A venda nas feiras é o ideal para a produção local. O consumidor sabe o que está comendo, conhece o produtor e o sítio.”

O Sítio Gerânio, de Francisco Marcolino, produz orgânicos desde 1988. “Percebemos a importância do alimento orgânico ao ver os males causados pelo convencional – entre os próprios produtores, muitos passavam mal de tanto usar veneno, tanto produto químico. Aí, a gente viu a necessidade de não mexer mais com esse tipo de produto.”

Por motivo semelhante, José Ibaldi, dono da Chácara Santa Cecília, decidiu converter sua produção para orgânicos em 1998. “Não estava me sentindo bem usando produtos químicos, sobretudo agrotóxicos. Aquilo não estava me agradando, e também aos empregados que trabalhavam comigo, porque me pareceu prejudicial à saúde do pessoal todo.”

Para iniciar a nova atividade, Ibaldi conversou com outros produtores, visitou propriedades e fez cursos na Emater. A empresa reuniu um grupo de produtores para discutir comercialização de orgânicos e daí surgiu a ideia de criar o Supermercado Orgânico da Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa-DF), em 2001.

Em dezembro do mesmo ano, uma associação de produtores orgânicos começou a funcionar na Ceasa, inicialmente em um estacionamento. Quatro anos depois, eles foram para um galpão e atualmente contam com apoio de um mercado na Ceasa que funciona durante dois dias na semana. As vendas semanais ficam em torno de R$ 15 mil.

Há também barracas que vendem produtos orgânicos em diversos pontos da cidade. Uma delas funciona semanalmente, há cerca de seis anos, em frente ao Ministério do Meio Ambiente, por meio de parceria entre os funcionários e produtores do Assentamento Colônia I.

Dora Sugimoto, que presidia a Associação dos Trabalhadores do Ministério do Meio Ambiente, conta que a ideia surgiu em 2003, quando fez um trabalho sobre economia solidária com alunos da Escola Técnica de Unaí, a convite da Universidade de Brasília (UnB).

Ela sugeriu, então, que os funcionários agissem como se fossem consumidores. Eles fizeram então uma visita ao assentamento e doaram sementes orgânicas aos agricultores.

“Uns 40 dias depois, eles apareceram com os produtos, e nós pensamos: ‘agora temos que fazer a nossa parte’.” Foi daí que surgiu a feira, lembra Dora, que consome orgânicos desde essa época. “Você economiza na farmácia a diferença que gasta num preço mais diferenciado.”

Por: MST + Agencia Brasil