27/11/2009 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Macaé de Cima: a convivência harmônica entre florestas, águas e pessoas.

Macaé de Cima, por sua biodiversidade e beleza, é um grande diferencial para Nova Friburgo. Nós, friburguenses, somos responsáveis pela preservação daquele magnífico Refúgio de Vida Silvestre. Os moradores de Macaé de Cima tem nos ajudado bastante a proteger a natureza daquele lugar. Por este exemplo, devemos acreditar que o ser humano é capaz de conviver harmonicamente com a floresta e com os animais que vivem nela.

Guilherme Sá

Vez por outra encomendas para Macaé de Cima vão parar bem longe de seus destinos.Quem entra em Macaé de Cima logo vê o nome do lugar sumir bem debaixo de seus pés – a região passa a se chamar Mirandelo, Cabeceiras, Rio das Flores, Santiago, Córrego do Macuco, Juir, Fazenda S.João, Galdinópolis, Toca da Onça, e tantas outras localidades – todas elas chamadas, pelo costume local,“Macaé de Cima” – para confusão até de quem já é familiar com o peculiar sabor local.

Recentemente, Macaé de Cima ganhou ainda mais um tempero: Trata-se da proposta de criação de um Refúgio de Vida Silvestre, uma unidade de proteção integral para uma área florestal com uma comunidade tradicional moradora. Mas desta vez a unidade vem proposta pela própria comunidade: os moradores, por iniciativa própria, promoveram o estudo técnico exigido por lei, e depois, com apoio da Prefeitura, realizaram uma consulta pública como manda o figurino: edital, folhetos explicativos, e divulgação clara e aberta. Isto, há quem arrisque, pode ser inédito no Brasil.

“Mas Macaé de Cima é onde?”, perguntarão os mais experientes. “Por onde se entra? Como se chega lá?” O Refúgio proposto é Macaé de Cima na região das Cabeceiras, as florestas perto das nascentes do Rio Macaé edas Flores, em Nova Friburgo. Entra-se pela Estrada do Garlipp, em Debossan, Mury, e chega-se após 15 km de estrada de chão, seguindo sempre pela parte alta.

Mudança na cultura do lugar

Outrora uma região bastante desmatada, a região das Cabeceiras ficou famosa por tornar-se novamente uma floresta. O fenômeno ocorreu desde que a economia local transformou-se, há quarenta anos, com a chegada de umageração de proprietários conservacionistas.

Pouco a pouco os moradores tradicionais foram deixando de lado suas roças e achando empregos na pousada e no hotel que foi criado para acomodar os recém chegados. Os sítios de conservação começaram a surgir. A natureza do trabalho mudou, e com ele a fisionomia do lugar. Ao invés de roças de feijão e inhame e criação de animais, passou-se à plantação de árvores e jardins, recepção de visitantes, e passeios guiados pelos mateiros locais, para clientes com sotaque “alemão” de várias nacionalidades.

“Isto foi trabalho de muito tempo”, comenta Claudionor Ouverney.Descendente da primeira leva de imigrantes suíços franceses em 1819, “Seu Cláudio” fala com a vivência de seus bonachões 56 anos de vida – todos eles em Macaé de Cima. Traz a face corada e a limpidez dos olhos azuis, típicos de uma região que guarda as origens de Nova Friburgo.

Ouverney começou a trabalhar na região como aprendiz de pedreiro, ainda criança. Ao contrário de muitos dos descendentes dos pioneiros, nunca abriu mão da antiga gleba da família. A propriedade transformou-se na Pousada Amantes da Natureza, operada pelos Ouverney. O recanto, com um punhado de pequenos chalés de hospedagem e um remanso de água límpida, é um brinco de lugar. Os jardins juntaramplantas nativas, orquídeas e bromélias às fruteiras centenárias plantadas pelos antepassados. “Muito da nossa vida está aqui, no renascimento dessa floresta. “Ali mesmo”, exemplifica, apontando com orgulho o bosque fechado, “ tudo aquilo ali era pasto e descampado. Mais para lá havia a fábrica de seda, que foi incendiada ainda no tempo de D. João. Ainda existem algumas amoreiras perdidas na mata, sem os casulos do bicho-da-seda, mas com muitos passarinhos que vem para comer as amoras.”

Segundo o SNUC, a lei federal que define as unidades de conservação, o objetivo da modalidade “Refúgio de Vida Silvestre”, é funcionar como um santuário para a proteção de animais silvestres da fauna local e migratória.

E isto é manter a floresta em que habitam. Com a recuperação da floresta, a Região das Cabeceiras é hoje, segundo declaram os pesquisadores, uma das mais ricas amostras de toda a flora da Mata Atlântica remanescente. Com a floresta recuperada, a fauna voltou a comparecer. Visitas de campo recentes de pesquisadores da Fundação Brasileira de Conservação da Natureza registraram uma presença de pássaros e mamíferos ameaçados de extinção superior a qualquer outra região vizinha.

Moradores iniciaram oreplantio da mata

Verdade é que os novos proprietários iniciaram o replantio. Mas certo é também que o clima de neblina da região e uma floresta pujante, que teimou em sobreviver, também ajudaram bastante.

“A mata original resistiu no topo dos morros e nas encostas, no tempo das roças de sub-existência, lavouras de milho, da carvoaria e da serraria, e depois das criações e dos pastos.”, explica Ouverney, mostrando fotos aéreas de 1959, tiradas dos aviões da extinta companhia aérea Cruzeiro do Sul, com grandes áreas desmatadas. “Com a mudança da atividade, a floresta foi despejando as sementes vale abaixo.”

A vista que se tem da Pousada não deixa dúvida que as sementes prosperaram. Dalí se vê uma área florestal de rara beleza, bem parecida com a floresta original, com árvores de até trinta metrosprojetando-se do dossel fechado. Já abriga um bosque suspenso de bromélias e orquídeas, que se debruçam sobre os jardins e recantos.

A região tornou-se um dos pontos de visitação mais belos do município, entrecortada de rios e riachos, pontilhada de belas cachoeiras. Tem-se uma vista de picos e cristas monumentais, como a Pedra Bicuda e o “Pão de Açúcar de Friburgo”, o pico do Faraó, o ponto alto, com 1750 mts.

A Associação Macaé de Cima

A comunidade, também renovada, criou uma associação ambientalista local em 1984, a Associação Macaé de Cima. Suas atividades ao longo dos anos são parte do que se vê ali hoje: com a Associação vieram os pesquisadores do Programa Mata Atlântica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Os pesquisadores constataram o excelente estado de conservação da floresta, e em 1990, por proposta do Jardim Botânico, o município criou a Reserva Ecológica de Macaé de Cima, com 7.200 ha – a primeira Unidade instituída ali – em reconhecimento à importância daquela floresta.

A comunidade preserva no bosque o seu próprio sabor local: a capela de SãoCristóvão e o coreto, lugares de festas tradicionais, e o cemitério dos Trannin, que recebeu os despojos dos primeiros colonos. Os moradores fazem a manutenção da estrada com equipamento próprio, e também das trilhas, usando conhecimento de muitos anos, e uma boa pitada do orgulho local.

“Depois de tantos anos passados ainda estamos esperando os recursos necessários para manter e fiscalizar.” aponta Ouverney. “Enquanto isso nós temos que fazer quase tudo”.

Luciana Aguiar, Presidente da Associação de Macaé de Cima, que atua no local desde 1984, explica: “O Refúgio é uma unidade de proteção integral local, e acreditamos que isso ajude esses recursos a encontrarem o seu destino em Macaé de Cima.”

Devido à presença da mata preservada, da topografia acidentada, e ao tamanho obrigatório das propriedades, a comunidade tem pouco espaço para crescer. Em Macaé de Cima, isto é muito bom. “O espaço para crescer é na qualidade de vida, com a paz que a floresta nos dá”, observa Luciana. No ambiente prístino das Cabeceiras, as propriedades sediam retiros de meditação, yoga, oficinas de culinárias saudáveis e demonstrações de permacultura em pequenas hortas orgânicas. Outras promovem a participação dos moradores em atividades em harmonia com o local, como apicultura, o trutário, e serviços para visitantes.

Junto com os moradores,a Associação elaborou um programa de conservação que procura incluir as pessoas. “O que vemos aqui é uma comunidade em evolução”, aponta Guilherme Sá, representante de Macaé de Cima no Conselho Municipal do Meio Ambiente. - “Precisamos de alternativas locais de renda ligadas à proteção da floresta. Isso garante uma adesão cada vez maior à preservação da mata e dos animais silvestres, e economiza recursos. Educação ambiental é uma prioridade, mas num contexto completo, que signifique uma verdadeira evolução para gerações que vão continuar esse trabalho. A estra-tégia é valorizar os moradores pelo valor que têm em si, pelo papel que têm na proteção. Queremos cultivar um público visitante diferenciado, que também busca opções de saúde, contato com a natureza e oportunidades de crescimento pessoal. É um conceito seletivo de visitação”, resume. “Queremos promover crescimento humano de formas diversas, um turismo de saúde, consciência, contemplação criativa.”

A comunidade entra em ação

Um pouco de ação também entrou na receita. A comunidade reuniu-se em 2008 para analisar qual o melhor regime de conservação para Macaé de Cima. “É possível preservar a floresta e também ascomunidades humanas. As modalidades de Refúgio de Vida Silvestre e Monumento Natural estão aí para isto.”

Guilherme, desde que fixou residência em Macaé de Cima, tem participado de vários conselhos de unidades de conservação no entorno, e se dedicou ao estudo de como elas podem funcionar também para apoiar as comunidades locais. Hoje como o atual Coordenador do Conselho Municipal do Meio Ambiente de Nova Friburgo, utiliza essa experiência.

“Numa região com o perfil de Macaé de Cima, você tem duas alternativas para proteção integral”, analisa. “Você pode se apossar do trabalho que uma comunidade empreendeu durante décadas, tirar os moradores de lá com desapropriações, transformartudo o que fizeram em “serviços ambientais” do governo, negociar tudo isso como numa bolsa de commodities para arrecadação do estado, e inchar as cidades ainda mais. “Outra opção”, compara, “é que você pode reconhecer o trabalho da gente da floresta, valorizar esse conhecimento e investir na própria comunidade para conservar o ambiente florestal.”

“Uma opção”, avalia, “é centralizadora, destitui a população local, e acaba causando impacto no campo e nas cidades. Solapa pertenceres locais e modos de vida, empobrece a diversidade social e enfraquece ainda mais a Sociedade Civil.”

Moradores e proprietários na região têm criticado a demarcação do Parque Estadual dos Três Picos, que invadiu os limites de uma Unidade Municipal preexistente, a APA Municipal de Macaé de Cima. A demarcação do parque incluiu até mesmo vilas e localidades do município, como Teodoro de Oliveira ao longo da RJ-116. Reconhecendo erros na demarcação, a administração estadual agora se vê às voltas com a necessidade de excluir algumas áreas do Parque.

Parque, Apa ou Refúgio

Recentemente realizou consulta pública para determinar quais áreas retirar. Porém, a desafetação só pode ser feita por ato do legislativo estadual, um processo bastante complicado.

Segundo Guilherme: “O Parque se estende por vários municípios, exige a desapropriação de todas as propriedades privadas até mesmo em bairros, e a remoção dos moradores. Por isso, a demarcação de um parque tem que ser muito cuidadosa, baseada em estudos prévios. Em áreas tradicionalmente ocupadas, por exemplo, tentar implantar um parque é uma proposta que destitui as comunidades locais e corrói seus laços com a terra, devido à obrigatoriedade das desapropriações. Os moradores ficam confusos e os proprietários ficam sem saber que destinação dar a seus investimentos na manutenção das áreas que cuidam. E em áreas onde a implantação é imposta sobre uma unidade municipal já existente sem ouvir o município ou a comunidade local, trata-se de uma invasão da autonomia do município, e uma violação dos direitos da comunidade.”

Segundo o SNUC, a lei que institui as unidades de conservação, o Refúgio de Vida Silvestre é uma unidade de proteção integral que conserva áreas florestais tanto quanto o Parque, porém não obriga a remoção da comunidade local nem a desapropriação de propriedades existentes. Ao contrário, o direito à propriedade e à moradia é respeitado e integrado aos objetivos de preservação. A comunidade tem sustentado que a regeneração da floresta notada por vários pesquisadores é a comprovação de que a gestão da unidade pode e deve ser feita em parceria com moradores e proprietários e não contra eles.

“A solução oferecida pelo Refúgio de Vida Silvestre recategoriza a unidade municipal, conservando a autonomia do município, os direitos de propriedade de uma comunidade historicamente estabelecida, e seu poder de administrar seu próprio espaço, como há décadas vinha fazendo, resultando na regeneração da floresta”, explica Guilherme.

“Representa uma solução que atende tanto as necessidades de preservação como as necessidades locais, commenos gastos aos cofres públicos e mais investimentos em favor do município. Os recursos têm um destino mais preciso, e por isso, mais eficiente. O tecido social é preservado, o componente humano mantido em harmonia com a preservação do meio ambiente. Essa alternativa é o Refúgio de Vida Silvestre Municipal.”

Após a conclusão do estudo, o Conselho Municipal do Meio Ambiente de Nova Friburgo mobilizou um grupo de trabalho, finalizando em agosto com a Consulta Pública realizada na sede da Prefeitura, para a criação do Refúgio. Com o comparecimento em peso da comunidade, a análise do interesse público e do papel dos proprietários foi feita na presença das várias autoridades.

Com o refúgio, espera-se, o município preservará sua autonomia, estabelecerá uma administração mais atenta aos interesses da comunidade, e os recursos de conservação finalmente encontrarão o seu destino. Na ocasião, o Prefeito Heródoto Bento de Melo avisou: “Macaé de Cima é só o começo.”

Por: ForumSec21