23/07/2009 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Agir nas comunidades é fundamental para evitar fluxo de crianças para a Cracolândia, diz psicólogo

São Paulo - O problema das crianças e adolescentes que vivem na Cracolândia pede ações emergenciais não só no local, mas também nas comunidades de origem desses jovens. A avaliação é do psicólogo do Projeto Quixote, que cuida de crianças em situação de risco no centro de São Paulo, Lucas Carvalho. Para ele, não agir nas periferias, de onde costumam vir essas crianças, é “enxugar o chão com a torneira aberta”.

Ele explicou que as próprias famílias desses jovens costumam viver em situação de violência. “A família também vem de históricos de violência”, ressaltou Carvalho. O conjunto de ruas do centro chamado de Cracolândia é caracterizado por um quadro de venda e consumo generalizados de crack.

Segundo a coordenadora pedagógica do Projeto Quixote, Fernanda Ramos, quando uma criança chega ao centro de São Paulo uma série de vínculos entre ela e a comunidade já foram rompidos. Por isso, ela ressalta a importância de haver “um trabalho na comunidade que permita olhar para essa criança antes que ela se torne um refugiado urbano do centro de São Paulo”.

O jovem que enfrenta problemas no lugar onde vive “vai se descolando, aos poucos, da família dele”, explica a coordenadora do programa de Educação na Rua elaborado pela Fundação Travessia, Fabiane Hack.

De acordo com Fabiane, as crianças e os adolescentes vão se adaptando a viver fora de suas casas aos poucos. Primeiro, passam o dia em um lugar próximo de casa, depois, no centro da cidade e, com o tempo, estendem essas fugas até não retornarem mais. “A rua é muito dura, mas também tem o lado sedutor da liberdade e de não ter regras.”

Fabiane, que desenvolve um trabalho de reinserção social de crianças em situação de rua, afirmou ter dificuldades para trabalhar com usuários de crack. A fissura - desejo compulsivo de consumir a droga - dificulta a abordagem e o diálogo com esses indivíduos. Ela destaca que até os espaços ocupados pelos que usam crack são diferentes da região onde ficam os demais menores.

Apesar do contato inicial ser mais difícil, o psicólogo Lucas Carvalho, do Projeto Quixote, acredita que a relação com uma criança residente da Cracolândia acaba sendo mais “profunda e verdadeira” do que com um menor de rua de outra região, justamente por ser mais difícil do que em outros lugares como é o caso do Vale do Anhangabaú.

Apontado como porta de entrada para os menores chegarem ao centro de São Paulo, no Anhangabaú, as abordagens iniciais costumam ser bem recebidas porque ali já é mais frequente a visita de entidades que ajudam crianças e adolescentes.

Segundo Carvalho, os menores que vivem na Cracolândia sofrem do que ele define como “desencanto”, uma perda tanto a alegria, como do próprio vigor físico. “O crack, diferente da cola e do tiner, é muito mais engessante”, conta o psicólogo para explicar o porquê da apatia dos envolvidos com essa droga.

Segundo ele, esse fenômeno dificulta o contato inicial, mas, quando a relação de confiança é estabelecida, tende a ser mais forte do que com outros jovens.

A diretora do Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas, da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, Luisemir Lago, acredita que mesmo as crianças e adolescentes com forte envolvimento com o crack podem ser reabilitados, desde que, além dos tratamento de saúde, exista também uma política de reinserção social.

No entanto, ela destacou que o uso continuado de uma droga tão potente pode comprometer as funções cerebrais desses jovens, que, por ainda não terem o organismo ainda completamente formado, estão mais sujeitos a ficarem dementes. “Ele [usuário de crack] não consegue depois render como um adolescente normal.”

Daniel Mello

Por: Agência Brasil