31/03/2009 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Entrevista com a Dra. Conchita Pazo, homeopata, psicanalista e militante feminista presente ao ùltimo Fórum Social Mundial

Século XXI: Fale um pouco sobre tua trajetória?

Dra. Conchita Pazo:Minha trajetória é um tanto sinuosa. Sou médica de formação. Desde a faculdade interessei-me pela saúde pública e a homeopatia. Ao mesmo tempo que temas mais relacionados a questões coletivas da saúde me chamavam a atenção, intrigava-me também as formas individuais de adoecer. Segui como especialidade médica a homeopatia, o que me possibilitou reflexões e experiências mais profundas acerca dos sofrimentos físico e psíquico de adultos e crianças. A homeopatia foi o solo fértil que conduziu-me para a prática psicoterapêutica. As consultas, marcadas por uma busca do entendimento dos sintomas era um caminho que se dirigia a questões subjetivas mais profundas que necessitavam de um arcabouço teórico e prático para além da homeopatia. Em 1989 iniciei uma formação de analistas na linha junguiana. Depois realizei uma especialização em psicanálise, em que estudei o pensamento de Freud e Lacan. Acredito que o trabalho do analista se enriquece à medida que amplia suas possibilidades interpretativas do mundo. No fundo sou uma pessoa inquieta e com múltiplos interesses que vão, na realidade,se entrelaçando em torno de um núcleo principal que poderia chamar de “subjetividades”. Este é sempre o foco de tudo que faço. E foi por esse viés que ingressei no movimento feminista há dez anos atrás, com uma crescente participação no Ser Mulher. Entrei este ano no doutorado do Instituto de Medicina Social (UERJ) com um projeto que pretende estudar questões coletivas e subjetivas relacionadas à violência conjugal, a partir de entrevistas com homens e mulheres envolvidos no fenômeno.

Século XXI - O que é o “Ser Mulher”? Que trabalhos realiza atualmente?

Dra. Conchita Pazo: O Ser Mulher é uma Ong feminista de Nova Friburgo, fundada em 1989, que eu acredito que influenciou muito a percepção das questões de gênero em nossa cidade e em outras tantas ao redor. O Ser Mulher atuou despertando a consciênciadas mulheres e da sociedade em geral para as desigualdades de gênero e para que as políticas públicas, que garantiam direitos, fossem implementadas em nossa cidade.São três os eixos de atuação do Ser Mulher e que se desenvolveram em momentos distintos de sua já longa trajetória: o eixo da formação de lideranças femininas, capacitando mulheres de camadas populares em temas diversos do feminismo (os direitos sexuais e reprodutivos, a violência de gênero e doméstica, as relações de trabalho); o eixo da saúde e biotecnologias; e o eixo da violência contra a mulher e direitos. Tudo é tão extenso que aconselho os interessados a visitar a nossa página: www.sermulher.org.br. Realizamos seminários, encontros e capacitações com lideranças,dialogamos com os órgãos públicos, participamos de seminários, conferências,fóruns,movimentos sociais, editamos cartilhas, livros, artigos, etc.

Século XXI: Recentemente, você representou o Ser Mulher no Fórum Social Mundial.Como anda a discussão de gênero, no mundo?

Dra. Conchita Pazo: Para te responder a essa pergunta irei descrever como foi a participação do movimento feminista nos Fóruns Sociais a partir da construção da plataforma de princípios e proposições da “Marcha Mundial de Mulheres” no primeiro Fórum em Porto Alegre /2001. A Marcha é o amálgama de centenas de organizações civis e movimentos feministas de todo o mundo que visibilizam a vulnerabilidade das mulheres no mundo e propõem ações necessárias para uma equidade entre os gêneros. A Marcha acredita que as transformações necessárias para mudar a vida das mulheres só serão realizadas em um projeto conjunto com os movimentos sociais que lutam também para que um outro mundo seja possível. Um lema que penetrou nos discursos das feministas em geral, é que a nossa demanda não se resume auma inclusão das mulheres a um projeto dado, mas à revisão das bases deste projeto. As políticas neoliberais devem ser relacionadas às questões de gênero. Hoje há uma preocupação crescente acerca dos efeitos destas políticas nas mulheres: feminização da pobreza, precarização dos empregos. O pensamento feminista tem um largo debate sobre a relação entre produção e reprodução, divisão sexual do trabalho, trabalho doméstico, inserção subordinada das mulheres no mercado de trabalho, que ainda hoje não foi assimilado pelos outros movimentos sociais. Dentro dos próprios movimentos de esquerda persistem focos de relações de gênero assimétricas. Enfim, penso que a pauta de discussão sobre gênero no mundo continua focada nos temas que a nortearam desde os idos dos anos setenta, acrescido dos matizes mais atuais das lutas sociais. O movimento feminista sempre trouxe para o centro da discussão questões acerca da sexualidade, que remetiam para a discussão dos reflexos da assimetria e desigualdade das relações de gêneros na esfera das relações de intimidade. Foram perpetrados abalos nos pressupostos que naturalizavam a equivalência entre a natureza feminina voltada para a maternidade e traços desta personalidade mais voltados para o relacionamento interpessoal desde as discussões que as feministas de todo o mundo lançaram sobre a maternidade, as relações conjugais, o exercício da sexualidade, a quebra de tabus, os protestos contra a docilização dos corpos expressa na siliconização dos corpos femininos e no aumento dos distúrbios alimentares. O feminismo busca a interpelação com outros movimentos sociais e a articulação de um discurso político contra o etnocentrimo, a militarização do mundo, o neoliberalismo excludente , a depredação ambiental. Não há democracia real sem justiça social, que inclui justiça ambiental e igualdade entre os gêneros. Alguns títulos de oficinas realizadas nesta edição do Fórum dão o tom do feminismo atual: “As mulheres na luta por justiça socioambiental “, “Tribunal de mulheres contra a exploração capitalista e patriarcal”, “Por la autonomía sexual y reproductiva”. “Contra la criminalización de las mujeres”, “Integração e desenvolvimento desde a perspectiva das mulheres”. “Desafios do movimento de mulheres”e o contexto da Integração regional.

Século XXI:- E nas questões gerais, que visão você tem do Fórum Social Mundial, especialmente, desta versão de 2009?

Dra. Conchita Pazo: Participar de um FSM é sempre uma grande emoção. Só o fato de você estar com tanta gente do mundo todo reunida em torno de um princípio tão lindo como “Um outro mundo é possível” já é uma injeção de ânimo na veia. Este Fórum pode ser considerado histórico por conta da megacrise econômica mundial que vivemos, que faz convergir os diagnóticos dos dois campos ideológicos marcados hoje pelos FSM e o Fórum Econômico Mundial, mais antigo e realizado sempre na gélida Davos. Este ano, tanto em Belém do Pará quanto em Davos, existia o consenso de que as tensões entre expansão econômica e conservação do ambiente são o fulcro do problema e devem ser encaradas. As divergências começam aí. Para Belém, a atual crise é o golpe de misericórdia no fim da hegemonia acrítica do “pensamento único”. Nesta fissura aberta deve-se forçar a passagem de outro modelo de desenvolvimento planetário baseado em uma redefinição dos padrões de produção e consumo da humanidade, na vigilância quanto à justiça climática e na equidade entre os gêneros. Em Davos a solução proposta é uma maior regulação do capitalismo e uma inicial e emergencial “ajuda” dos Estados para recompor o sistema financeiro global. Apesar dos Fóruns Sociais serem um palco para elaboração de diagnósticos e estratégias terapêuticas para os rumos do planeta há um consenso incomôdo de que não temos claro como estabelecer os passos orquestrados para uma mudança. A imensa dificuldade de incidir sobre as relações entre os Estados e o sistema financeiro e a cumplicidade e promiscuidade entre ambos (o mercado financerio financia as dívidas públicas do Estados, por exemplo) tornam-se um importante obstáculo para o desmantelamento da crise.Aposta-se na necessidade de coalescência entre os movimentos sociais e as organizações civis, hoje muito fragmentados e em certa medida lutando para sobreviver dos fundos de financiamento internacional. Aposta-se numa integração de pautas e princípios, buscando-se as identificações entre os diversos movimentos negros, de mulheres, de trabalhadores (as) rurais, de indígenas, dos sem-terra, entre outros. Só que você pode imaginar como essa união, que não pode ser homogenização e que tem de garantir toda a gama de diversidades de interesses e focos, é complexa e difícil de se atingir. Parece que o que a Esquerda hoje propõe é uma colcha de retalhos de soluções, não um modelo descrito em discursos bem acabados sobre os rumos que o Estado deve dar a sua economia e a seu desenvolvimento social. Entre algumas soluções destacam-se: um projeto que redefina os padrões de produção e consumo, CPI da Dívida Pública, fortalecimento de Universidades Populares e a educação popular como meios de conscientização do processo histórico e a construção, vinda de dentro dos próprios movimentos sociais, de alternativas em prol de mudanças radicais. Isso tudo sempre parecerá utópico, mas cada dia é mais urgente e menos utópico.

Século XXI: O lema do Fórum é “Um Outro Mundo é Possível”. A partir de que pressupostos podemos e devemos acreditar neste lema?

Dra. Conchita Pazo: Sim, o lema dos FSM desde 2001 é “Um outro mundo é possível”. Ao mesmo tempo, o queestamos dizendo é que o modelo econômico hegemônico construído desde o pós II Guerra Mundial não é compatível com a sobrevivência das próximas gerações no planeta. É na disputa de como sairemos desse impasse que se contrapõem os modelos representados por Belém e Davos. Um exemplo de como é difícil a análise dos processos e que se devem evitar avaliações apressadas, assim que a idéia dos biocombustíveis surgiu como uma saída para a crise energética do planeta, ela foi recebida com simpatia, mesmo que com uma dose de desconfiança. Passado muito pouco tempo, os biocombustíveis estão inseridos dentro da lógica do mercado, sendo cotados na Bolsa das commodities e disputando de maneira desigual com a agricultura regional e diversificada, voltada para a soberania alimentar, além de afrouxar princípios que legislam territórios passíveis de plantio. É como se o Sistema estivesse sempre conspirando para encontrar soluções que não atinjam o cerne do capitalismo: o acúmulo de extensos capitais nas mãos de poucos, comprometendoa experiência de uma real democracia. Cria-se um verniz de preocupação social e responsabilidade social das empresas, mas não se mexeno modus operandi das mesmas e suas relações com os Estados e o sistema financeiro (bancos e mercado). Não se discute, portanto, a lógica que impulsiona toda essa engrenagem baseada no consumo e na rápida obsolescência dos produtos. Os FSMpretendem colocar o dedo na ferida, na necessidade de se criar novos modelos de desenvolvimento que não são compatíveis com o modelo globalizado atual. Isto requer cada vez mais o fortalecimento e reunificação dos movimentos sociais em busca de intervenções eficazes e replicáveis de transformação social.

E-mail da Dra Conchita: conchitapazo@oi.com.br

Por: ForumSec21