19/11/2008 Noticia AnteriorPróxima Noticia

É possível uma empresa social?

Por Ricardo Voltolini, da Revista Idéia Socioambiental

O super-executivo Jefrey Immelt e o economista bengalês Muhamad Yunus têm pouco em comum a não ser talvez a firme crença em suas idéias sobre empresas sustentáveis. Há duas semanas, em Nova Yorque, o CEO da General Eletric contagiou uma platéia de 1200 executivos com o seu entusiasmo pelas corporações e negócios verdes. Na semana passada, o presidente do Grameen Bank, prêmio Nobel de 2006, esteve no Brasil onde fez a sua habitual pregação sobre o microcrédito e o conceito de empresa social.

Em visita ao País, para o lançamento do seu livro “Um mundo sem pobreza”, palestras públicas e encontros privados com políticos e empresários, Yunus defendeu, com a serenidade costumeira, uma tese que, para muitos, se apóia em preceitos contraditórios: a de que o mundo precisa de “social business”, isto é, de companhias cuja prioridade não seja lucro e dividendos, mas benefícios sociais para pessoas de baixa renda. Vale reforçar, de partida: ele não está se referindo a uma organização de terceiro setor muito menos ao festejado conceito de negócios na base da pirâmide, cunhado pelo indiano G. K. Prahalad, segundo o qual as empresas podem ajudar mais na erradicação da pobreza se direcionarem seus produtos e serviços para um contingente de quatro bilhões de pessoas de classes C e D, com renda anual de até U$ 1,5 mil.

Yunus tem sido um crítico contumaz do BOP, como ficou conhecido o modelo sugerido por Prahalad. Para o criador do Grameen Bank (banco da aldeia), tratar os pobres como mera oportunidade de negócios só faria manter as desigualdades sociais e a engrenagem de um capitalismo perverso. Empresa social é - segundo ele - uma organização voltada para causas. Nela, os acionistas não estão preocupados com bottom line e admitem a idéia de apenas recuperar o dinheiro investido. Os resultados financeiros - sim, persegui-los é importante! - são integralmente revertidos na melhoria de um produto ou serviço com claro apelo social e também na expansão do seu “mercado” local.

Na Wall Street, pós ou pré-crise do subprime, modelos como este são tratados com ironia e desdém, e gente da estirpe de Yunus, como poetas sonhadores. De lado qualquer licença poética, o fato é que, há quatro anos, Yunus convenceu Franck Riboud, CEO da francesa Danone, a fundar, com o Grameen Bank, a primeira empresa social de Bangladesh, um país com 150 milhões de habitantes e uma renda per capita menor que US$ 4 por dia.

Durante almoço em Paris, Riboud confessou que desejava encontrar formas inovadoras de estender a missão da companhia de contribuir para a saúde de mais pessoas, especialmente das mais carentes. Yunus, por sua vez, viu na fala do executivo uma oportunidade para turbinar sua luta contra a desnutrição no país. Reunida a fome com a vontade de comer, nasceu, seis meses depois, a Grameen Danone Foods - uma pequena fábrica localizada em Bogra, no Norte de Bangladesh, produtora do Shoktidoi, um iogurte fortalecido com vitaminas e sais minerais.

Para financiar uma experiência tão inovadora, a empresa acabou criando, em 2006, um fundo de investimentos chamado Danone Comunities. E hoje já trabalha a implantação de modelo semelhante na Indonésia e na África do Sul. Toda a cadeia produtiva do Shoktidoi observa os princípios da sustentabilidade: mecanismos de ecoeficiência instalados, pouca tecnologia para gerar mais empregos na região, compras feitas de pequenos agricultores locais clientes do Grameen Bank e distribuição por conta de mulheres da rede estabelecida pelo banco.

O desafio de Yunus com a Danone Foods é, a rigor, e guardadas as monumentais diferenças em dólares, o mesmo de Immelt com a sua linha Ecoimagination: a viabilidade econômica. Para muitos de seus produtos verdes, a GE está enfrentando o desafio de abrir mercados novos, com baixa escala e alto custo de desenvolvimento. Como objetiva lucro, no entanto, a companhia aposta que cada vez mais clientes pagarão pela inovação. Alto investimento para alta recompensa financeira.

No caso da empresa social de Bangladesh, recai um desafio de outra ordem: oferecer um bom produto a preço bastante acessível para pessoas de baixíssima renda. Os sócios da Danone Foods prevêem que a fábrica deverá equilibrar entradas e saídas apenas daqui a dois anos, quando puder ocupar toda a sua capacidade produtiva. Alto investimento para alta recompensa social.

Evidentemente, experiências como a de Yunus ainda são vistas como alternativas, até porque confrontam a lógica vigente da rentabilidade de curto prazo. Não há nenhum sinal no horizonte mais próximo de que as empresas venham a aceitar a idéia de substituir a recompensa financeira pelo dividendo social aos seus investimentos. De qualquer modo, é bom para o mundo que as empresas sociais existam e em número cada vez maior, ainda que como símbolos de um ativismo generoso e solidário, expressões da missão institucional de empresas que pretendem deixar o mundo melhor para futuras gerações. Coexistindo com as empresas convencionais elas não nos farão esquecer nunca de que o melhor lucro é aquele que está a serviço do desenvolvimento, do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas. Não custa sonhar que, um dia, Yunus convença Immelt a criar uma empresa social.

* Ricardo Voltolini é publisher da revista Idéia Socioambiental e diretor da consultoria Idéia Sustentável. ricardo@ideiasustentavel.com.br

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(Envolverde/Revista Idéia Socioambiental)

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