09/11/2008 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Bossa Nova: o ritmo e a poesia que conquistam gerações há 50 anos

A palavra bossa apareceu pela primeira vez na década de 1930, em Coisas Nossas, samba do popular cantor Noel Rosa: “O samba, a prontidão/e outras bossas,/são nossas coisas(...)”. Depois de definir, na década seguinte, os sambas de breque, a Bossa resplandeceu realmente como coisa Nova tornando-se um dos ritmos mais identificados com a brasilidade.

Repleta de poesia e com temáticas leves e descompromissadas, a prática do canto-falado ou do cantar baixinho, do texto bem pronunciado, do tom coloquial da narrativa musical, do acompanhamento e canto integrando-se mutuamente em lugar da valorização da “grande voz” assim a Bossa Nova foi conquistando admiradores.

Na opinião de muitos críticos a Bossa Nova iniciou-se em agosto de 1958, em um compacto simples do violonista baiano João Gilberto

(considerado o papa do movimento), contendo as canções “Chega de Saudade” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e “Bim Bom” (do próprio cantor). Com o passar dos anos a Bossa Nova, que no Brasil era inicialmente considerada música de “elite” (cultural), foi tornando-se cada vez mais popular.

A voz da Turma ao ritmo da Bossa

Dar vida nova a temas conhecidos sem abrir mão da qualidade dos grandes compositores, explorando o vasto repertório da bossa foi o que motivou dois jovens músicos Gustavo Rocha e Julio Carvana a formarem a Turma da Bossa em 1999 (foto de baixo). Atualmente, é formada por Gustavo Rocha (piano e voz), Julio Carvana (violão e voz), Juli Mariano (voz), Oswaldo Lafayette (baixo) e Luiz Makarra (bateria). A escolha desse gênero musical foi em decorrência da Bossa Nova ser mais que um estilo musical, ser um estilo de vida. Ela é harmonicamente sofisticada, mas ao mesmo tempo despojada, com um linguajar muitas vezes coloquial, apesar da qualidade de seus letristas. A proximidade com o mar, com a natureza – temas fundamentais e muito presentes em suas canções – também agrega uma “carioquice” ao movimento. Porém, desde o seu começo, a bossa nova se mostrou, muito mais que carioca, uma música universal. Como os cinco integrantes são cariocas e têm em comum o gosto pela bossa nova, acabou sendo uma escolha natural. Harmonicamente, não há o que acrescentar, no entanto, o diferencial da Turma da Bossa são as novas histórias, novas vivências, novos caminhos. Gustavo Rocha acredita que ainda há espaço para a bossa : - “Os shows estão sempre cheios e é difícil encontrar uma pessoa que não goste de bossa nova. Achamos que o problema está na massificação que acontece hoje em dia na mídia. Isso acaba gerando uma desinformação do público, que não tem como acompanhar o trabalho dos artistas ligados à bossa nova. Mas como tudo na vida é cíclico, esperamos que, com as comemorações dos seus 50 anos, a bossa nova retome o gás necessário e merecido no Brasil”.

E se você acredita que os mais jovens não gostam de bossa, prepare-se para se surpreender: a receptividade deles é ótima, os jovens percebem que a bossa pode ser tocada de forma contagiante e moderna, que não precisa necessariamente de um banquinho, um violão e que as letras não precisam ser “o amor, o sorriso e flor”. Em 9 anos de carreira, Gustavo destaca o momento mais marcante - “A temporada de 1 ano que fizemos no Bar do Tom, entre 2000 e 2001, recebendo quase todos os grandes nomes da bossa nova. E também a gravação do nosso segundo disco, ao vivo”, destacou. A Turma da Bossa conta com composições próprias como Âmbar ( Julio Carvana e Gustavo Rocha) e Eu e o samba ( Julio Carvana), as composições tratam dos mais variados assuntos, o amor e o Rio de Janeiro têm certa predominância. A inspiração para compor, de acordo com Gustavo Rocha, é pensar do que um grande compositor pensaria “Quanto a inspiração, sem sombra de dúvida, é Antonio Carlos Jobim. Sempre que termino uma canção, penso no que o Tom acharia dela.”, disse. Riqueza harmônica e rítmica, além de uma poesia singular é o que diferencia a bossa dos outros estilos musicais, cada qual tendo sua importância. Com 9 anos de carreira e 2 CDs lançados, significater a certeza de um trabalho reconhecido “A recompensa de um trabalho bem feito e a certeza de que é disso que gostamos e sabemos fazer. É muito bom poder ter registrado um trabalho no qual você acredita.”

No “A Turma da Bossa Convida”, a sensação de estar junto à artistas consagrados da Bossa foi única, segundo Gustavo Rocha :- “Aprendemos muito com todos les. Me lembro quando tive que mostrar para o Luis Carlos Vinhas um arranjo para ele tocar conosco e ele muito gentilmente elogiou, mas mostrou uma idéia mil vezes melhor. Ter a oportunidade de tocar com todos eles foi muito importante para minha formação como músico e compositor. Quanto a fazer parcerias, a vontade é grande “Ah, são muitas. Chico Buarque, Aldir Blanc, Guinga, Paulo César Pinheiro, Marcos Valle. A lista não tem fim.”, acrescentou. A bossa nova para a Turma da Bossa é “Ficamos com a definição do Ruy Castro, que disse que a bossa nova é a trilha sonora de um país ideal.”

Para quem tem um preconceito com músicas nacionais e não conhece a bossa nova, Gustavo Rocha aconselha : - “O Brasil tem a melhor música do mundo, a mais rítmica, a mais harmônica, a mais misturada. Mas só se gosta do que se conhece. Para quem ainda tem preconceito, eu os convidaria para assistir a um show da Turma da Bossa”.

Composições repletas de poesia e a alma que esbanja talento

Quando se fala em bossa nova, inúmeros nomes vêem a cabeça : Tom Jobim, João Gilberto, Newton Mendonça,Baden Powell,Os Cariocas, Carlos Lira,João Donato, Nara Leão e tantos outros nomes importantes. Mas a primeira música que as pessoas se lembram, é Garota de Ipanema : “ Olha que coisa mais linda/ Mais cheia de graça/ É ela menina/ Que vem e que passa/ Num doce balanço/ A caminho do mar” , uma composição de Vinícius de Moraes e Antonio Carlos Jobim.

Diplomata de carreira, aluno de literatura na Inglaterra, o que Vinícius de Moraes traz para a música popular é a sua maneira diversificada de compor a letra e a música.Em músicaprocura exercitar-se em todos os gêneros e ritmos: aí estão os sambas afro-brasileiros ( ou afro-baianos) compostos com Baden Powell ( “ Canto de Ossanha” e “ Berimbau”); as marchas ranchos como “ Marcha de Quarta-Feira de Cinzas”, com Carlos Lira; as canções recitativos como o “Samba da Bênção” e as canções e sambas compostos com Tom Jobim.

Em Vinícius, uma das contribuições mais notáveis é a recuperação do coloquial carioca reencontrando assim o cotidiano prosaico para a música popular como em “ Garota de Ipanema”.

Em uma entrevista concedida a Clarice Lispector, Vinícius de Moraes diz:

- “Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.

- Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.

Denise Pinaud : A musa da voz doce e encantadora

A relação com a bossa nova começou quando criança e já ouvia na rádio, mas não tinha idéia do que se tratava, apenas de que gostava! Lembra de ter lhe chamado muito a atenção “Viagem”(João de Aquino e Paulo Cesar Pinheiro) e “O que é amar” (Johnny Alf). Muitos anos depois, fazendo Bossa com o parceiro e violonista Mauricio Pinheiro,foi reencontrar estas canções e descobrir que estavam catalogadas no Songbook da Bossa Nova de Almir Chediak . Quanto o assunto é bossa, a intérprete acredita que haja interesse das pessoa mesmo não sendo um estilo musical que mobilize grandes massas, mas a bossa nova vem se renovando e com isso, mais jovens vêm descobrindo e se encantando com ela. Há anos na estrada, Denise Pinaud destaca o momento mais marcante em sua carreira : - Seria injusto determinar apenas um. Desde o começo, do primeiro show em Nova Friburgo à turnê pela Europa em março deste ano, todos foram marcantes. Mas posso dar um brilho especial à minha classificação no Projeto Pixinguinha. A sensação foi de que estava sendo presenteada pela vida com algo grandioso e muito importante. A importância pela representatividade do Projeto já na estrada há décadas, que ajudou a revelar grandes nomes da música brasileira e pelos companheiros de caravana – Francis Hime, Celso Viáfora, Fabiana Cozza e todos os músicos e técnicos que partiram conosco nesta empreitada que foi um sucesso pelo Nordeste!

Em 50 anos de bossa nova as mudanças da música de antigamente para a atual podem ser percebidas nos arranjos que estão se modernizando. Novos elementos estão sendo incorporados e isto aproxima a bossa dos jovens. Denise afirma :“Acho uma graça ver Roberto Menescal fazendo show com Bossacucanova e adorando a transformação que eles fazem com suas composições!”.Denise Pinaud já fez parceria com Durval Ferreira. Bebeto Castilho, Haroldo Jobim, Tito Madi, Johnny Alf, Chico Feitosa, Wanda Sá, Roberto Menescal, Luiz Carlos Miele e gostaria de dividar o palco com Marcos Valle e João Donato. O que será que a bossa nova representa na vida do artista? Para Denise, significa muito “Não exagero quando digo : tudo. Foi o meu encontro com algo muito profundo que nem eu mesma sabia que existia dentro de mim. Coisas de Deus, tenho certeza.”. A simpatia e o talento significativo são perceptíveis na carreira da cantora e muitas vezes artistas envolvidos com música não são devidamente valorizados no Brasil, na opinião de Denise : - Costumo dizer que não basta tertalento.O elemento sorte, muitas vezes é o que mais força tem e o vemos estampado em muitos trabalhos que ganham notoriedade exagerada na grande mídia. Só lamento que seja em detrimento da qualidade e do profissionalismo.

O artista dentro do Brasilnãoprecisa ser incentivado, mas respeitado. Apesar de tantos empecilhos, fazem o que amam e dão o melhorque podem. Muitas vezes o quefalta é um produtor sério ou um cachê digno e justo ou até mesmo local e equipamentos condizentes com a qualidade de próprio trabalho.Na forma de cantar, existe muita paixão e emoção isso reflete a relação de Denise Pinaud com a bossa: - Sempre foi assim, desde 1998 e até me espantava com um amadurecimento interpretativo que eu não havia vivenciado ainda e que encaixava tão bem com o perfil da bossa nova!! 10 anos depois, o que posso lhe dizer é que amo ainda mais a Bossa, que existe muita emoção e paixão mas agora me divirto muito mais com os personagens que invento para interpretar as canções!!Para quem ainda não conhece a bossa nova, Denise aconselha“ Não espere para ouvi-la somente nas rádios! Vá a uma boa loja de discos, procure se informar, ouvir, ler Rui Castro, Nelson Motta e tantos outros grandes escritores e jornalistas que escrevem sobre nossa “ Jovem Senhora” que não se cansa de se renovar e nos encantar!!”, concluiu.

Em 50 anos de bossa nova o movimento precisa ser lembrado sempre e atingir os jovens, que hoje em dia são os que desconhecem o gênero. É preciso que seja despertado na juventude a vontade de ouvir música brasileira de qualidade. O movimento bossa nova, influenciou diversas gerações e artistas e precisa continuar influenciando. Diversos nomes serão inesquecíveis dentro da bossa nova e é preciso que a bossa continue a manter-se viva, para isso é preciso que seja vista com mais carinho e atenção das pessoas. A bossa representa a alma de quem canta e compõe, e Tom Jobim já dizia “Minha obra é toda um canto de amor ao Brasil, minha terra, povo, flora e fauna. À vista da minha janela ou da janela do avião.”

Agnes Lutterbach

Por: ForumSec21