30/07/2008 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Morte de Jamelão fez pensar no Samba, uma das mais belas páginas da cultura popular brasileira

Jamelão, da Mangueira, faleceu aos aos 95anos , no último dia 15 de junho. O cantor é conhecido como o maior intérprete dos enredos da Estação Primeira de Mangueira e considerado comoo maior intérprete do Carnaval carioca de todos os tempos.

Jamelão nasceu no bairro de São Cristóvão e passou a maior parte da juventude no Engenho Novo. Lá, começou a trabalhar, para ajudar no sustento da família.Levado por um amigo músico, conheceu a Estação Primeira de Mangueira e se apaixonou pela escola de samba.

Ganhou o apelido de Jamelão na época em que se apresentava em gafieiras da capital fluminense. Começou ainda jovem, tocando tamborim na bateria da Mangueira e depois se tornou um dos principais intérpretes da escola.

Passou para o cavaquinho e depois conseguiu trabalhos no rádio e em boates. A consagração veio como cantor de samba. Entre seus sucessos, estão “Fechei a Porta” (Sebastião Motta/ Ferreira dos Santos), “Leviana” (Zé Kéti), “Folha Morta” (Ary Barroso), “Não Põe a Mão” (P.S. Mutt/ A. Canegal/ B. Moreira), “Matriz ou Filial” (Lúcio Cardim), “Exaltação à Mangueira” (Enéas Brites/ Aluisio da Costa), “Eu Agora Sou Feliz” (com Mestre Gato), “O Samba É Bom Assim” (Norival Reis/ Helio Nascimento) e “Quem Samba Fica” (com Tião Motorista). De 1949 até 2006, Jamelão foi intérprete de samba-enredo na Mangueira. Em janeiro de 2001, recebeu a medalha da Ordem do Mérito Cultural, entregue pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.

As origens do Samba

“ Seu garçom faça o favor de me trazer depressa, uma boa média que não seja requentada”. Assim inicia-se um dos grandes sambas do compositor brasileiro Noel Rosa. O samba tem origem afro-baiana, e foi acrescido de misturas cariocas. Nasceu da influência de ritmos africanos, adaptados para a realidade dos escravos brasileiros. Descendente do lundu (canto e dança populares no Brasil do século XVIII), começou como dança de roda originada em Angola e trazida pelos escravos, principalmente para a região da Bahia.

O samba chega ao Rio de Janeiro logo após a abolição da escravatura, quando os negros deslocaram-se em direção a capital do país. Ele nasceu nas casas das “tias” baianas da Praça Onze, no centro do Rio (com extensão à chamada “pequena África”, da Pedra do Sal à Cidade Nova). Os primeiros compositores e divulgadores do samba, foram negros que vieram da Bahia nas primeiras décadas do século XIX, instalando-se nos bairros da Saúde e Gamboa.

Engana-se quem pensa que o primeiro samba composto foi “Pelo Telefone” de Donga e Mauro de Almeida, em 1917. Existem referências ao samba na imprensa de Recife desde 1837, e gravações comprovadas desde 1913, tanto no Rio quanto em Porto Alegre, pelo menos. O valor histórico de “Pelo Telefone” é de ter sido o primeiro samba a fazer sucesso no carnaval.

A riqueza cultural do Samba

Durante o ano inteiro, muita gente participa das produções ligadas ao “mundo do samba”. Mas o sambista compositor é que se projeta, tem a visibilidade e é símbolo deste mundo e referência cultural de significativo setor da população carioca.E onde está a cultura do samba e sua riqueza? Há uma construção de redes de significados, costumes, solidariedade, afirmação de valores, afirmação de um grupo social, de resistência cultural, política e étnica, ao mesmo tempo em que há um processo de trocas. As ambigüidades apresentadas neste processo acabam por revelar sua riqueza e complexidade. A cultura do samba é formada na tensão entre o social, o econômico, o político e a herança cultural, ressaltando a religião e suas práticas culturais diferenciadas. O samba vai muito além, não pode ser considerado somente um gênero musical, mas um envolvimentode integração social.

Em Nova Friburgo, existem muitas Escolas de Samba e muitos cidadãos fortemente ligados ao samba. Um deles é o administrador de empresas, Ruben Venezia, mais conhecido como Veneza, carioca da gema, que começou a compor samba há 40 anos, ainda garoto. O primeiro foi um samba de carnaval, bem diferente do samba enredo, que ele compõe atualmente. Atualmente Veneza é compositor da Vilage. Mas já foi da Unidos da Saudade, Globo de Ouro, Simbalar que se Dane, Imperatriz de Olaria, dentre outras.Foi Integrante da Ala dos Compositores da Imperatriz Leopoldinense desde 1997. Também é compositor do Hino do Friburguense Atlético Clube.

Fazer samba é uma terapia, na opinião de Veneza“ Como trabalho sempre com números, o samba é uma forma de diversificar minhas atividades, acaba sendo minha terapia”. As letras dos sambas estão quase sempre associadas as questões de cunho social. Todo compositor sonha em ter o próprio samba cantado por alguém consagrado e com Veneza é assim também “ - Gostaria muito de ter uma composição minha cantada pelo Jamelão da Mangueira, mas infelizmente ele não está cantando mais, por motivos de saúde”(Esta matéria foi feita dias antes da morte de Jamelão). Compor sambas é ter fascínio pelas questões populares e há toda uma metodologia para desenvolver essa arte

“ - Geralmente faço a letra junto com um parceiro que faz a música. Escrevo a letra e meu parceiro coloca a melodia em cima”, acrescentou.

Diversos são os temas que inspiram um compositor. A observação do cotidiano e as coisas que acontecem, podem virar samba. Já o samba enredo, tem outra conotação, ele é composto em cima de uma sinopse feita pelo carnavalesco das escolas de samba. Por se tratar de uma cultura de raízes brasileiras que sofreu influências africanas e européias, as pessoas deveriam valorizar ainda mais o ritmo, por ser uma identidade do brasileiro; “ Na minha vida o samba é tudo”, Veneza afirmou sorrindo. A riqueza cultural está associada aos anseios do povo brasileiro, em querer buscar cada vez mais uma alegria de viver. O maior sambista de todos os tempos, segundo o compositor, foi Noel Rosa “ - Noel é magnífico, mas não posso deixar de citar Cartola, Silas de Oliveira e Beto sem Braço. Inspiro-me neles para compor”.

O Rio de Janeiro vive uma fase onde em diversos bairros da cidade o samba está presente, principalmente na Lapa, que é atualmente o sinônimo do gênero musical. Nas comunidades carentes, o samba desempenha um papel importante “- As Escolas de Samba desenvolvem atividades sociais, uma inclusão social de fato. Muitos talentos são descobertos assim”, destacou. “ Minha relação com o samba é diária, o ano todo, o tempo todo, é uma relação de amor”, concluiu Veneza emocionado.

Perde-se um médico e ganha-se um sambista

“Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?” certamente você já ouviu esse samba alguma vez e perguntou-se quem foi o autor de uma composição simples, mas totalmente envolvente e ritmada. Trata-se do poeta de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, Noel Rosa que compôs o primeiro samba “ Com que Roupa” em 1931, quando sua mãe dona Marta, escondeu todas as roupas para que o sambista não fosse à uma festa em um sábado. Quando os amigos chegaram para apanhá-lo para a festa, Noel gritou de seu quarto “ Com que roupa” -foi a inspiração para o primeiro grande sucesso, gravado para o carnaval e que vendeu 15.000 discos.Depois de transformar-se no grande sucesso do carnaval do ano de 1931, Noel Rosa teve que fazer uma grande escolha: a faculdade de Medicina, onde estava cursando o primeiro ano ou o Samba, a escolha é claro, todo mundo conhece. As suas composições falavam de seu bairro, seus amores, seus desafetos, suas piadas. Músicas como : Feitiço da Vila ,Feitio de oração ,Fita amarela, Gago apaixonado, Maria fumaça, Minha viola, Meu barracão, Mulher indigesta, Não tem tradução, Palpite Infeliz, Pierrô Apaixonado,Quando o samba acabou, Rapaz Folgado, Três Apitos, Você Só...mente e tantos outros belíssimos trabalhos, consagraram Noel Rosa como o maior sambista de sua época e um grande nome até os dias de hoje.

Noel era tímido e recatado, tinha vergonha da marca que trazia no rosto, evitava comer em público por causa do defeito e só relaxava bebendo ou compondo. Sem dinheiro, vivia às custas de poucos trocados que recebia de suas composições e do auxílio de sua mãe. Mas tudo que ganhava era gasto com a boemia, com as mulheres e com a bebida. Isso acelerou um processo crônico pulmonar que acabou em tuberculose, que foi a causa de sua morte, em maio de 1937, aos 26 anos.

A alma conduz os passos na dança e também no Samba

A estudante universitária Ana Cândida Scheer é uma apaixonada pela dança de salão e diz que o samba não foi sua primeira opção, por achar inicialmente que o ritmo era muito difícil e por isso não despertava interesse “No momento que tive contato com cavalheiros que exprimiam paixão pelo samba e dançavam com vontade, comecei a ver que o samba não era nenhum bicho de sete cabeças, hoje danço sem medo e gosto de verdade”. Quem observa a estudante dançar, percebe que ela se entrega de corpo e alma, independente do ritmo, mas o samba tem um gostinho especial na opinião de Ana “ Samba é o melhor ritmo, é muito animado, contagiante, chega a ser um desafio, porque não é fácil. Além de ter uma beleza toda especial”. O sentimento que envolve os amantes da dança é a paixão, é possível esquecer do mundo enquanto se dança “No momento em que estamos dançando é impossível pensar em outras coisas. Eu digo que a dança é o elixir da juventude e tem um grande poder de nos deixar feliz”,finalizou.

“ Jaime Arôxa foi jurado de um concurso que eu estava participando, me viu dançar e me convidou para dançar com ele”, assim começa a trajetória de sucesso do professor de dança de salão Edu Cigano. A primeira paixão foi o samba de gafieira ( esse nome surgiu de uma gafe cometida por um europeu, que foi proibido de entrar em uma casa de samba devido aos trajes que usava [ tênis, meia e bermuda] e deveria estar trajado socialmente, o terno, que é a roupa usada para dançar), o que conquistou Edu foi a riqueza dos ritmos, o batuque, as diversas formas de se dançar o samba. Samba no pé, samba canção, pagode, samba enredo e samba de gafieira são os mais procurados na Companhia de dança do professor. O samba canção é mais procurado por quem quer aproveitar o envolvimento da dança “ Esse ritmo dança-se mais lento, é procurado pelas pessoas que dançam há mais tempo, curtem mais, aproveitam a melodia, são os verdadeiros amantes do samba”, enfatizou. Já o samba de gafieira é marcado pelo estilo e as semelhanças com o tango “ São movimentos rápidos, precisos e desenhados, os movimentos no salão : ganchos, peão, giros, puladinho são característicos desse samba”, acrescentou. O samba continua com a mesma força, crescendo cada vez mais e abre oportunidades para que as pessoas levem-no ao exterior “ Já fui dar cursos de samba em Portugal, Itália, França, Bélgica, Suíça, Alemanha, Argentina e Bariloche. E esse ano ainda quero levar o samba a Cuba, Porto Rico e Miami”,respondeu Edu sorrindo.

A essência do samba está espalhada por toda a cidade do Rio de Janeiro, principalmente na Portela, Madureira, Mangueira, Cidade do Samba e Lapa, onde se concentram muitos sambistas.Dentro do ritmo, existem várias formas de se dançar, cada qual com sua beleza “ Tudo que tenha cavaquinho, tan tan, repique de mão, violão de 7 cordão, é samba, pois são instrumentos característicos do ritmo”. Edu explica as diferenças do samba dançado antigamente para o que se dança hoje : - Antigamente o samba era dançado nas laterais, formando um quadrado e hoje se dança de frente. No samba enlaçado, o cavalheiro abraçava sua dama para dançar juntinho. Hoje isso mudou, o samba enlaçado tornou-se o samba de gafieira.Para dançar samba, é preciso gostar e sentir as batidas e a emoção que ele proporciona. “ O hip hop, o rock, o pagode, o balé e o swing são os ritmos que deram origem ao samba moderno, que é muito preciso e rápido”, destacou o professor.

A Lapa tem um encanto próprio e atrai muitos admiradores “ A diversidade do samba, juntamente com a tradição e a beleza, fascinam quem freqüenta. È uma coisa que não tem explicação, só indo lá pra saber e sentir, é pura emoção”, disse. Quando perguntado sobre o que é o samba, Edu Cigano emociona-se e responde com um brilho no olhar “ É onde tudo começou, aquela paixão, o samba é a raiz e eu estar ali dançando. É me sentir nas origens do samba, sentir os batuques. São todas as emoções que eu sinto quando danço e falo de samba”.

O samba tem todo um misto de emoções, culturas e beleza. É muito mais do que um ritmo ou um gênero musical. É a alma de quem convive com ele, que dá a vida para que o samba seja reconhecido.Já dizia Haroldo Costa “ A escola de samba com seu enredo, o formato do espetáculo, é a síntese de todos os signos da vida cultural brasileira. Ela consegue se manter porque se transforma”.O samba nunca é o mesmo, a cada dia se renova.

Agnes Lutterbach

Por: ForumSec21