30/10/2008 Noticia AnteriorPróxima Noticia

'Comam menos carne', diz principal cientista da ONU

As pessoas deveriam considerar comer menos carne como uma forma de combater o aquecimento global, segundo o principal cientista climático da Organização das Nações Unidas (ONU).

Rajendra Pachauri, que preside o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), fará a sugestão em um discurso em Londres na noite desta segunda-feira.

Números da ONU sugerem que a produção de carne lança mais gases do efeito estufa na atmosfera do que o setor do transporte.

Mas um porta-voz da União Nacional dos Fazendeiros da Grã-Bretanha disse que as emissões de metano de fazendas estão caindo.

Pachauri acaba de ser apontado para um segundo termo de seis anos como presidente do IPCC, o órgão que reúne e avalia os dados sobre clima dos governos mundiais, e que já conquistou um prêmio Nobel.

"A Organização da ONU para Agricultura e Alimentos (FAO) estima que as emissões diretas da produção de carne correspondem a 18% do total mundial de emissões de gases do efeito estufa", disse à BBC.

"Então eu quero destacar o fato de que entre as opções para reduzir as mudanças climáticas, mudar a dieta é algo que deveria ser considerado." Clima de persuasão O número da FAO de 18% inclui gases do efeito estufa liberados em todas as etapas do ciclo de produção da carne - abertura de pastos em florestas, fabricação e transporte de fertilizantes, queima de combustíveis fósseis em veículos de fazendas e as emissões físicas de gado e rebanho.

As contribuições dos principais gases do efeito estufa - dióxido de carbono, metano e óxido nítrico - são praticamente equivalentes, segundo a FAO.

O transporte, em contraste, responde por apenas 13% da pegada de gases da humanidade, segundo o IPCC.

Pechauri irá falar em um encontro organizado pela organização Compassion in World Farming, CIWF (Compaixão nas Fazendas Mundiais, em tradução-livre), cuja principal razão para sugerir que as pessoas reduzam seu consumo de carne é para reduzir o número de animais em indústrias pecuárias.

A embaixadora da CIWF, Joyce D'Silva, disse que pensar nas mudanças climáticas poderia motivar as pessoas a mudarem seus hábitos.

"O ângulo das mudanças climáticas pode ser bastante persuasivo", disse.

"Pesquisas mostram que as pessoas estão ansiosas sobre suas pegadas de carbono e reduzindo as jornadas de carro, por exemplo; mas elas talvez não percebam que mudar o que está em seu prato pode ter um efeito ainda maior." Benefícios Há várias possibilidades de redução dos gases de efeito estufa associados aos animais em fazendas.

Elas vão de ângulos científicos, como as variedades de gado geneticamente criadas para produzir menos metano em flatulências, até reduzir a quantidade de transporte envolvido, comendo animais criados localmente.

"A União Nacional dos Fazendeiros da Grã-Bretanha está comprometida em assegurar que a agropecuária seja parte da solução às mudanças climáticas, e não parte do problema", disse à BBC uma porta-voz do órgão.

"Nós apoiamos fortemente as pesquisas com o objetivo de reduzir as emissões de metano dos animais de fazendas, por exemplo, mudando suas dietas e usando a digestão anaeróbica." As emissões de metano de fazendas britânicas caíram 13% desde 1990.

Mas a maior fonte mundial de dióxido de carbono vindo da produção de carne é o desmatamento, principalmente de florestas tropicais, que deve continuar enquanto a demanda por carne crescer.

D'Silva acredita que os governos negociando um sucessor ao Protocolo de Kyoto deveriam levar esses fatores em conta.

"Eu gostaria de ver governos colocarem metas para a redução de produção e consumo de carne", disse.

"Isso é algo que deveria provavelmente acontecer em nível global como parte de um tratado negociado para mudanças climáticas, e seria feito de forma justa, para que as pessoas que têm pouca carne no momento, como na África sub-saariana, possam comer mais, e nós no oeste comeríamos menos." Pachauri, no entanto, vê a questão mais como uma escolha pessoal.

"Eu não sou a favor de ordenar coisas como essa, mas se houver um preço (global) sobre o carbono, talvez o preço da carne suba e as pessoas comam menos", disse.

"Mas, se formos sinceros, menos carne também é bom para a saúde, e ao mesmo tempo reduziria as emissões de gases do efeito estufa."

Comer menos carne ajuda a frear aquecimento global, diz estudo

da France Presse, em Paris

A redução do consumo diário de carne nos países desenvolvidos até 2050 ajudaria a limitar o aquecimento global, afirma um estudo publicado nesta quinta-feira pela revista britânica "The Lancet".

A pesquisa foi dirigida por Anthony McMichael, do Centro Nacional de Epidemiologia e de Saúde das Populações de Canberra (Austrália). "Considerando que a população mundial aumentará cerca de 40% até 2050 e, se não houver nenhuma redução das emissões dos gases que provocam o efeito estufa ligados ao gado, o consumo de carne deverá baixar para 90 g ao dia por pessoa para estabilizar as emissões de tal setor", defenderam os pesquisadores.

Também seria necessário limitar a 50 g por dia o consumo de carne vermelha procedente de ruminantes, que emitem metano, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa. O consumo médio de carne está em 100 g por pessoa ao dia no mundo, com diferenças consideráveis entre os países desenvolvidos --de 200 a 250g-- e os países pobres --20 a 25g.

Das emissões mundiais de gases que provocam o efeito estufa, insistiu a equipe, 22% são oriundas da agricultura, uma proporção similar à do setor industrial, mas superior à dos transportes.

O gado, especialmente em seu transporte e em sua alimentação, afirma o estudo, é o responsável por quase 80% das emissões agrícolas, principalmente em forma de metano.

"Uma redução substancial do consumo de carne nos países ricos seria também benéfica para a saúde, principalmente porque se reduzem os riscos de doenças cardiovasculares [...], obesidade, câncer colo-retal e talvez outros tipos de câncer", avaliaram os especialistas.

Pecuária é a maior ameaça à Amazônia

Jornal do Senado

Criação de gado na região preocupa senadores e governo, que buscam formas de melhorar fiscalização

Apecuária extensiva, em que o gado é criado solto em grandes áreas de pastagem, é responsável por 70% da degradação progressiva da Amazônia, conforme estimativas do Ibama. Em 2008, o desmatamento na região pode atingir mais 14 mil quilômetros quadrados.

Nos últimos três anos, a média anual de áreas desmatadas passou de 27 mil km² para 11 mil km², mas a alta dos preços das commodities este ano, que tem batido recordes, estimulou um novo avanço da fronteira agrícola na região.

A situação preocupa governo e parlamentares, que estão apostando em programas, fiscalização e mudança da legislação (veja nesta página) para alterar essa realidade.

A ação consorciada de fazendeiros e madeireiros representa hoje a principal ameaça à Floresta Amazônica, segundo o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Flávio Montiel da Rocha.

– Pela natureza extensiva, sem preocupação com a qualidade do pasto, a pecuária acaba sendo a conclusão final do processo de degradação para grandes áreas que inicialmente são limpas pelos madeireiros. Depois, é realizada a queimada e jogada a semente para a formação do pasto – explica o diretor do Ibama.

Além disso, a pecuária também acaba sendo usada para burlar a titulação de terras públicas, em uma tentativa de demonstrar que há atividade econômica em áreas que, na realidade, foram griladas.

De toda a região amazônica, 24% das terras são indígenas, 13% são unidades de conservação federal e estaduais e o restante são terras particulares e públicas, das quais algumas ainda sem destinação e outras voltadas para ações como assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Resolução vigora com novo Plano Agrícola

Nesta terça-feira, quando será lançado o Plano Agrícola 2008/2009, entra em vigor a Resolução 3.545/08 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que impede empréstimos na modalidade de crédito rural para a Amazônia, seja por bancos públicos ou privados, para quem não apresentar certificado de cadastramento de imóvel rural e comprovação de respeito à legislação ambiental.

– Essa resolução trará maior controle dos recursos aplicados, com regras rígidas para quem não respeitar a legislação ambiental ou para quem estiver em débito com o Ibama – afirma Rocha.

Uma semana antes de reassumir seu mandato no Senado, no início deste mês, Marina Silva (PT-AC), que esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente por cinco anos, defendeu a resolução.

O Plano Agrícola também irá contemplar o Programa de Produção Sustentável do Agronegócio com uma linha específica de crédito que visa recuperar áreas degradadas, seja na pecuária ou na agricultura, para diminuir a pressão sobre a Amazônia, explica João Antônio Salomão, coordenador-geral para Pecuária e Culturas Permanentes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Por: BBC Brasil.com/France Presse/Jornal do Senado