21/05/2008 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Lumiar: natureza exuberante, cultura e história próprias

Maurício Sianes*

A natureza de Lumiar encantatodos os viajantes: a vegetação, o barulho das águas que estão portoda parte, os pássaros. Há quem se pergunte sobre o porquê desse encantamento e encontre explicação no efeito meio mágico das muitas águas limpas e transparentes que se mostram em diversos locais da região.Há, porém, outro motivo para se conhecer a localidade, suas peculiaridades culturais. O turista que chega em um sábado e vai embora no dia seguinte, normalmente, não tem tempo de tomar conhecimento da originalidade do modo de viver das pessoas da terra, com seus costumes e lendas muito próprios.

Manoel Antônio Spitz, professor e pesquisador da história regional, diz queo nome do lugar se deve ao nobre francês Felipe de Roure, que veio para o Brasil em 1808, na mesma leva que trouxe o príncipe regente, que se transformaria no rei Dom João VI. Felipe fugiu da França em 1791, na época do Terror, período da Revolução Francesa em que a guilhotina cortava cabeças diariamente. Abrigou-se junto à monarquia portuguesa e lá conheceu Micaela D’Abreu, conhecida como “A Dama do Lumiar”, por ser proprietária de um castelo na Freguesia de São João Batista de Lumiar, na época localizada nos arredores de Lisboa, hoje, importante bairro da capital portuguesa. Casou-se com ela.

Felipe e Micaela vieram para o Brasil em 1808, junto com outros nobres portugueses que fugiam de Napoleão Bonaparte e se estabeleceram na confluencia dos rios Macaé e Boa Esperança. Felipe deu o nome de Lumiar à localidade em homenagem à terra natal de sua esposa. Em 1889, foi criado o Segundo Distrito de Nova Friburgo, Distrito de Lumiar.

Mais tarde, vieram os suíços, que, não encontrando boas terras na área inicialmente destinada a eles, o centro da atual Nova Friburgo, foram procurá-las em outros lugares, entre eles, a região de Lumiar. Foram seguidos pelos alemães e depois, em menor escala, por italianos e libaneses. No início do século 19 esse povo já estava na região.

Em determinado momento, a lavoura de café dominou a região, mas nas primeiras décadas do século 20 já estava decadente. Houve exploração de trabalho escravo, igual ao resto do estado do Rio. Como há poucos negros na região, é de se supor que os ex-escravos e seus descendentes tenham emigrado, talvez como sobrevivência de certa indisposição entre negros e descendentes de suíços e alemães. Há lendas contadas pelo povo local que dão conta da existência de dois antigos “feiticeiros”, provavelmente pessoas com conhecimentos de métodos de cura para males que afetassem a gente do lugar. Esses dois “feiticeiros”eram João Janot, branco, considerado “feiticeiro do bem”, e André Avelino, negro, tido como “feiticeiro do mal”.

Isolamento, hábitos e histórias

Como se tratava de uma região muito isolada fisicamente, é provável que uma agricultura de subsistência convivesse com o café, mesmo em seu momentos de maior prosperida-de. Inhame, aipim, milho e feijão, certamente estavam presentes desde o início e, com o fim do café, tornaram-se os principais plantios.

Um produto tradicional da região, a broa que hoje é vendida apenas nas festas juninas da Vila Mozer, uma espécie de pequeno bairro de Lumiar, dá idéia do isolamento do lugar: não é feita com farinha de trigo, que a região não produzia, mas com fubá, misturado com diversos legumes moídos, como cará, chuchu, batata doce, batata inglesa, cenoura, inhame, taioba (esta se houver, em muito pequena quantidade). O cozimento da broa é em um forno de lenha, de forma arredondada, que é aquecido e depois a lenha retirada, sendo o calor mantido, e então colocada a massa para cozinhar. Até hoje, essa broa é uma atração da Vila Mozer e seu custo não permite sua comercialização em maior escala. Ou seja, a broa é um símbolo de uma história antiga, consumida apenas em ocasiões especiais, quase como ritual.

Não seria absurdo dizer que esse povo viveu na região quase da mesma maneira por mais de 150 anos. E o resultado é um conjuntode histórias e tradições, que estãovivas até hoje, da mesma maneira que a broa da Vila Mozer. Em outras palavras, pode-se dizer que em Lumiar vive uma população tradicional.

Adeniro Klein, de 80 anos é um homem que todos conhecem em Lumiar. Ele conta que, em certa ocasião, na década de 50,conduzia uma tropa de burros com destino aMury. A carga ele não sabe precisar, mas acredita que fosse inhame, milho e feijão. Ir de Lumiar a Friburgo daquela maneira era empreitada para dois dias. Durante aquela viagem, houve um momento, à medida em que se aproximavam de um córrego, que um assobio vinha da mata cada vez mais forte, deixando os animais nervosos. Ele acha que era Saci Pererê. Quando chegaram ao riacho, os animaisse recusaram a continuar a jornada. Adeniro Klein explica o fenômeno dizendo que os humanos não vêem a criatura fantástica, mas os burros e os cavalos, sim. Ele conta essa história, faz uma pausa e diz: “estas são histórias do princípio do mundo”.

Maria Lúcia Brust, ex-diretora da escola municipal de Lumiar, coordenou o trabalho de diversas pessoas, entre elas alunos das escolas, de colher e reunir algumas das lendas contadas pelo povo e organizar um mural, com texto e ilustrações de algumas delas, que se encontra hoje na sede daAção Rural de São Sebastião de Lumiar. Além do Saci Pererê, estão lá o lobisomem, o cavaleiro da meia-noite, a mãe d’água e a mãe do ouro, que são vistos de vez em quando.

A Pedra Riscada, onde hoje se fazempasseios e escaladas, é lugarcheio de lendas. Ali poderia ter sido escondido o tesouro de Mão de Luva, figura real e lendária, contrabandista de ouro e fundador de Cantagalo.

Não tem importância se essas lendas se referem a fatos reais ou não, se esses personagens extraordinários existem ou existiram mesmo, ou não. O que importa é que tudo isto está vivo na imaginação popular na tentativa de explicar as coisas da vida. Assim, existindo ou não lobisomens e sacis, ou tesouros misteriosos, tudo é verdadeiro porque está na alma das pessoas.

Nesta perspectiva é curioso notar que um ser profundamente brasileiro, uma mistura de histórias indígenas e africanas, o Saci Pererê, esteja vivo em uma cultura formada por gente de origem suíça e alemã. Dá para pensar...

Os tempos mudam

A chegada da modernidade, com as antenas parabólicas, a TV a cabo e a internet pode estar contribuindo para o esquecimento das histórias tradicionalmente contadas pelo povo. Adaptar-se a esses novos tempos tem sido grande desafio para a gente local, que se vê obrigada a abandonar a agricultura como atividade principal e a buscar outros meios de viver, em sintonias com a nova época.

Os anos 80 marcam as mudanças em Lumiar: em 82, chegou o asfalto e em 84, a luz elétrica. O telefone é mais recente, tem menos de 10 anos.

Ao mesmo tempo, criou-se nova atividade econômica: o turismo. Lumiar e São Pedro da Serra têm hoje 48 pousadas, com diárias variando entre 60 e 300 reais, as mais caras com atrações na própria pousada, mas todas oferecendo conforto e limpeza, além da possibildade de se estar perto de tanta beleza natural e tantas histórias. Informações mais detalhadas podem ser encontradas no site do circuito turístico de Lumiar e São Pedro da Serra,www.lumiaresaopedrodaserra.com.br.

(*) jornalista

mauriciosiaines@gmail.com

Por: ForumSec21