11/04/2008 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Bulimia & Anorexia: Quando o espelho mente sobre como o corpo está...

Agnes Lutterbach

Os transtornos alimentares são fenômenos cada vez mais presentes na vida de nossas meninas. De causas variadas, devem ser observados pelos pais, que devem encaminha-las o quanto antes para especialistas, que poderão ajuda-las a ter uma alto imagem mais positiva e saudável. Neste sentido, o ponto principal é a auto aceitação. No geral, a nossa sociedade, com seus padrões de beleza, tem pressionado muito as mulheres a terem um biotipo definido, induzindo-as a acreditar que a felicidade e a aceitação está associada a este fato. A Bulimia (comer demais e provocar vômito) e a Anorexia (comer de menos ou não comer) tem tratamento.

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A jovem D.S. de 22 anos começou com bulimia aos 12 anos, fez uso de antidepressivos até os 15 anos e aos 17 já não queria mais comer. Chegou ao Índice de Massa Corpórea (IMC) 13, já tomou Sibutramina, Anfetamina, Xenical, Glifage (hipoglicemiante oral), Laxantes e Diuréticos. Hoje, com anorexia e um IMC 15, conta que faria tudo para ser magra “ Dietas já fiz todas, já fiquei uma semana só comendo abacaxi e só parei porque fui parar no hospital vomitando sangue. Até acetona já tomei”, relatou.

A mudança toda começou quando ainda muito jovem; alguém a chamou de gorda: - “ Quando eu tinha 16 anos, me magoaram muito e foi como se tivesse ligado um botão no meu cérebro, eu pesava 56kg, a partir desse dia resolvi mudar e mudei não só o meu corpo, como minha maneira de ser. Mudei por mim e não me arrependo.”

D.S nunca sofreu preconceito por ter anorexia, mas muitas pessoas passam sermões, colocam apelidos. Para driblar a fome, D.S sempre consegue um jeito

- “Prefiro que me chamem de manequim de cemitério do que gorda. Quando tenho fome, fumo um cigarro, tomo um calmante e vou dormir, assim a fome passa.” D.S espera continuar com 40kg no máximo.

São fenômenos assim que acontecem com meninas do mundo inteiro; Num período de seis meses, seis meninas morreram por complicações da anorexia e bulimia. Achamos isto absurdo? Está se tornando mais “normal” do que se possa imaginar. Pessoas que buscam uma magreza extrema a qualquer preço, não preocupam-se com a própria saúde, ignoram a verdadeira imagem, acreditam que existe gordura onde não tem.

A anorexia e a bulimia são doenças de origem psicológica que necessitam de intervenção psiquiátrica, exigem tratamento, geram desnutrição, problemas cardíacos e podem levar a morte. Acometem em 95% dos casos mulheres, entre 14 e 24 anos, que só acreditam que serão felizes magras.

A busca por um padrão de beleza imposto pela mídia tem acabado com a vida de meninas que mal começaram a viver, uma estereotipia que se não for seguida, fará com que não seja aceita no mundo e para isso, é preciso ser magra; é nisso que elas acreditam.

Mesmo abaixo do peso, se vêem gordas

“ Prefiro morrer a ser gorda”. Essa é a frase muitas vezes dita por meninas que sofrem de anorexia. Apresentam peso abaixo do normal e se recusam a alimentar-se adequadamente mesmo sabendo do risco que correm. Dedican-se a atividades físicas exageradas, jejuam, vomitam, usam recursos purgativos e moderadores de apetite porque têm uma distorção grave da auto-imagem. Uma moça esquálida, pesando 20kg, é capaz de sentir-se obesa e dizer: - “Olha como meu quadril está enorme! Eu estou um elefante, preciso continuar emagrecendo!”

Bulimia

Na bulimia, os sintomas são diferentes. Não é a magreza que chama a atenção. Às vezes, são mulheres de corpo escultural que cuidam dele de maneira obsessiva. Passam o dia fazendo dieta. No entanto, de uma hora para outra abrem a geladeira ou vão a uma confeitaria e comem tudo o que vêem pela frente. Apesar da alimentação normal do indivíduo variar entre 2000Kcal e 2500 Kcal diárias, elas conseguem comer num único episódio de 5000Kcal a 20000Kcal. Depois, movidas por culpa, vomitam muito. Algumas chegam a vomitar 10, 15 vezes por dia para evitar o aumento de peso e chegam a ferir os dedos.

O emagrecimento é conseguido com uma redução drástica da alimentação, exercícios físicos excessivos, utilização ( sem critério ou orientação médica ) de medicamentos que inibem o apetite, laxantes, diuréticos e também pela provocação de vômitos. Quando atinge um nível de peso, geralmente abaixo do ideal, a pessoa não consegue se ver magra e também não consegue comer mesmo que em quantidades reduzidas. Há uma intolerância do organismo em não aceitar alimentos e uma imagem corporal distorcida da realidade pelo psíquico. Um IMC considerado normal vai de 18,5 - 24,9, nesse valor a pessoa é considerada em um peso saudável.

A rotina de quem sofre com Transtornos Alimentares

Na busca pelo corpo perfeito, as meninas que sofrem com Anorexia e Bulimia não medem esforços para chegar ao objetivo que almejam : são capazes de beber detergente,vinagre, shampoo para provocar o vômito, muitas tentam beber só água para não engordar. Chegam a ingerir algodão para manter o estômago cheio e ter a sensação de saciedade além de se auto-mutilarem como forma de punição por algo errado que fizeram.

Algumas Anas e Mias, apelidos criados por meninas que tem Anorexia e Bulimia, seguem um esquema perigoso de alimentação. NF é a sigla para no food ou não à comida, é utilizado em muitos espaços para indicar a rejeição restritiva de qualquer alimento. O termo se refere à adesão a estratégias de jejum que duram em média uma semana. Nas comunidades pró-ana e mia os jovens utilizam o termo para organizar-se em competições de jejuns ou jejuns comunitários que exaltam o autocontrole e força de vontade das adeptas. Já LF é a sigla para low food ou pouca comida, é utilizado para indicar a prática do consumo diário de pouquíssimas calorias, muitas vezes apenas em quantidades suficientes para não levar à morte.

A punição física dói menos que a punição mental, defendem algumas anoréxicas e bulímicas ao serem perguntadas sobre o que acontece quando comem algo a mais ou não seguem a risca determinada dieta. A auto-mutilação é uma forma de se castigarem, ou quando sentem vontade de comer, se cortam para não engordar. É uma tentativa de aplacar uma ansiedade fora do normal, o desespero é tão grande que a pessoa precisa de uma atitude drástica para dar um fim a ele.

Renata Steffens, de 19 anos, é técnica em nutrição e dietética e universitária do curso de nutrição, desenvolve desde agosto do ano passado um trabalho voluntário na internet com meninas que sofrem com a anorexia e bulimia. - “ Quando eu comecei o “trabalho de conscientização” com as anoréxicas e bulímicas, eu estava atrás de informações sobre transtornos alimentares, acabei descobrindo esse mundo virtual onde elas conversam, me senti na obrigação de usar meus conhecimentos em benefício de quem precisa”. Muitas vezes quem sofre com essas doenças só divide o sofrimento com amigos virtuais, já que em grande parte dos casos a família não sabe da doença. “ Só que elas se apóiam no sentido de passarem dietas umas para as outras, de serem pró-ana ou pró- mia, achei isso muito triste. Por isso resolvi fazer o contrário, criei um perfil no Orkut para incentivar a saúde”, acrescentou a estudante.

Com 376 amigos no Orkut, é possível encontrar diversos relatos de meninas que sofrem com a anorexia e bulimia na página de recados de Renata, muitas pedem ajuda, conselhos e falam o que acontece no dia-a-dia, é possível perceber que elas precisam dividir o problema e que sentem muito medo. A mídia é a grande responsável por isso, mas não é a única: - “ Muitas meninas querem ser modelos e têm que cumprir um padrão de beleza.Outras são chamadas de gordas e ficam paranóicas querendo emagrecer. E ainda existem as que têm mãe rígida e que controlam demais a alimentação até que criam um problema para a filha”,enfatizou.

Padrão imposto pela mídia: meninas como produtos?

Quando liga-se a TV e observa-se alguma propaganda de moda ou beleza, é sempre uma mulher magra que aparece. Uma imagem estereotipada como se só quem é magro consegue o sucesso e a realização profissional, é a idéia que a mídia passa para as meninas que estão entrando na adolescência onde começam a surgir os transtornos alimentares, para estar dentro de um padrão de beleza.

Meninas produzidas em série, como se fossem objetos em uma linha de produção: se não conseguirem manter-se abaixo dos 45kg, serão objetos descartados, como tendo algum defeito; essa é a idéia que parece ser passada, a imagem sendo o centro das atenções, uma troca de valores, onde não importa mais o que se é interiormente e sim fisicamente. Implantes de silicone, botox, lipoaspiração e tantas outras formas de cirurgia têm transformado as mulheres em mulheres-objeto: todas do mesmo padrão, sem nenhum defeito e com direito a troca, se não estiver satisfeita será encaminhada novamente a cirurgia.

Causas psicológicas e conseqüências orgânicas

Com uma vasta experiência profissional, o psicólogo Júlio César Cerqueira caracterizou os transtornos alimentares que ocorrem principalmente na adolescência.

Na anorexia, os principais sintomas são a recusa de alimentos, emagrecimento acentuado e repentino, palidez, alteração no ciclo menstrual ( aproximadamente 3 ciclos), onde a anoréxica esconde esse comportamento da família com receio de críticas e punição. Já na bulimia, há o aumento de peso, vômito auto-induzido, as pessoas escondem alimentos para comer longe da família e há um sentimento de rejeição social devido ao peso corporal.

São inúmeras as causas desses transtornos, como as genéticas, onde há a prevalência de famílias de gêmeos monozigóticos; causas biológicas, como a baixa concentração de neuro-receptores: serotonina e noradrenalina; causas psicológicas, como a baixa auto-estima; causas familiares, onde existe a falta de comunicação com a família, pais extremamente superprotetores, grande nível de ansiedade, ausência de afeto, amparo, atenção no seio familiar; além de causas sócio-culturais, que através da mídia as meninas querem adotar um modelo de beleza das novelas, da propaganda e esse padrão de beleza ainda não encontra uma consciência crítica nelas.

De acordo com o Dr. Julio Cesar há alterações psicológicas e orgânicas “ A comida tem uma representação simbólica na doença, é um sintoma de um grande vazio, de uma ausência de identidade, de uma angústia de existir”, afirmou. Os transtornos alimentares podem vir acompanhados de depressão, transtorno obsessivo compulsivo, onde, na anorexia caracteriza-se por não comer e na bulimia por comer demais, além de alterações orgânicas como: cardiovasculares, hidroeletrolíticas e metabólicas, podendo levar até a morte.

“ As meninas se auto-mutilam em decorrência da frustração de seus objetivos e da própria auto-estima que é muito baixa. De uma imagem psicológica interna negativa que sobrepõe a externa e também devido a impulsividade e a baixa tolerância às frustrações”, acrescentou Júlio César.

Algumas meninas não sabem que a anorexia e a bulimia são doenças, por isso não buscam ajuda. Para quem tem a doença, o psicólogo aconselha - “ Procure ajuda profissional, psicológica e médica”, concluiu.

“ A comida me acalma por um momento, mas me desespera depois”

Com um rosto muito bonito e aparência de bem menos idade, A.C. de 20 anos, universitária de pedagogia, conta que faria de tudo para continuar magra. Visivelmente, aparenta uma magreza excessiva, sem precisar mudar nada, mas mesmo assim acredita que precisa emagrecer ainda mais. Na íntegra da entrevista, é possível perceber como ela se sente.

Séc. XXI- Há quanto tempo você tem bulimia e anorexia?

A.C.-: bulimia há 3 anos, anorexia há 1... a bulimia me levou para a anorexia

Séc. XXI -Como foi feito o diagnóstico das doenças?

A.C- Bom todo mundo sabia que eu vomitava, mas minha mãe só se tocou que era algo grave depois que passei muito mal do estômago, vomitei sangue, tive que ser levada para o hospital, ai depois comecei o primeiro tratamento para bulimia.. Sobre a anorexia, foi o clinico geral, nesses exames de rotina, ele detectou que eu estava muito abaixo do peso e com carência de algumas substâncias.

Séc. XXI- Você faz tratamento há quanto tempo e tem surtido efeito?

A.C -Há 2 anos venho tentando me tratar. Mais de 5 tentativas que falharam, sempre tenho uma recaída e desisto de tudo...

Hoje em dia estou na minha sexta tentativa de cura; mas não sei, acho que essas doenças são mais fortes que eu.

Séc. XXI - Qual o seu IMC?

A.C -Atualmente 17, que vergonha de dizer isso , mas em breve estarei nos 15.

Séc. XXI -Qual foi o momento mais difícil da sua vida por causa da doença?

A.C -Quando percebi que eu tava sozinha nessa, e isso saiu do controle, e eu me entreguei as doenças.Vomitava o dia todo, quando não estava vomitando e tomando laxante passava dias sem comer nada. Meu corpo já não agüentava mais, não conseguia fazer minhas atividades normais, do dia a dia mesmo, certo dia, mal conseguia parar em pé no banho. Chorei muito, quando cheguei a esse limite, resolvi acabar com tudo isso de forma rápida, tentei suicídio 3 vezes, a única forma de me livrar dessas doenças... cortei meus pulsos, fui pro hospital, estava totalmente transtornada.

Séc. XXI -Qual foi a pior coisa que você já fez para vomitar?

A.C -Bebi detergente para ver se vomitava melhor.. , foi horrível, passei dias com gosto de soda na boca

Séc. XXI -Por que é tão importante ser magra?

A.C -È estúpido falar assim, mas desde criança fui gordinha.. eu tinha vergonha de mim mesma, não tinha uma vida social... eu era a gorda, simplesmente. Quando resolvi emagrecer percebi que tudo ia mudando também, é estranho, mas mudou tudo, saía, ficava com garotos, me divertia, as pessoas ficavam bobas de ver como eu estava diferente, era outra pessoa, minha vida tinha mudado da água para o vinho, e eu me prometi nunca mais ser aquela gorda infeliz, que se eu alcançar determinado peso acima do que é bom para mim, eu me mato, mas nunca mais serei gorda.

Séc. XXI -Você tem medo de alguma coisa que possa acontecer em decorrência da anorexia e bulimia?

A.C -Sim, muito medo, já tenho gastrite, anemia, e sofro muito com isso, sei que pode piorar, mas como eu disse, prefiro ficar doente, que ficar gorda

Séc. XXI- O que é a anorexia e a bulimia para você?

A.C -Anorexia para mim é o modo como eu consigo me fazer feliz, quando o médico disse que eu tinha anorexia, eu fiquei orgulhosa de mim mesma, mesmo sabendo que é uma doença.

Bulimia já é outra historia... eu odeio muito essa doença, ela me faz me sentir um nojo, mas é necessária..

Séc. XXI -Já se auto-mutilou? Se já, qual a sensação que você teve e por que fez isso?

A.C -Sim, cortei os pulsos, frequentemente faço corte nos braços, me furei com agulha.... no momento a sensação é de prazer, traz uma calma, é muito estranho

Séc. XXI -Quais os tipos de dieta você já fez?

A.C -Nossa nem lembro todas, mas tirando NF, fiz a dieta da usp, dieta do leite, dieta de líquidos, dieta do limão, dieta da lua... e etc etc...

Séc. XXI -Quando você tem compulsão alimentar, costuma comer o que?

A.C -Massas e doces normalmente... e acompanhado de muito refrigerante diet

Séc. XXI -Qual o prazer que a comida lhe dá?

A.C -Parece que a comida preenche um vazio que eu tenho dentro de mim, me acalma por alguns momentos, mas me desespera depois.

Séc. XXI -Como bulímica, você só se satisfaz quando come grandes porções de comida e depois vomita tudo?

A.C -Sim, quanto mais comida melhor, e se não vomitar tudo, tem que correr para o laxante, senão acaba tendo crise depressiva e me sentindo pior, quando termino de vomitar tudo, é uma sensação de alivio imensa!

Séc. XXI -O que você faz quando sente fome?

Penso assim, se da pra agüentar, eu agüento... horas.. dias... mas se não dá eu como tudo o que eu tenho vontade depois vomito tudo de uma vez e acaba o problema.

Séc. XXI -Que conselho você daria a quem está lendo essa matéria?

A.C.- Não julgue as pessoas com essas doenças, isso aqui é um mundo horrível, e uma espécie de droga viciante, é fácil começar, mas praticamente impossível sair dessa.

Não fazemos isso para aparecer, ou chamar atenção, estamos doentes, não temos controle sobre nós e nosso corpo.

Aos pais, cuidem, dêem atenção para o seus filhos, se meus pais tivessem mais presentes na minha vida, com certeza eu não teria chegado a tal ponto...

E as garotas e garotos que querem começar, parem enquanto é tempo, siga aquelas orientações saudáveis para perder peso, não entra nessa... isso aqui não é vida.

“Torna-se indispensável manter o vigor do corpo, para conservar o do espírito.”, já dizia Luc de Clapiers. É preciso entender que os transtornos alimentares não são frescura e exigem tratamento. Não só modelos sofrem de tais doenças, mas meninas normais também buscam o corpo perfeito. Se o corpo for bem tratado, durará uma vida inteira.

Agnes Lutterbach para o ForumSec21

Por: ForumSec21