07/12/2007 Noticia AnteriorPróxima Noticia

No Vale do Paraíba, uma cidade entre o turismo e o eucalipto

No município onde se iniciaram as comemorações do Dia do Saci, cidadãos usam a cultura popular para protestar contra a perda das tradições locais, impulsionada pelo avanço da cultura do eucalipto sobre a pecuária.

Guilherme Jeronymo – 100canais*

SÃO PAULO - Quatorze de agosto, meio de dia, caixa de e-mails se enchendo com mensagens da lista de discussões Culturas Populares, instrumento para mobilizar ativistas na área e interessados em discutir a questão. Em resposta a uma mensagem sobre a expulsão de quilombolas em Linharinho, Espírito Santo, de terras da empresa Aracruz Celulose, um militante de Taubaté envia um cordel, lido dias antes em reunião na Câmara Municipal de São Luis do Paraitinga (SP). De autoria do cantador e poeta Ditão Virgílio, o cordel tratava do impacto do eucalipto sobre a vida no município, em especial sobre sua diversidade cultural e sobre sua biodiversidade.

Um breve esforço de reportagem permitiu apurar que o município passa por discussões sobre os limites para o uso das propriedades rurais no plantio do eucalipto, monocultura predominante na região, e que avançou nas últimas décadas contra as outras modalidades de exploração da terra no município, onde predominava a pecuária. A mudança seria a causa de mais desemprego e do aparecimento de uma periferia no entorno da cidade.

A tensão atual está relacionada ainda às discussões do Plano Diretor, abarcando inclusive o avanço das plantações para limites mais próximos do perímetro urbano de São Luis. No cenário, um novo ciclo de êxodo rural, com a saída de diversas famílias das fazendas, investimentos de parte da Câmara e da prefeitura atual no fortalecimento do potencial turístico da região e indícios da destruição de parte dos antigos casarões por algumas das empresas. E, claro, interesses e posições de ONGs, políticos e das próprias empresas, assim como projetos sociais e educacionais mantidos pelas empresas de celulose e papel, mas sem discutir impacto e coerência.

O Cordel, intitulado “O Saci e o eucalipto”, têm 32 estrofes, das quais seleciono algumas (a íntegra do material você pode acessar clicando aqui):

“[7] Já não tem fogão de lenha / Onde fumo ia buscar / Não tem mais o galinheiro / Onde eu ia brincar / Acabou-se o chiqueiro / Não tem porco pra engordar / Os caipiras vão embora / Por não ter onde morar

[24] O caipira indo embora / Vai acabar sua cultura / Não sou contra o eucalipto / Mas sim a monocultura / Não comemos celulose / Nem essa madeira dura / É com sede de dinheiro / Que cometem essa loucura

[26] Homem da roça apertado / Vai morar na cidade / E trabalha com eucalipto / Contra sua vontade / De vez em quando lembra / Que tinha felicidade / Num canto chora escondido / Do sertão sente saudade

[29] Até mesmo a capelinha / Onde o povo ia rezar / Foi fechada a porteira / Para não poderem entrar / Tentam acabar com a festa / Que é tradição do lugar / Se deixarem trocam por pau / Até os santos do altar”

A poesia de Ditão, publicada em 13/08/07 no número 19 do livreto “Estórias de Uma Perna Só”, foram descritas por André Luís da Silva, o professor universitário que a apresentou na lista, da seguinte forma: “A poesia resume tudo o que se poderia dizer a respeito da monocultura do eucalipto. São Luís do Paraitinga é uma estância turística, cidade histórica, onde nasceu o hoje famoso ‘Dia do Saci’, todo 31 de outubro, para se contrapor ao ‘ralouim’, daí a referência do Ditão.

Em entrevista, o poeta, morador e agricultor no sítio Tarumã do Bom Retiro, no bairro de Bom Retiro, em São Luis do Paraitinga, afirmou que as empresas têm cometido abusos, como uso indiscriminado de herbicidas e formicidas, e em ciclos de plantação muito rápidos, que dificultam atividades como a apicultura, por ele praticada. Também diz que as empresas procuram, hoje, terras agricultáveis onde antes havia fazendas, que estão tendo suas construções destruídas, e a população que nelas residia, como empregados ou agregados, está sendo expulsa.

Os seixos da Ira?

“Por alguns anos, as Empresas reflorestadoras absorveram boa parte da mão-de-obra das fazendas e sítios que atuavam na lida da pecuária e agricultura que foram atraídos pelo que supostamente eram melhores salários ou outros benefícios. No entanto com o passar do tempo, a mecanização do manejo do eucalipto gerou dispensa de quase todos os funcionários, especialmente os trabalhadores braçais. Motosserristas e pessoas que atuavam no corte e descaque de eucalipto foram dispensados e ao tentarem retornar as suas antigas atividades encontraram o sistema agropecuário totalmente desmantelado”. É assim que, de forma objetiva, o historiador e ex-vereador pelo PT Marcelo Toledo descreve o impacto do avanço da monocultura, crescente desde a década de 1970 na região.

Representante do Movimento em Defesa dos Pequenos Agricultores (MDPA) de São Luís do Paraitinga, Toledo afirma ainda que a pressão pela venda ou arrendamento das terras dos que ainda são proprietários é contínua, e se deve principalmente à ausência de políticas públicas de apoio a estes agricultores. Ele afirma que “isso é lamentável, porque colabora de forma decisiva para eliminar de vez com as antigas e estáveis comunidades rurais, forçando um grande número de famílias a migrarem para a cidade de São Luís do Paraitinga. No espaço urbano, a maioria desses migrantes vivem sem moradia digna, sem emprego fixo e renda.

O antropólogo e professor Silva, por sua vez, diferencia as atividades de exploração, dizendo que a pecuária desenvolve-se através de pequenas propriedades, emprega o dono e empregados durante o ano todo, e é por isso um modo de produção mais adequado ao “modo de vida caipira”. O eucalipto, por sua vez, em alguns casos é plantado em parceria com os pequenos proprietários, empregando gente no plantio, uma pessoa na manutenção esporádica e pessoal no corte, anos depois. Seu ciclo é semelhante ao da cana-de-açúcar, que Silva classifica como outra “praga”, embora hoje com impacto menor na região.

“Outra questão importante”, diz Toledo, “é que as empresas do ramo de celulose não respeitam os valores culturais e os bens simbólicos do povo da zona rural, atrelados a um modelo de catolicismo popular, e derrubaram muitas Capelas ou então fecharam caminhos de acesso a esses bens, impedindo dessa forma a continuidade das celebrações devocionais e festivas junto aos seus santos de fé e devoção. Para botar eucalipto, as empresas demolem todas as casinhas ‘caipiras’ nas propriedades em que atuam”.

Por: Carta Maior