27/02/2020

Cultura e pensamento: os vilões do nosso tempo

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"Ou insistimos no legado civilizatório da modernidade ou naufragaremos todos num obscurantismo e numa sandice que só favorecem extremismos, discriminação e ódio."

Parece uma loucura que, em pleno século XXI, estejamos experimentando uma avalanche de críticas, revisões, descrença e, muitas vezes, criminalização do pensamento e da cultura. O Brasil e boa parte do mundo estão mergulhados numa disputa absurda sobre terra plana, nazismo, sexualidade, escravidão e outros tantos temas ressurgidos como polêmicos. Parece inacreditável, mas há, hoje, quem acredite na terra plana, num nazismo de esquerda, nas mamadeiras penianas e nas virtudes da escravidão de negros no Brasil. É uma espécie de ode à ignorância.

Por isso, mais do nunca, é imperioso pensar e refletir sobre o pensamento e a cultura. Ou insistimos no legado civilizatório da modernidade ou naufragaremos todos num obscurantismo e numa sandice que só favorecem extremismos, discriminação e ódio. Ou dedicamos todas as nossas forças em reconhecer os distintivos humanos (arte, cultura, raciocínio etc), ou amargaremos décadas de atraso pela frente.

Cultura, num sentido bem amplo, é tudo que o ser humano produz e que transforma a natureza. Uma enxada e uma expressão religiosa são cultura, na medida em que não existem a priori, ou seja, não estão aí disponíveis como frutos da natureza; são, na verdade, resultado da ação e da inteligência humana.

A arte é uma, entre tantas, expressões culturais. A arte é ação humana interpretando e preenchendo de significado a realidade crua da vida. Não há o que a defina como tal. É possível falar de estética, de linguagem, de intervenção e de ideologia. Mas não é possível engaiolar a ideia e a prática da arte nesse ou naquele conceito, nesse ou naquele conjunto de características. Os conceitos tendem a diminuir e, em alguns casos, aniquilar mesmo o sentido do que pretendem explicar. Mais sério ainda é quando se traça uma linha para delimitar o que é e o que não é cultura, o que é e o que não é arte. Nesses casos, mais do que ignorância, incorre-se em preconceito e em discriminação.

A função de um governo - na qualidade de gestor dos bens e recursos públicos - não é dizer o que é e o que não é arte, mas sim prover a sociedade de condições para que ela - a sociedade - crie e produza a arte que bem entender. Quando um governo ultrapassa essa fronteira, deixa de ser mandatário de uma função pública e passa a pontífice, qual ditador, o que deseja que a sociedade produza; passa do espírito público para o interesse privado. Quando isso ocorre, o que está por trás é o que se denomina, pejorativamente, de ideologia. Não que isso seja capaz de conter a força criativa da cultura, embora atrapalhe bastante, sim. Às vezes, o tiro da censura (disfarçado no discurso oficial), acaba por sair pela culatra: quanto mais se condena a criatividade humana, mais energia surge entre os que nos ensinam a ver o mundo sob outras perspectivas.

O pensamento, aquilo que está na base da cultura, é uma potência humana que precisa ser sempre desenvolvido. Há que ter investimento para que o cérebro deixe apenas de fazer funcionar seus mecanismos e produza inteligência. Pensar é um direito. Uma escolha, também. A velha ideia de que somos racionais (e ponto) não é exatamente uma verdade, se a racionalidade for compreendida como razão crítica. Nem todos pensamos criticamente. Pensar, para além da natureza, é uma escolha. Um exercício que demanda tempo e hábito. É um direito que tomamos como nosso. Penso, logo existo. Em outras palavras, pensar é um ato de independência. Tornamo-nos quem somos pelo que refletimos.

Todo mundo tem o direito de pensar o que bem entender. Aprecio todo e qualquer entendimento, desde que me faça pensar e me ajude a compreender a realidade de outra maneira. Que me desinstale e me faça rever as bases das minhas ideias. Por isso, qualquer pensamento que se pretenda absoluto e dogmático não serve para o crescimento de ninguém. Não gera qualquer autonomia.

Pensar dá trabalho, exige esforço e requer coragem. Faz sair dos portos seguros e nos empurra mar adentro. Arte de verdade não se faz sob os ares tranquilos da oficialidade, mas sob as tempestades dos tempos de perseguição. A arte inventa a vida. Os clássicos, assim como o caráter, são forjados no tumulto e nas lutas da vida.

Pode parecer improvável, mas ações contra cultura podem ser um fôlego novo na criatividade nossa de cada dia. E, por isso, toda educação realmente de qualidade deve se dedicar menos ao que já se sabe e mais ao que ainda se pergunta. Os vilões desse nosso estranho tempo precisam ser resgatados.

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”

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