26/02/2020

A meditação e a importância da bondade amorosa

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Uma forte capacidade de foco e atenção egoísta só pode nos levar a ações frívolas e desastrosas. Por isto, o desenvolvimento da bondade é importante na prática da meditação."

O atual interesse na prática da meditação cresceu a partir dos estudos científicos que mostraram os benefícios da meditação “mindfulness” (atenção plena), uma meditação budista voltada para o desenvolvimento da concentração e da calma mental. Mas o que poucos sabem é que a mindfulness é apenas um aspecto de todo o treinamento na meditação Budista.

Tradicionalmente a mindfulness é chamada de Satipatthana que significa “manter sua atenção dentro”. Nesta prática, através de procurar permanecer com a nossa atenção na respiração ou em outro objeto externo, nós criamos a condição para observar nossa mente, conhecer seu movimento e não seguir os impulsos reativos que surgem nela. Ao voltarmos sempre que nos distrairmos ao objeto de nossa atenção, começamos a aprender a perceber nossa mente. Observamos os pensamentos, sentimentos, sensações sem reagirmos a eles, sem segui-los, sem nos apegarmos a eles e nem rejeitá-los. Este é um processo de fazer amizade com nossa mente e coração. Olhamos para nós mesmos sem julgamentos e começamos a ver como todos estes pensamentos e sentimentos surgem e passam. Sem seguir seu impulso e nem rejeitá-los, eles vão perdendo força. Desta forma, começamos a aprender a relaxar naquilo que ocorre e ver com mais clareza e lucidez nossas experiências.

Mas como disse, a mindfulness é apenas um aspecto de todo treinamento na meditação budista. Neste treinamento, junto com a mindfulness é preciso fazer um movimento em direção a empatia e bondade amorosa. Isto porque o principal fator que distorce nossa visão da realidade é nosso autocentramento. Uma forte capacidade de foco e atenção egoísta só pode nos levar a ações frívolas e desastrosas. Por isso, o desenvolvimento da bondade é importante na prática da meditação, e muitos não se dão conta disso. Para que nossa ação seja livre de frivolidade e traga benefício ela deve incluir o outro. Como explica o monge budista Bhante Saranapala no documentário “Explicando a mente: Meditação” (Netflix):

“O propósito da meditação é torná-lo uma pessoa boa. Antes de praticar meditação, tem um passo: chama-se “moralidade”. Se as pessoas podem se beneficiar da meditação de forma laica, tudo bem, mas isso não dá liberdade completa” diz Saranapala. E por moralidade aqui entendesse por deixar de gerar sofrimento e procurar gerar benefícios aos outros.

Em muitos textos é dito que os ensinamentos do Buda podem ser condensados da seguinte forma:

“Não crie sofrimento,

Pratique virtude,

Seja senhor de sua mente”

É interessante a ordem que é colocada aqui. Primeiro vem nos abster de criar sofrimento, em seguida gerar ações virtuosas que causam benefícios e, então, nos tornar senhores da mente. Não sei se foi com esta intenção, mas de qualquer forma esta ordem, talvez, nos indique a importância da bondade amorosa na meditação.

Por mais atenção e presença que tenhamos, sem bondade não somos livres. A atenção é plena quando leva em consideração o outro. O neurocientista Richard Davidson no mesmo documentário explica que outro sentido da palavra Sati de Satipatthana (mindfulness) é “lembrar” e que “o que é lembrado é a ter consideração pela bondade intrínseca do próximo. Consideração pela vontade do próximo de ser feliz e de não sofrer”, explica ele.

Todo este aprendizado exige um trabalho cotidiano permanente com a mente. A prática da meditação nos coloca frente a frente com nossa mente neurótica e egoísta e isso nem sempre é agradável. Ela nos exige este enfrentamento com nossas fixações, com nossos hábitos e percepções equivocados e nossos impulsos reativos. Isto significa uma constante atenção ao que surge na mente para que observemos sua qualidade positiva ou negativa nas situações.

Muitos podem achar que esta postura de vigilância da mente pode nos deixar pouco espontâneos. Mas isso não é muito diferente de um aprendiz de uma arte em que o estudo e a disciplina deixa sua ação pouco livre quase mecânica no começo, mas isto faz parte do aprendizado para que ao começar a desenvolver uma maestria, se possa manifestar toda a criatividade e espontaneidade artística.

O mesmo acontece na meditação onde precisamos desconstruir nossa equivocada estrutura autocentrada para libertar nossa espontânea e natural bondade amorosa e sabedoria. Com relação a esta idéia, deixo com vocês, para finalizar, as palavras do mestre budista Chogyam Trungpa sobre espontaneidade e frivolidade:

“Sempre que houver um impulso para fazer alguma coisa, não devemos simplesmente segui-lo; é preciso trabalhar com esse impulso. Se estivermos trabalhando com ele, não agiremos com leviandade; desejaremos realmente vê-lo e prová-lo adequadamente. Livre de frivolidade. Frivolidade significa reagir de acordo com o reflexo. Lançamos alguma coisa e, quando ela nos retorna, reagimos. Espontaneidade é quando lançamos alguma coisa, observamos e trabalhamos com a energia quando ela nos retorna. A frivolidade implica excesso de ansiedade. Desde que estejamos emocionalmente excitados, ansiedade em demasia é posta em nossas ações. Mas quando somos espontâneos, há menos ansiedade e simplesmente lidamos com as situações como elas são. Não reagimos apenas: trabalhamos com a qualidade e a estrutura da reação. Sentimos a natureza da situação em vez de apenas agir impulsivamente.” Chogyam Trungpa - O Mito da Liberdade

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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