26/02/2020

O carvão e a seda

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Enquanto o mundo caminha para a quarta revolução industrial e a geração tecnológica 5G, uma região dominada pela economia do carvão elege o presidente do país mais importante e poderoso do mundo?"

No estranho sistema eleitoral americano ganha a presidência o candidato que obtiver não a maioria dos votos, mas, sim, aquele que conquistar a maioria dos delegados do colégio eleitoral dos estados. Quem elege mais delegados leva os votos do estado inteiro. No fundo, é um tipo de eleição indireta.

Nas duas últimas eleições de presidentes republicanos nos Estados Unidos (EUA), Bush e Trump, eles perderam no voto popular, mas venceram conquistando um número maior de estados.

Por isso a importância dos chamados estados pêndulos nas eleições presidenciais americanas. Eles decidem a eleição. São os estados que pendulam, mudam de lado entre democratas e republicanos.

Como os EUA são a principal economia do planeta e moldaram a ordem global do Pós-Guerra, criando e liderando suas principais instituições internacionais, (ONU, OMC, OIT...), é espantoso pensar que os destinos do mundo estão sendo decididos pelos interesses de alguns estados americanos.

Entre os estados pêndulo, três importantes colégios eleitorais estão situados no chamado Rust Belt (Cinturão da ferrugem), a mais antiga área de industrialização dos EUA, situada no nordeste do país: os estados de Michigan, Ohio e Wisconsin.

A região viu florescer em torno das abundantes minas de carvão as indústrias metalúrgica e automobilística. A proximidade com o Atlântico estimulou o comércio.

Prefiro chamar essa região de Cinturão do Carvão, pois a indústria carvoeira ainda exerce aí um grande poder de pressão política. É dessa indústria, como também da indústria petrolífera, que partem os argumentos que negam a existência do perigo causado pelo aquecimento global consequente à queima de combustíveis fósseis.

O cinturão do carvão amarga uma crise e decadência econômica a partir da década de 1980 devido a fatores como a globalização da produção industrial e a mudança do eixo econômico do Atlântico para o Pacífico.

Os estados do Cinturão do Carvão votavam antes, na era de ouro das indústrias carvoeira, metalúrgica e automobilística da região, com os democratas, que defendiam mais os direitos dos trabalhadores e os seus empregos através de medidas protecionistas. Os republicanos daquela época, ao contrário, eram mais liberais e pregavam a abertura comercial e a globalização. Hoje esse quadro se inverteu. Diante da decadência econômica da região, os republicanos agora pregam o isolacionismo.

Enquanto o mundo caminha para a quarta revolução industrial e a geração tecnológica 5G, uma região dominada pela economia do carvão elege o presidente do país mais importante e poderoso do mundo?

Diante das mudanças nas relações de trabalho causadas pela desindustrialização que destruiu os empregos formais, perderam poder os sindicatos, o interesse coletivo e os partidos de esquerda. Em seu lugar surgiram o empreendedorismo individual, as ideias conservadoras e o sectarismo religioso. Da luta de classes à luta pela salvação da alma.

Do outro lado do mundo, outro cinturão vai se formando em torno da antiga Rota da Seda que os chineses usam desde a antiguidade para ligar a China à Índia, ao Oriente Médio, à África e à Europa. Esse circuito econômico correspondia a mais de 2/3 da economia mundial antes da era dos descobrimentos no século XVI.

Curiosamente, foram invenções chinesas, apropriadas e ressinificadas pelos ocidentais, como a pólvora, a bússola e o papel, que impulsionaram a Europa rumo à formação do mundo moderno. Hoje, é a China que se apropria de invenções ocidentais como a inteligência artificial, a energia renovável e a robótica para também ressignificá-las e retomar a hegemonia econômica e cultural.

No final da Segunda Guerra Mundial, a China fez sua revolução comunista. Saia do período que os chineses chamam de “a grande humilhação”, durante o qual o país foi ocupado e dominado por potências estrangeiras. O comunismo chinês levou à modernização acelerada da China.

Na década de 1970, ela se via acuada por disputas com seus vizinhos Rússia, Japão e Índia. Os EUA sofriam nessa época as consequências das guerras do Vietnam e da Coréia.

Foi quando Nixon, na década de 1970, através de seu Secretário de Estado Henry Kissinger, se aproximou da China, deu início à Era Neoliberal do chamado Consenso de Washington, globalizou a produção, automatizou o que antes era feito pelo trabalho manual e deslocou o centro econômico do mundo do Atlântico para o Pacífico.

A China retoma no Século XXI a milenar Rota da Seda prometendo a integração de três continentes que, na verdade formam um só, o supercontinente Euro-Afro-Asiático. A seda, ao contrário do carvão, remete à fina e paciente arte da tecelagem, que, para os antigos gregos, era a melhor imagem possível para a Polis.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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