24/02/2020

“Tupi or not Tupi” Reflexões sobre a História do Brasil

Dib Curi Dib Curi
"Em 1922, na Semana de Arte Moderna, intelectuais brasilianistas protestaram contra a nossa mentalidade de rebanho e nos aconselharam a imitar o canibalismo ritual dos nossos antepassados indígenas"

Um dos grandes problemas do Brasil sempre foi a submissão de seu povo, sua grande subserviência mental. É claro que nos atrapalhou muito a nossa extensa história de Brasil-Colônia e depois como Império até 1889, momento em que as nações das Américas já tinham se tornado Repúblicas. Estas invariáveis influenciaram demais o nosso atraso em matéria de autonomia mental e muito mais do que isto.

Existe também o fato de que os povos que aqui estavam ou aqui se instalaram foram desumanamente explorados e desrespeitados e não puderam desenvolver qualquer tipo de cidadania brasilis. Os próprios estrangeiros que aqui viveram não tinham afeto algum por esta terra, somente ambição por riquezas, amparados numa extrema corrupção que viria a se tornar a marca registrada do país, o famoso jeitinho brasileiro. Somente com a chegada da família imperial ao Brasil, em 1818, nosso complexo caldo cultural começaria a ser cozido e preparado em nome da ainda distante unidade pátria.

É claro que houveram momentos complexos, onde muitos se revoltaram contra a subserviência colonial, mercantilista e imperialista. Quando os índios ousaram se rebelar contra a própria escravidão ou submissão, Portugal arrumou uma estratégia de jogar uns contra os outros, enfraquecendo o movimento. Quando os negros tentaram se libertar do jugo escravocrata através dos Quilombos, foram jogados uns contra os outros na famosa cizânia entre os líderes negros Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares. Quando, na Guerra do Contestado, milhares de pessoas humildes protestaram contra a injusta alienação de suas terras, a ainda infante República exterminou 20 mil destas pessoas simples. Seria injusto deixar de fora o trágico incidente de Canudos, descrito por Euclides da Cunha em “Os Sertões”. A partir dali, se fortalece nossa dificuldade em permitir a sobrevivência de outras formas de viver, infâmia imperialista que repetimos até hoje.

No Brasil, foram tantos os momentos de tentativa de libertação das injustiças e do jugo imperialista e monocrático, que seria impossível citar todos aqui; a grande maioria deles reprimidos com excessiva violência ou estratégias ladinas (as primeiras fake news), que sempre nos jogaram uns contra os outros, nos dividindo e nos enfraquecendo como povo e como nação.

Neste sentido, creio que mudamos muito pouco e temos uma memória bem curta. A polarização política atual tem um perfil semelhante àquela de 1930, na querela entre integralistas e comunistas, entre liberais e centralistas. Teríamos esquecido o conteúdo da Carta de Vargas em seu suicídio? E a bravura do general Lott, garantindo uma postura legalista das forças armadas na eleição de Juscelino? Será que esquecemos a vassourinha moralista de Jânio Quadros, a mesma que varreu 20 milhões de dólares para suas próprias contas na Suíça? Talvez a nossa história seja como uma roda que sempre temos que inventar de novo e o nosso mito preferido seja o de Sísifo. No nosso subdesenvolvimento mental adoramos modismos e ideologias importadas, de direita e esquerda.

Em 1922, na famosa Semana de Arte Moderna, intelectuais brasilianistas protestaram contra a nossa mentalidade de rebanho e nos aconselharam a imitar o canibalismo ritual dos nossos antepassados indígenas, que comiam os guerreiros de outras tribos para se apropriarem de suas qualidades e virtudes. A Semana de Arte Moderna dizia para praticarmos uma antropofagia das ideias estrangeiras, um tipo de canibalismo mental que geraria fezes nutritivas que adubariam a vocação do Brasil.

Mas qual é a nossa vocação? Talvez esta pergunta não tenha uma resposta só. Mas é fato que um de nossos pilares e raízes está em nossas matas e também é fato que nossas avós primordiais são as tribos americanas e africanas. Isto não há como negar. Por que então continuar perseguindo os índios e exterminando seu jeito de viver, eles que são os donos desta terra? Será que a Lei do UsoCapião não vale para ocupações com mais de 10 mil anos? Por que a sanha destruidora do ambiente? Será que só existe o American Way of Life dos templos do consumo, das almas de mercadores e dos negócios à quaquer custo? Será esta a única vida possível? Parafraseando o velho Shakespeare, quando nos questionava sobre “Ser ou não Ser”, temos que nos decidir finalmente por nossas raízes: “Tupi or not Tupi, that is the question.”

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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