27/01/2020

Escrevendo na água

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Às vezes acho que esta facilidade de se expressar tem diminuído a capacidade de pensar, sentir e agir das pessoas, capacidade esta que vem da habilidade de se ficar em silêncio, em reflexão e contemplação para se ter uma visão mais clara de si mesmo e do "

Há anos venho escrevendo esta coluna no jornal Século XXI. E a cada edição me deparo com o desafio de escrever algo que sinta seja relevante para as pessoas, algo que as façam pensar e ver o mundo de outra perspectiva, uma perspectiva mais livre e com menos sofrimento. Nesta tentativa, às vezes, trago uma visão um pouco pessimista (ou seria realista?), apontando questões que poucos percebem da nossa condição humana. É comum nestes artigos eu falar da visão equivocada que temos da realidade e como isso nos traz muito sofrimento. Não sei até que ponto os leitores entendem quando digo que a busca de felicidade, tanto na sua forma de busca como nos objetos de felicidade, só trazem mais sofrimento. Por mais paradoxal que seja, somente ao parar de buscar a felicidade podemos começar a tocar em nossa natureza primordialmente livre e sábia. Como diz Chogyam Trungpa:

“Ninguém perdeu a esperança de alcançar a iluminação. Ninguém perdeu a esperança de sair do sofrimento. Esse é o problema espiritual fundamental que temos.”

Este é o grande problema. Não perdemos a esperança e de ter alguma coisa diferente do que o agora e ao agirmos com nossa mente e corpo com base nisso criamos muita confusão e dor. É como um animal preso numa armadilha que quanto mais se mexe pra sair mais fica preso e mais aumenta seu sofrimento. Talvez se relaxássemos e começássemos a ser mais receptivos à situação, sentindo sua textura, sua forma, poderíamos ver que há um espaço para um movimento, mas um movimento inteligente sem a ânsia de escapar. Poderíamos até começar a apreciar a situação, ver que aquilo tudo não só não é tão ruim com é interessante.

Mas voltando ao assunto dos desafios de escrever, muitas vezes me vi pouco inspirado (como agora), pois sei que somente a leitura não irá mudar muita coisa, a não ser que esta leitura inspire a pessoa a agir, a se engajar em uma atividade ou prática que a ajude a mudar sua mente e coração. E poucos fazem isso.

As pessoas gostam muito de ler e falar. Não é a toa que as redes sociais estão aí, cheias de discussões, teorias e achismos. Esta facilidade de se comunicar e de expressar pensamentos aparentemente parece ser uma coisa boa, mas ela traz também o perigo de criar muita confusão e discórdia pelo velho hábito de se falar sem pensar. Às vezes acho que esta facilidade de se expressar tem diminuído a capacidade de pensar, sentir e agir das pessoas, capacidade esta que vem da habilidade de se ficar em silêncio, em reflexão e contemplação para se ter uma visão mais clara de si mesmo e do mundo para uma ação consciente.

Outro ponto nesta questão da comunicação está na tendência consumista da nossa sociedade. Este hábito também se manifesta na forma como lidamos com a informação e nossas opiniões. A insaciável busca por informação, na maioria das vezes irrelevantes, vem junto com a ânsia por expressar nossas opiniões, e isso nos traz uma indigestão mental/emocional que aumenta nossa reatividade e nos tira a lucidez e o humor.

Por exemplo, se eu estivesse escrevendo isso numa rede social, em poucos instantes já teriam algumas pessoas comentando, criticando ou concordando. Mas seriam estes comentários vindos de conclusões devidamente refletidas e ponderadas ou apenas de reações emocionais precipitadas e, muitas vezes, preconceituosas?

Creio que a facilidade atual de nos comunicarmos e expormos nossos pensamentos para públicos cada vez maiores tem exacerbado nossa urgência de realizar nossas cruéis esperanças de se obter algo do mundo que nos dê um sentido de ser. E nada poderia ser mais desastroso, pois tal exposição e necessidade exagerada nos enfraquece mais do que nos empodera. E ainda mais terrível é quando vemos que estas esperanças frustradas tiram a razão de viver de muitas pessoas.

Neste sentido podemos dizer que a esperança mata. Ela começa matando nossa apreciação pelo momento presente e ao criar uma idéia para o nosso futuro ela mata a nossa capacidade do interesse pelas coisas, do perceber o interessante que pode vir do mundo. Ao se fixar numa esperança, cortamos a comunicação com aquilo que nos chega. Ela mata a dança com a realidade, ao alimentar a nossa ignorância sobre a nossa verdadeira natureza livre e perfeita presente neste exato momento.

Novamente citando Trungpa:

“Ignorância é o estado de ter um objetivo, objeto ou finalidade particular em mente. E esse objetivo e objeto, essa mente-orientada-a-um-fim, se torna extremamente insuportável, de forma que não se consegue reconhecer a situação ao redor. Isso é a ignorância. A sua mente está tão profundamente preocupada com o que quer, que nem mesmo reconhece bem o que está ali”.

Comecei escrevendo este texto sem saber como começar e sem idéia de onde ia dar. Parti do dilema em escrever para cair na vida sem esperança. Mas tudo isso que foi dito tem a ver com Budismo e prática de meditação. É preciso se familiarizar com este estado sem esperança, de liberdade e apreciação do presente e é isso que a meditação faz. As palavras não alcançam este estado, só a prática bem orientada da meditação. As palavras só servem pra despertar a vontade de praticar, se isso não acontece não tem sentido escrever sobre. Este é o meu dilema. Até que ponto estou alcançando meu objetivo, não sei, mas partindo do ponto de vista da meditação isso não importa. No final das contas tudo é como escrever na água.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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