24/01/2020

Mister, magia, mistério

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"O futebol tem seus mistérios e mágicas. É um jogo no qual o erro é a norma e o acerto, desvio. Alterna entre a simetria e a quebra da simetria. Encanta e atrai mais paixões do que qualquer outra atividade humana. "

Num Brasil carente de lideranças criativas, surge Jorge de Jesus, técnico português que comandou o Flamengo na conquista da Tríplice Coroa: campeão estadual, nacional e continental.

Em Portugal, o técnico de futebol é chamado de mister. É interessante analisar a etimologia da palavra.

Mister vem do inglês, onde quer dizer senhor, mestre, dono. Origina-se em master, senhor, mestre. Esta última palavra remonta ao francês maistre, mestre, que, por sua vez, origina-se do latim magister, o que manda, dirige.

Todas essas palavras estão ligadas à raiz indo-europeia mag, grande, como também major, maioral, magistério, majestade, mestre e mordomia. Também mago, da qual mágica se origina.

Já mistério vem do grego mustés, aquele que é iniciado nos mistérios. Ao contrário do grupo de palavras anteriores cujo som é aberto, como em mágica, o som aqui é inarticulado e ligado a uma raiz onomatopaica fechada mu.

Um Brasil carente de mestres é envolto em inúmeros mistérios: quem matou? Quem roubou? Quem manipulou? E ciclicamente surge o que chamo de “grandes vultos da nossa história”, ̶ porteiros, motoristas, caseiros ̶ , que fazem História, mudando o curso dos acontecimentos.

O Mister Jorge de Jesus nasceu e é ligado a uma pequena aldeia de Portugal. Ele mexeu com o estigma do português sem inteligência e cultura que tanto aparece em nossas piadas. Faz parte das origens de nosso complexo nelsonrodrigueano de vira-lata.

Na formação escolar do brasileiro, ignoramos tudo o que se refere aos grandes feitos e ao papel histórico dos lusitanos na formação do mundo moderno. Cito algumas passagens importantes: a retomada da península ibérica; o primeiro estado nacional consolidado da Europa; a invenção de novos tipos de vela e de leme, o que impulsionou a era das grandes viagens marítimas; a escola de Sagres e as viagens do descobrimento. Vasco da Gama, cuja saga foi contada em poesia em Os Lusíadas de Luís de Camões, narra esses primórdios da globalização. Empurrados para o Atlântico a partir da queda de Constantinopla, coube aos portugueses inovar e se lançar numa grande aventura que semeou na América, na África e na Ásia colônias portuguesas.

Entretanto, por outro lado, há também uma espécie de carma deixado no rastro disso tudo. Nosso país inseriu-se com força no tráfico negreiro. Praticou-se, então, o chamado comércio triangular. Escravos eram trocados por aguardente, açúcar e tabaco. Morrem hoje mais pessoas por diabetes do que por causas externas violentas como crimes e guerras.

O Mister vem de uma pequena aldeia do interior de Portugal. Parece ter sido uma figura folclórica que, cheio de si, pregava métodos inovadores, inspirando-se inicialmente na Holanda de Cruyff. Estudioso do futebol, teve por muitos anos um professor de filosofia como auxiliar que o incentivava ao hábito da leitura.

De fato, o futebol tem seus mistérios e mágicas. É um jogo no qual o erro é a norma e o acerto, desvio. Alterna entre a simetria e a quebra da simetria. Encanta e atrai mais paixões do que qualquer outra atividade humana. Traz à tona nossa herança tribal. Sublimamos no futebol tanto nossas habilidades adquiridas nos tempos de caçadores-coletores quanto nossos impulsos mais sectários e sanguinários.

E futebol é mágica no sentido do ilusionismo. É o “finge que vai, mas não vai”, eternizado nas imagens dos dribles de Garrincha “chamando para dançar” os gringos nas copas das décadas de 50.

Mas tudo depende do trabalho duro e inteligente. O Flamengo passou por sete longos anos de luta contra o rebaixamento. Terminou a era dos dirigentes sem escrúpulos.

A maré mudou e hoje o Time vive esse momento mágico. Em síntese, pelo que entendi, a filosofia do Mister pode ser resumida em quatro pontos e pode ser aplicada a qualquer organização:

1. Nunca devemos estar satisfeitos com nosso desempenho. Não se acomode. O que funciona hoje pode não funcionar amanhã. Tenha um grande repertório de jogadas e de alternativas.

2. Para melhorar a performance do grupo, é preciso partir da análise de desempenho de cada parte. Melhorias individuais devem ser orientadas e cobradas individualmente pelo técnico, evitando assembleísmos desgastantes que expõem as deficiências e geram defesas e animosidades.

3. A sincronia e o automatismo dos movimentos do grupo são obtidos através da escolha de jogadores com as habilidades certas para cada tipo de função e de treinos apropriados.

4. O mais importante: no futebol como na vida devemos jogar com alegria. Os treinos e reuniões devem ter como objetivo tramar as estratégias e celebrar as os avanços.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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