23/01/2020

Seremos todos Filisteus?

Dib Curi Dib Curi
"Graças ao tipo de sociedade em que vivemos, parece que estamos nos tornando “indivíduos” muito parecidos uns com os outros, um tipo de homogeinização coletiva quase intolerável para quem ama a diversidade e a diferença. "

Tenho consciência de que as limitações que vemos no nosso mundo se devem à limitação dos próprios seres humanos. Não acredito na possibilidade de mudança do mundo sem uma mudança substancial no ser humano.

Está claro também para mim que a limitação das pessoas está, principalmente, na sua sensibilidade, no seu sentimento. O sentimento é uma visão interior que temos do Belo, do Bem e do Justo, é a maneira como nos relacionamos com a Vida, tanto na escassez como na abundância. Esta não é uma questão que possa ser resolvida ou melhorada com argumentos, discussões ou racionalidade. É uma questão mais profunda e complexa que tem a ver com medos, bloqueios, marcas e travas de cada pessoa, muito mais do que com suas ideias ou ideais. As pessoas são como são.

Contemplando a mente das pessoas vejo como se desgastam no conflito que se dá entre os valores individuais e coletivos. Poucos percebem que esta é uma discussão de segunda classe, fortalecida pelas ideologias que se degladiam pela nossa preferência, uma discussão rasa e que esconde valores muito mais profundos que são o singular e o plural.

Creio que se cada pessoa tivesse o único objetivo de buscar sua própria singularidade, conheceríamos realmente o que seria uma sociedade plural e não uma sociedade apenas como um coletivo. Para começar não dá pra comparar o singular com o individual. O individual é o que temos atualmente, uma mesmice esvaziada e isolada do mundo, um ser preocupado consigo mesmo, sempre aquisitivo no seu obsessivo desejo de TER, fechado e atormentado, procurando continuamente agradar os outros para obter algum bônus negocial disto. Já o ser singular é um ser único e criativo, que se ocupa com a paixão deliciosa de SER ele mesmo, celebrando a oportunidade de existir na comunhão com todas as coisas e buscando uma expressão cada vez mais adequada de sí no mundo, uma manifestação que esteja à altura daquilo que ele é.

À partir daí é que existe a diferença entre o coletivo e o plural. O coletivo é exatamente a junção dos indivíduos uniformes acima, um rebanho seguindo algum líder, poder ou ideologia vinda de fora deles mesmos. Já o plural é uma sinfonia dos diferentes, daqueles que descobriram a si mesmos e se afirmam na graciosa loucura de si mesmos. É bom lembrar que a natureza é um ser plural, onde o diverso e o diferente são muito bem vindos e sempre estimulados. Há um grande caminho para a sociedade percorrer até que estimule a diferença e não a igualdade. Ainda insistimos num completo erro de interpretação da Vida. Graças ao tipo de sociedade em que vivemos, parece que estamos nos tornando “indivíduos” muito parecidos uns com os outros, um tipo de homegeinização coletiva quase intolerável para quem ama a diversidade e a diferença. Se tivéssemos que denominar a atitude do homem contemporâneo, chamaríamos a todos nós de Filisteus.

Os costumes, o caráter ou o modo de pensar de um filisteu costuma se manifestar numa atitude anti-intelectual, que subestima a arte, o belo, o intelecto e a espiritualidade. O Filisteu é uma pessoa de mente presunçosa, limitada, que possui uma moralidade convencional, uma alma de mercador e pontos de vista materialistas e a indiferença por valores culturais e estéticos.

De duas uma: Ou isto se dá por uma questão mais profunda, espiritual mesmo ou por uma inconsciência ou falta de exercício do próprio ato de pensar. Acredito que o verdadeiro pensamento está além da mente no sentido comum. O pensamento é uma ferramenta que podemos ter e que nos mostra a plasticidade do mundo. Quando falo do pensamento digo sobre a potência humana que gera a Arte, a Filosofia e a verdadeira Ciência.

Quando não pensamos de verdade achamos que o mundo é isto ou aquilo, uma coisa concreta, exata, definida, algo que está fora de nós mesmos e que nos subordina. O pensamento nos mostra que o mundo é tudo aquilo que pode ser, um abstrato interior, um infinito com mil faces. Sem o pensamento não pode haver liberdade, pois não existem horizontes possíveis além das janelas fechadas de nossas certezas. Sem o pensamento, acabamos como vítimas deste tipo de coletivo fabricador de novos indivíduos sempre iguais uns aos outros.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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