18/12/2019

Uma Educação para a Felicidade

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Uma educação para a felicidade deveria nos mostrar como somos o tempo todo influenciados por inúmeros fatores, na maioria das vezes de forma inconsciente, o que torna nossa busca de felicidade algo completamente instável e inseguro. "

Toda educação deveria capacitar o indivíduo para a felicidade.

Infelizmente não é isso que vemos hoje. Tanto na escola como na família a educação tem sido conduzida no sentido do indivíduo conquistar um determinado status cultural, social e financeiro que não necessariamente representa a sua felicidade.

De diversas formas, desde pequeno, são incutidos valores e crenças na vida do indivíduo que ao invés de capacitá-lo para ser feliz o torna, na verdade, mais e mais insatisfeito.

Num sistema social onde o poder econômico e político está interessado mais em ter um ser humano facilmente manipulável do que consciente e lúcido, cabe a educação, e mais especificamente à educação escolar, procurar caminhos para formar um indivíduo com uma mente livre, capaz de conduzir sua vida com sabedoria e habilidade de manifestar felicidade para si e para o seu meio.

Podemos achar que a felicidade não tem uma receita única, que ela é relativa às características de cada indivíduo e que seria muito difícil estabelecer uma educação para a felicidade que servisse para todos. Certamente, cada indivíduo tem suas necessidades e capacidades próprias com determinados interesses, desejos, aversões, medos e esperanças. Mas, uma educação deveria ao invés de ensinar a como adquirir, conquistar e possuir determinadas condições e coisas relativas que podem, momentaneamente, proporcionar alegria e felicidade, ela poderia oferecer uma compreensão de como criamos nossos interesses, desejos, aversões, medos e esperanças, porque obtemos felicidade de algumas coisas e infelicidade de outras, como nos habituamos a um determinado tipo de percepção da realidade que nos aprisiona em uma forma de ser feliz. Na verdade, mais do que nos instruir na busca de felicidade a educação deveria nos instruir a encontrar a liberdade; a liberdade das coisas e condições a que nos habituamos para nos sentir seguros e satisfeitos.

Como diz Chagdud Tulku Rinpoche:

“Se examinarmos nossas vidas, veremos que a real insatisfação, angústia e mal-estar que experimentamos não são causados por condições externas, mas pela forma como reagimos interiormente a elas. Não podemos negar que as condições externas difíceis existem, mas precisamos reconhecer que alguém com algum controle sobre os processos internos da mente não vivencia a mesma impotência e sofrimento face às perdas, adversidades e doenças, comparado a uma pessoa cuja mente não foi treinada”.

Para isso, a educação, além de ensinar a compreender a nossa realidade e o nosso mundo externo, poderia nos ensinar a compreender o nosso mundo interno através de ferramentas que ajudem na investigação do funcionamento da mente e traga mais lucidez e sabedoria para uma felicidade autêntica.

Através de tal investigação e compreensão da mente e seu potencial, veríamos que uma felicidade autêntica não se baseia em condições que, afinal, são impermanentes, passíveis de mudanças e completamente incertas.

Uma educação para a felicidade deveria nos mostrar como somos o tempo todo influenciados por inúmeros fatores, na maioria das vezes de forma inconsciente, o que torna nossa busca de felicidade algo completamente instável e inseguro. E que, por isso, a busca de atrair ou rejeitar coisas para nossa vida não pode ser fonte de felicidade. Antes de tudo deveríamos compreender como e porque criamos estas necessidades e, desta forma, aprender a nos desfazer de nossas fixações para que encontremos uma estabilidade, um equilíbrio e satisfação que não seja dependente das coisas e condições.

Este deveria ser o foco principal da educação, pois ao desenvolvermos essa compreensão e sabedoria poderíamos fazer surgir um indivíduo verdadeiramente livre para exercer sua capacidade de escolha e criatividade. Desta forma, ao se concentrar em buscar formas de apresentar, desde a mais tenra idade até a idade adulta, os caminhos para uma felicidade autêntica e duradoura, capacitaríamos o indivíduo a descobrir a natureza de suas experiências mentais, emocionais e corporais para saber lidar com elas de forma libertadora para si e para os outros. Ao aprendermos a investigar a mente que procura uma suposta satisfação e vermos a ilusão e a futilidade da busca e fuga das coisas do mundo, desenvolvemos uma base interior onde podemos começar a descobrir um estado cada vez mais natural, são e feliz da mente.

Educar para desenvolver esta capacidade de investigação e se familiarizar com esta mente livre e natural é fundamental para que o indivíduo possa manifestar plenamente suas potencialidades, assim como, deixar de ser um fator de desarmonia social e mais uma peça no jogo das muitas forças (em diversos níveis) que se alimentam da ignorância e do sofrimento no mundo.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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