17/12/2019

Ser ou não ser, eis a questão

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"A polarização que se vê hoje na sociedade não se dá entre ricos e pobres, mas entre progressistas e conservadores. "

Protestos e manifestações populares irromperam nos quatro cantos do planeta: o que há de comum em lugares tão distintos quanto Chile, Argélia, França, Iraque e Hong Kong?

As causas imediatas, os gatilhos, são variadas, mas tendem, na maioria dos casos, a problemas de mobilidade como o aumento das passagens do transporte público e o aumento dos preços dos combustíveis. Porém, por trás dos estopins existem importantes causas estruturais demográficas, geopolíticas, tecnológicas, econômicas e sociológicas.

Do ponto de vista demográfico, o envelhecimento da população, a chamada transição demográfica, está levando uma grande parte do PIB mundial para os fundos de pensão, o que enxuga dinheiro do mercado, gerando recessão.

A entrada da China na OMC em 2002 foi o grande fato geopolítico de nosso século. A partir daí, o planeta foi inundado por produtos chineses a preços irrisórios. A China, assim, passou a exportar deflação para o resto do mundo.

Quanto à tecnologia, estamos vivendo um momento no qual o mundo antigo já não é mais funcional enquanto que o novo ainda não existe. Estamos nas vésperas do grande salto tecnológico prometido pela quarta revolução industrial, com sua internet das coisas baseada em sensores (e censores), inteligência artificial e computação quântica. Grandes transformações na forma de trabalhar, morar, deslocar e informar estão por vir. O centro disso tudo deixará o celular e irá para a caixa de som com assistente de voz.

Pena que os frutos de todo esse avanço científico e tecnológico acabem se concentrando nas mãos de poucas pessoas, o que gera a desigualdade crescente. Chama-se de rentista essa forma de capitalismo monopolista das grandes corporações controladas pelo mercado financeiro. As Guerras Mundiais migraram do palco militar para o econômico. Ao invés de bombas, as armas agora são tarifas de comércio exterior, sanções econômicas, taxas de juros e negociações de dívidas.

Tudo isso somado leva a que se formem expectativas negativas em relação ao futuro. No mercado financeiro, isso fica claro quando os títulos de curto prazo passam a remunerar mais que os de longo prazo, o que vem ocorrendo nos últimos meses.

Na população em geral, a falta de confiança no futuro gera revoltas, manifestações e protestos, pois o capitalismo sob sua forma neoliberal prometeu mundos e fundos e convenceu a opinião pública dos benefícios da troca do estado de bem estar social pela economia de mercado radical, livre das amarras e regulações do estado. No entanto, o neoliberalismo está entregando desemprego, ausência de serviços públicos e falta de perspectiva.

A tentação populista, então, é a de retornar à velha dicotomia direita/esquerda do mundo bipolar da Guerra Fria. Entretanto, a polarização que se vê hoje na sociedade se dá não entre ricos e pobres, mas entre progressistas e conservadores. Conservadores tendem a se apegar a velhas fórmulas do passado. Progressistas são chegados a utopias futuristas.

O processo de globalização norteou a economia mundial nos últimos trinta anos e parece estar se encerrando agora com a disputa comercial entre EUA e China. Podemos listar vários aspectos positivos da globalização, como a retirada de milhões de pessoas da miséria e a criação de entidades supranacionais como a União Europeia e o Mercosul. Do lado negativo, houve a destruição de milhões de empregos no Ocidente, o que enfraqueceu os sindicatos e precarizou o trabalho.

E agora, o que fazer? O mundo velho já não mais funciona e o novo ainda demora a chegar. Enquanto o mundo avança na velocidade 5G, o Brasil encontra-se paralisado diante da disputa comercial entre EUA e China.

Chegou o momento em que as descobertas da física quântica começam a ser aplicadas na tecnologia. No mundo subatômico, fatos desconcertantes acontecem, como uma coisa estar e não estar presente no mesmo momento ou dois pontos distantes se conectarem de forma instantânea por um caminho que parece fora do espaço tempo.

Do ponto de vista tecnológico, a quarta revolução industrial promete veículos autônomos, ordens remotas para o funcionamento da casa, máquinas que aprendem com a experiência, impressoras 3D que produzem em qualquer lugar o que só era possível ser produzido em fábricas, sistemas de reconhecimento facial que facilitam a manutenção da segurança, formas de pagamento sem dinheiro que impossibilitam a sonegação e formas de governança eletrônica, o e-govern.

Do ponto de vista das ciências sociais, vejo que o pensamento “ou isso ou aquilo” vai sendo substituído por “isso e aquilo”, e coisas que pareciam distantes estão se interconectando. Por exemplo, da China comunista brotou um capitalismo mais avançado. No Ocidente capitalista, inovações tecnológicas, ao libertarem o homem do trabalho, estão criando as condições para uma forma superior de comunismo.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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