15/12/2019

Alice abre cabeças

Dib Curi Dib Curi
"É preciso que cada um saiba onde a humanidade foi capaz de chegar em sua capacidade de criar, amar e saber. Este conhecimento tem o poder de resgatar a nossa integridade perdida. "

Muitas vezes tenho levado aos meus alunos um pouco do conhecimento das narrativas e dos mais belos feitos humanos. Nunca foi tão fundamental abrir as cabeças para os grandes horizontes da Vida, disseminar as grandes ideias, realizações e aprendizados do passado, replantar nas mentes humanas os momentos sementes da civilização.

Uma mente ampla sempre tem uma visão mais aberta e inclusiva das coisas. Já uma mente fechada tem a capacidade de empobrecer a vida no seu entorno, na vã tentativa de tentar excluir aspectos inquestionáveis do viver. Milhares de gerações humanas deram perspectivas para as grandes questões da vida. É preciso que cada um saiba onde a humanidade foi capaz de chegar em sua capacidade de criar, amar e saber. Tal conhecimento tem o poder de resgatar nossa integridade perdida.

Quando somos desinformados ou inconscientes dos grandes propósitos da nossa civilização, ficamos alienados de nossos potenciais significativos e podemos cair no conto do “vigário” das ideologias restritivas, das lideranças negativas e das ambições imediatistas em nome de uma verdade que nos imobiliza em paixões tristes, preconceituosas, ansiosas e destrutivas.

Por isto a importância das belas narrativas do passado, dos filmes singulares, ficções livres, contos surpreendentes e mitos universais. Eu teria dificuldade em escolher entre tantos candidatos à Hors concours. Mas vou fazer um breve exercício de jogar os dados da memória.

Certamente estariam entre as minhas narrativas prediletas a passagem de Jesus Cristo pela Terra, assim como o Mito de Édipo, a religião dos Orixás e a missão do Buda. Eu destacaria também a trajetória de tantos artistas geniais, entre eles Shakespeare, Fernando Pessoa, Van Gogh, Chopin e Fellini.

A História da humanidade é um quintal de mil fertilidades. Destaco entre tantas narrativas importantes o momento do contato entre o europeu e o índio na trama da Descoberta das Américas, o eterno jogo de interesses expresso na Revolução Francesa, a História dos nossos sonhos contida na Astronomia, a engenhosidade da Geometria e o magistral jogo de Xadrez.

Na História do pensamento seria criminoso citar uns poucos autores, mas as obras de Platão são sublimes, as de Espinosa conclusivas, as de Nietzsche revolucionárias e as de Deleuze visionárias. O Romantismo e o Anarquismo do Século XIX também são dignos de serem aprofundados.

Nas Ciências, destaco as narrativas históricas sobre o Átomo e o DNA, as hipóteses e as ficções sobre a Viagem no Tempo e a Vida extraterrestre. Mas não basta estudarmos estes conteúdos na escola. Precisamos fazê-lo de novo, agora com interesse de adultos, absorvendo os valores da cultura à partir de nossas novas significações. Sem este reaprendizado, a maioria de nós permanece como adolescentes hedonistas, aquisitivos e parciais, trancados em seus quadradinhos compreensivos e de interesses.

Uma das narrativas que considero mais surpreendentes e singulares é a obra do poeta, matemático e reverendo anglicano, Lewis Carol. A obra em questão é “Alice no País das Maravilhas”. Publicada em 1865, é um ícone da contra cultura e, entre outras coisas, é também um nítido resgate da compreensão intuitiva da criança universal, aquela mesma que Jesus disse que deveríamos nos tornar para entrarmos no Reino dos Céus. Entre tantos momentos únicos e deslumbrantes, destaca-se aquele em que o Chapeleiro diz à Alice que ela tinha perdido a sua “Muiteza.” Quantos de nós está com este mesmo tipo de limitação? Pois a cura existe.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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