26/11/2019

Uma Urgente Sabedoria

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Em uma mente sufocada pelo constante estímulo de descontentamento, pouca chance se tem de descobrir qualidades como empatia, compaixão e generosidade."

“Se uma pessoa deseja solucionar os problemas do mundo, é muito importante que essa pessoa comece consigo mesma, tentando solucionar e curar os problemas dentro da sua própria mente. Se tentamos resolver os problemas do mundo sem ter reduzido as tendências pessoais de apego e aversão na nossa mente, então, ao mesmo tempo em que vamos talvez conseguir solucionar alguns dos problemas, provavelmente agravaremos ou criaremos alguns outros...

Portanto, é muito importante não nos deixarmos cair no cinismo, ou apatia, ou desespero. Ao mesmo tempo, se desejamos trazer mudanças benéficas, positivas, para a humanidade, é muito importante começarmos conosco mesmos; é importante começarmos essas mudanças no nosso coração e na nossa mente.” Alan Wallace

Ao buscar soluções para os problemas sociais e ambientais através de ações políticas, tecnológicas e educacionais, temos nos deparado com a falta de inteligência emocional das pessoas para as mudanças de comportamentos sociais necessários, principalmente, daquelas que detém o poder de fomentar estas mudanças.

Sistemas políticos, leis e novas tecnologias são facilmente mal usados e corrompidos quando mentes e corações estão envolvidos por emoções que não correspondem às suas aspirações. Mesmo naquelas pessoas que achamos ser bem intencionadas, vemos que elas agem e se relacionam, muitas vezes, dominadas por pensamentos e emoções inconscientes e contraditórios. Acham que estão se conduzindo com razão e clareza, mas não percebem as emoções que envolvem suas lógicas e tornam suas ações estreitas, equivocadas e até criminosas.

Ignorantes desta influência, ao buscar a felicidade e as soluções para nossos problemas, podemos ver mais adiante que criamos novos problemas com elas. Fixados em emoções autocentradas, não compreendemos corretamente a realidade em que vivemos, criando crenças sobre nós mesmos e o mundo que realimentam emoções num círculo vicioso. Mas que realidade é esta que não compreendemos?

Podemos ver dois aspectos básicos da realidade que temos muita dificuldade em compreender e adotar em nossa percepção e nosso comportamento: a impermanência e a interdependência de todas as coisas.

Entendemos intelectualmente e de forma parcial estes dois aspectos. E isto já é alguma coisa, mas não o suficiente. Sabemos teoricamente que todas as coisas mudam e que tudo existe dependente de certas influências e condições, mas não sabemos disso emocionalmente. Como diz Chokyi Nyima Rinpoche no livro “Bardo Guidebook”:

“Todos têm um entendimento grosseiro sobre a impermanência; raramente ele chega a um nível sutil. Nós consideramos alguma coisa permanente até que ela seja destruída. Por exemplo, uma pessoa é permanente até que ela morre; um copo é permanente até cair e quebrar. Esse é um entendimento grosseiro da impermanência.

Ao entender a impermanência sutil, compreendemos que tudo muda de instante a instante, momento a momento. A cada micro-segundo uma pessoa está mudando”.

Se pensarmos bem, a não compreensão profunda da impermanência e da interdependência está no cerne de nossos problemas no mundo.

Por exemplo, será que compreendemos emocionalmente a seguinte afirmação:

“As raízes de todas as coisas vivas estão amarradas juntas. Profundamente na base dos seres, elas se entrelaçam e se abraçam. Essa compreensão é expressa com o termo não-dualidade. Se olhamos profundamente, descobrimos que não temos uma identidade separada, uma identidade que não inclua sol e vento, terra e água, criaturas e plantas, um e outros”. Joan Halifax Roshi - “Essential Zen”

Não é de se surpreender que uma sociedade que vive ignorante desta realidade tenha seu desenvolvimento baseado numa cultura que alimenta a busca constante do prazer pessoal e estimula hábitos emocionais que vão na contramão de nossa realidade interdependente. Ao nos percebermos como se fôssemos completamente independentes uns dos outros, somos levados a satisfazer nossos interesses e prazeres efêmeros e infinitos. Em uma mente sufocada pelo constante estímulo de descontentamento, pouca chance se tem de descobrir qualidades como empatia, compaixão e generosidade.

Creio que só temos chance de começar a sair desta mentalidade se dermos a devida atenção às verdades da impermanência e interdependência em nossas vidas. Ao aprofundarmos nossas reflexões sobre estas duas verdades, podemos começar a ver nosso mundo e a nós mesmos de outra forma. Uma forma mais contente, saudável e sustentável.

Há séculos atrás nossa ciência e sociedade ignoravam os diversos níveis de relacionamentos interdependentes da natureza e hoje elas parecem estar profundamente preocupadas com os problemas que criamos ao ignorar isso. Ao mesmo tempo, diversas tradições espirituais têm ensinado sobre estas relações em níveis ainda mais amplos e sutis que ainda não foram devidamente aceitos e adotados por nós, mas que, acredito, em breve serão reconhecidos como um sabedoria importante para o equilíbrio e a saúde do planeta e seus habitantes. Esta sabedoria afirma que a degradação social e ambiental que vivemos está estreitamente relacionada à qualidade de nossa mente.

Certa vez li um ensinamento da Lama Budista Tsering Everest em que ela dizia: “A realidade de nossa mente produz o nosso próprio meio ambiente. O declínio de nosso meio ambiente é um declínio direto de nossa mente. Podemos olhar para isso com uma visão global. É nossa mente que nos faz experienciar nosso meio ambiente.” www.odsalling.org.br/ensinamentos/meio-ambiente

Ao longo dos séculos inúmeros sábios e mestres espirituais têm nos aconselhado a cultivar amor e compaixão por todos os seres e nos ensinado que “só colhemos aquilo que plantamos”. Esta é uma sabedoria mais do que urgente para ser realizada em nossas vidas e creio que aprofundar a compreensão sobre a impermanência e a interdependência será de grande ajuda.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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