24/11/2019

Há uma gota de estupidez em cada razão

Dib Curi Dib Curi
"A Verdade social é como uma colcha de retalhos, um tipo de patchwork, uma colagem de todos os interesses e visões que constituem o mundo."

Em 1917, o poeta e escritor Mário de Andrade publicou uma coletânea de poemas denominada: “Há uma gota de sangue em cada poema.” Esta obra estava relacionada aos horrores da Primeira Guerra Mundial. Hoje, no Brasil, por conta da insensibilidade e do preconceito de tantos argumentos político ideológicos, talvez, se estivesse vivo, Mário de Andrade escrevesse uma nova coletânea com este nome: Há uma gota de estupidez em cada razão.

Digo isto porque entendo que a Verdade social é uma colcha de retalhos, um tipo de patchwork, colagem de todas os interesses e visões que constituem o mundo. O debate é inevitável. Por isto, considero a Democracia o melhor sistema, por sua capacidade de representar as visões e interesses de toda a gente. Desta forma, a Democracia estaria acima de qualquer razão.

Contudo, atualmente, há uma grande competição entre duas razões ou ideologias parciais, ou seja, o capitalismo e o socialismo. Sabemos que - em tese - o capitalismo privilegia mais a liberdade e o socialismo a igualdade. Contudo, a liberdade sem a igualdade ou sem freios torna-se libertinagem, assim como a igualdade sem a liberdade torna-se cristalização e apatia.

Por isto, não me vejo como capitalista nem como socialista. Estas ideologias não me seduzem mais, pois me amarram ao passado, geram muita discórdia e confusão, são fontes de manipulação e só parecem piorar o problema social, além de me entupirem de maniqueísmos. À grosso modo, o Capitalismo quer que o interesse econômico domine e determine o Estado (governos). Já o Socialismo quer que o Estado domine ou determine a economia. Dois grandes erros. Se a humanidade fosse mais madura, entenderia que estas instâncias ou forças devem ser independentes, respeitados alguns pressupostos básicos, ou seja, uma Economia livre e responsável e um Estado igualitário, laico e humanista.

No meio de tanta fofoca desinformada, é necessário admitir uma das faces da verdade, ou seja, que a atual crise mundial é uma crise do Capitalismo. Vamos parar de confundir as coisas. O verdadeiro responsável pela crise está se escondendo muito bem por trás do véu da ignorância coletiva. Se as pessoas não aceitam o Socialismo como solução eu até entendo, mas o verdadeiro responsável pela crise é o Capitalismo.

Isto acontece porque os grandes interesses econômicos, financeiros e mercantis se importam muito pouco com valores humanos, civilizatórios ou ambientais, mas somente com lucro, produtividade e consumo.

Provas não faltam e quando o assunto é dinheiro nada mais importa, nem crianças miseráveis, idosos desassistidos, países em convulsão, mentes maltrapilhas ou poluição dos mares e derrubada das florestas.

Que tipo de gente nos tornamos então, incapazes de ver por quem os argumentos contábeis torcem, que a miséria de muitos é a maior consequência da super riqueza de poucos, que a hipertrofia dos consumidores corresponde à atrofia dos cidadãos, que os valores humanos tornaram-se simples produtos negociáveis nos Parlamentos e Bolsas de Valores, que a febre do lucro corresponde à falência do interesse público.

No fim das contas, a Vida e o tempo se tornaram matéria prima da especulação financeira e as consciências apenas mais uma mercadoria precificada nas prateleiras do mercado. O mundo do TER brutalizou a sensibilidade do SER no nosso admirável mundo mercadão. Contudo, cada um de nós não deve se esquecer que sempre há uma gota de estupidez em cada razão. Esta é a principal vacina de uma boa democracia.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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