22/11/2019

Ideologia e exploração: a uberização da vida

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"Ou seguimos o rumo da desumanização ou assumimos a tarefa de reconstrução da sociedade sobre bases novas; em que ciência, tecnologia, direito e educação estão a serviço do ser humano e não o contrário."

O trabalho está entre os componentes distintivos da espécie. Até o século XIX, as principais correntes filosóficas compreendiam a saga humana basicamente sob uma perspectiva idealista. Apenas em Marx é que a realidade passou a ser considerada sob sua dimensão material, histórica e econômica. Primeiro está a vida, depois a interpretação dela. Primeiro está a história e sua dialética e depois se seguem as teorias explicadoras dos fenômenos. Foi em Marx, portanto, que o trabalho passou a ocupar, assim, um espaço de fundamental importância na compreensão da sociedade.

Os avanços tecnológicos - do arado e da enxada até os satélites e drones - foram, passo a passo, substituindo a força humana em si pelas ferramentas que, em algum sentido, estendiam as capacidades limitadas do indivíduo. E, com isso, século após século, mas especialmente a partir da Revolução Industrial, ocorreu uma ampla expansão da produtividade, da lucratividade e, consequentemente, da exploração.

A relação entre tecnologia e ideologia é, porém, um capítulo que não pode ser desconsiderado. As promessas de resgate da humanização empreendidas pelas inovações são uma espécie de canto de sereia. Uma pregação centrada na tese de que a vida humana será aperfeiçoada e que as possibilidades (apresentadas como infinitas) das mais recentes tecnologias concederão mais conforto, mais segurança e menos trabalho duro e desumano.

A realidade, contudo, tem se revelado outra. Tem se mostrado um paradoxal retrocesso. Garantias individuais, direitos trabalhistas, dignidade da pessoa e o princípio da isonomia estão sendo relativizados e, pior, condenados apenas a exercícios retóricos sem qualquer densidade e realidade. O discurso de que haveria menos esforço e mais produtividade aliados a mais fruição da vida está se apresentando como talvez o maior engodo desse início de século.

Se o leitor acionar agora seu celular, provavelmente terá em minutos uma pizza (ou qualquer outro item) em casa. Ela será fabricada por um restaurante (ou apenas assada se já tiver sido preparada por um empreendedor individual), será entregue por um desempregado, numa bicicleta alugada, disponibilizada nas ruas por um banco que alardeia a propaganda da sustentabilidade e do qual o cartão de crédito será usado para pagar a pizza, uma vez que já está cadastrado para pagamento rápido no aplicativo. O entregador não é funcionário do restaurante, tampouco do banco, muito menos do cliente. Usa a força do próprio corpo para pedalar, submete-se aos riscos do trânsito, paga a locação da bicicleta e, se sofrer um acidente, dependerá de um sistema de saúde público que não consegue se sustentar.

Essa teia de relações invisibilizadas pelos algoritmos dos aplicativos seguramente será o desafio desse nosso tempo. A promessa de humanização está se concretizando como a mais absurda e desafiadora desumanização das relações daquele que é o motor da história, da riqueza e da dignidade humana que é o trabalho.

A chamada uberização do trabalho (e da própria vida) alcança os mais diferentes ambientes e âmbitos da experiência humana. Na prática, o que há é a velha dominação do homem pelo homem escamoteada pela rede ininteligível de computadores. A tese do empreendedorismo é o apelo (quase religioso) dessa que parece ser a narrativa hegemônica do século XXI, a meritocracia. De uma só vez, consegue desonerar o capitalista e responsabilizar (culpabilizar, inclusive) o trabalhador.

A legislação trabalhista parece não dar conta do desafio que está posto. Primeiro porque é fruto de um mundo pré-uber; segundo, porque goza da má fama cuidadosamente esculpida pela ideologia vigente e, por fim, porque é operada por sujeitos que, em regra, pouco ou nada se identificam com os trabalhadores reais que estão entregando suas pizzas no domingo à noite.

O desafio posto, portanto, é menos jurídico e mais ético. Em outras palavras, há colocada para nós uma encruzilhada: ou seguimos o rumo da desumanização ou assumimos a tarefa de reconstrução da sociedade sobre bases novas; em que ciência, tecnologia, direito e educação estão a serviço do ser humano e não o contrário.

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”

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