22/11/2019

A armadilha dos 30%

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Podemos definir inteligência como sendo a capacidade de pensar coisas complexas de forma flexível. O que deu certo ontem pode não funcionar hoje. "

A democracia representativa no Brasil apresenta inúmeras distorções: abuso do poder econômico, baixa escolaridade do eleitorado, cobertura tendenciosa da grande imprensa, voto obrigatório, absurdo financiamento público bilionário das campanhas eleitorais, territórios nos quais não é permitida a livre circulação de candidatos e de ideias...

Dentre essas distorções, precisamos prestar atenção a uma em especial, a armadilha dos trinta por cento do eleitorado.

Essa armadilha explica o porquê dos líderes políticos populistas insistirem em radicalizar o discurso com o único objetivo de capturar um eleitorado extremista e fiel. Com a Internet e os robôs que disseminam informações falsas, os populistas radicais esperam polarizar as eleições, criar bodes expiatórios e explorar a cizânia sem propor ideias claras e factíveis.

No Brasil, temos nos dois extremos do espectro político um eleitorado que conta com 30% dos votos, que é o patamar tanto do PT quanto da extrema direita que ora ocupa o poder.

Nos 30% da extrema direita, estão reunidos os perdedores da globalização, aqueles contingentes que não cabem mais na segunda revolução industrial e que não conseguiram se adaptar a um mundo que demanda por novas tecnologias e competências.

Do outro lado do espectro, encontramos uma esquerda composta por gente culta, sofisticada e globalizada, mas que optou pelo personalismo e pelo relativismo moral, dois venenos para a democracia.

Os dois extremos formam uma maioria de 60% do eleitorado e exercem essa maioria fazendo uma estranha aliança na medida em que se escolhem mutuamente como adversários preferenciais. Desse modo, surge a polarização e o centro se fragmenta tendo que escolher um lado, tornando-se, assim, o fiel da balança.

É preciso reconhecer que, nos dois governos Lula, ele soube alargar seu arco de alianças da esquerda para a direita, montando uma colossal máquina política que, no auge da fartura das commodities, beirou a unanimidade.

Essa máquina política colossal montada pelo PT, que mesclou elementos progressistas com as mais antigas e condenáveis práticas fisiológicas, poderia ter tido um julgamento político pelo Congresso, mas isso não ocorreu. Pois agora sabemos que foram os procuradores e juízes da Lava-Jato que fizeram o julgamento político do PT e de Lula.

No meio dos extremos do espectro político estão os desmobilizados e acomodados 40%. Estes, por não serem radicais, mas, sim, moderados, não se empenham tanto na política quanto os extremistas. Antes, os moderados faziam sucesso passando a imagem de moderação e bom senso. Hoje, na era das redes sociais, os que fazem sucesso são os alarmistas radicais.

Podemos definir inteligência como sendo a capacidade de pensar coisas complexas de forma flexível. O que deu certo ontem pode não funcionar hoje. Novos desafios requerem respostas inovadoras. Precisamos desfulanizar a política e nos libertar do simplismo e do dogmatismo.

No dia primeiro de outubro, a China comemorou o 70° aniversário de sua revolução comunista e o 48° aniversário dar reformas introduzidas por Deng Xiaoping. Essas reformas partiram da ideia de que na China haveria “um país, mas dois sistemas”. Ou seja, convivem lá os modos de produção comunista e capitalista. Essa combinação gerou um capitalismo de estado e uma economia de mercado socialista. E, é claro, maciços investimentos foram feitos em educação, como ocorreu também em outros países orientais vencedores da globalização como Japão, Coréia do Sul e Singapura.

Acredito que o Brasil ganharia se espelhando na China e implantando a ideia de um país, dois sistemas, só que ao contrário. Quero dizer com isso que, num país capitalista, espaços socialistas poderiam ser experimentados na forma de assentamentos comunitários, cooperativas e ecovilas.

A minha geração, a da década de sessenta, viu no comunismo uma saída para as injustiças sociais. Passados sessenta anos, não se fala mais de comunismo no Brasil, apesar de ter sido curiosamente apontado na última campanha eleitoral como sendo o grande causador de todos os nossos males.

Hoje, no lugar do comunismo falamos e valorizamos o que a ciência política tem chamado de os comuns: as emissões, os bites e os genes. O destino comum da humanidade depende de como usaremos a ciência e a política para administrá-los.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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