29/10/2019

As flores do jardim eterno

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Para estarmos completamente vivos é necessário lidar com nossas experiências de forma aberta e flexível para que possamos viver cada momento de forma completa. "

No final dos anos 80 estava participando de uma comunidade espiritual e o trabalho estava passando por momentos difíceis. Todos estavam profundamente desanimados. Não acreditávamos na força do grupo para resolver os problemas de relacionamento e financeiros. Mas havia uma pessoa que mantinha um empenho no trabalho, um ânimo que era diferente do espírito normal do grupo.

Um dia, quando esta pessoa cuidava do jardim, perguntei a ela de onde tirava energia para trabalhar com aquele afinco e dedicação diante da situação que estávamos vivendo na comunidade. Ela respondeu: “sempre procuro estar inteira no que estou fazendo. Para mim, não importa se este jardim será desfeito amanhã, se todos irão embora e o trabalho acabar. O que importa é a qualidade que imprimo no meu agora. Esta qualidade não se perde. Na verdade, me sinto trabalhando para algo maior do que este grupo. O que faço é para a vida”.

Esta era uma pessoa que eu diria que estava realmente viva. Normalmente não vivemos de forma completa. Tememos colocar toda nossa energia no que estamos fazendo. Tememos nos decepcionar e não sermos bem-sucedidos. Todo este medo acaba por obstruir o livre fluxo de nossa energia e nos impede de apreciar o simples ato de realizar algo; a sensação, as qualidades e o valor do que fazemos e somos. Quando temos esta atitude, todo nosso ser é afetado. Corpo, mente e coração não se sincronizam. E isto diminui nossa sensibilidade, criatividade e capacidade de realização e transformação.

Se formos investigar de onde vem todo este medo de estarmos inteiros no que estamos vivendo, veremos que a idéia de ganho ou perda estará presente. Tememos perder nosso tempo e energia, pois sabemos que não depende só de nós a manutenção de coisas e situações em que nos envolvemos, ajudamos a criar e a realizar. A qualquer momento tudo pode acabar, ou então não corresponder ao que esperávamos.

Em nossos projetos, trabalhos, relacionamentos íntimos, enfim, em toda a nossa vida este tipo de pensamento-sensação está presente. E tudo isto está intimamente ligado a uma visão egocêntrica do mundo.

Quem é que ganha? Quem é que perde?

Você pode dizer: - mas eu não faço isto pensando em mim, faço por uma causa, pelo outro, etc. Mas ainda assim haverá a idéia de ganho/perda. A causa, o outro será o centro da ação, a referência para um objetivo.

Mas como fazer algo sem um objetivo?

A questão não está em não se ter um objetivo, mas sim, em não estar apegado a um objetivo. O problema está no bloqueio que criamos para estarmos plenamente presente por causa de um objetivo futuro a ser alcançado ou também por causa de um passado frustrante que não deixamos passar.

Este apego aos resultados sejam eles futuros ou passados, limita o nosso potencial e nossa energia numa determinada situação e não deixa que utilizemos todas as suas possibilidades. Quando vivemos com a lente do ganhar/perder, do sucesso/fracasso, nossas relações e nossos desejos de realizar algo adquirem um peso enorme. Comparamos e julgamos o valor e o sentido de nossa vida e tudo isso tira nosso prazer e confiança de vivenciar com leveza e fluidez este mundo em constante mudança.

Quando nos agarramos no “eu fiz isso”, “eu não fiz aquilo”; “eu consegui isso”, “eu não consegui aquilo”, perdemos a abertura para vivenciarmos o que podemos chamar de um contentamento na mudança. Ao insistirmos em resolver uma situação para ser aquilo que pensamos que ela deve ser, perdemos a oportunidade de acolher a beleza do movimento que pode nos levar a novas descobertas do viver. É como surfar uma onda, não se pode insistir num movimento ao descer uma onda, é preciso estar receptivo a cada ondulação imprevisível e mudar com ela. Aceitar a novidade que está chegando, que pode não ser o que você tinha planejado e extrair o melhor dela. Isso significa ver que todas as situações são trabalháveis e que se pode fazer algo bom mesmo da pior coisa. Na busca da onda perfeita é você que a torna perfeita.

Para estarmos completamente vivos é necessário lidar com nossas experiências de forma aberta e flexível para que possamos viver cada momento de forma completa. E isso implica numa disponibilidade interior de viver morrendo, de um constante acolher e soltar, chegar e partir a cada instante.

Como disse o Mestre Zen Shunryu Suzuki:

“Ao fazer alguma coisa você deve se consumir completamente como uma boa fogueira, sem deixar rastros de si próprio.

Cinzas não voltam a ser lenha. Lenha é lenha. Quando ocorre este tipo de atividade, uma só atividade abarca tudo.”

Talvez você esteja curioso pra saber o que aconteceu com aquela comunidade citada no começo do texto. Após alguns anos com saídas e entradas de integrantes, ela se desfez, mas o jardim que a minha amiga cuidou, pode ter certeza que ele está florindo até hoje.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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