28/10/2019

A elite brasileira e a perpetuação das desigualdades

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"Foram as elites aqui forjadas que sempre reproduziram a cantilena da corrupção e de seu combate."

Todo grupo humano, tem, em algum sentido, uma “elite”. E isso não é, em princípio, nada de ruim. A questão é a forma pela qual as elites sociais de determinada comunidade se coloca em relação aos demais membros da mesma.

A palavra elite (de origem francesa, que significa escolher, eleger) era usada durante o século XVIII para produtos de qualidade superior, depois para identifica grupos sociais superiores, tais como militares ou nobreza. Assim, de modo geral, o termo designava um grupo dominante na sociedade ou um grupo localizado em uma camada hierárquica superior, em uma dada estratificação social.

O sociólogo americano e professor na Universidade de Columbia, Charles Wright Mills, utilizou a palavra elite nesse sentido primeiro: ao se referir a um grupo situado em uma posição hierárquica superior, numa dada organização, dotado de algum tipo de poder de decisão política e econômica. O cientista político norte-americano Robert Dahl descreveu a elite como o grupo minoritário que exerce dominação política sobre a maioria, dentro de um sistema de poder democrático. Há, em ambos os casos, uma espécie de consentimento tácito entre os membros de um grupo e a “escolha” de sua elite, ou, ao menos, a aceitação dela.

Foram os teóricos da política Gaetano Mosca e Vilfredo Pareto que utilizaram o termo “elite” como uma alternativa ao conceito de “classe dominante” de Karl Marx. Nesse caso, elite não é apenas um grupo seleto no topo da sociedade, mas um combinado de tomadores de decisão e formadores de opinião.

Pensada assim, a elite pode ser uma referência genérica a grupos posicionados em locais hierárquicos, ou designar grupos capazes de formar opiniões, ou como ‘classe dirigente’. Neste último caso, a ideia de opinião pública é substituída pela ideia de ideologia, entendida como a direção política em um dado momento histórico. Sob este aspecto, a elite cumpriria também o papel de dirigente cultural.

Vê-se, assim, que, na prática, as elites sociais são as que monopolizam a opinião pública, forjando-a por meio dos veículos de educação e comunicação (em geral, sob sua tutela) e as que pavimentam as bases ideológicas dos agrupamentos, também por meio da repetição e do reforço de mensagens sob variadas formas e fontes.

A elite brasileira forjou-se tendo por base nossa história colonial. Os interesses das elites coloniais estavam totalmente alinhados aos da metrópole. Mais que isso, confundiam-se com a própria metrópole. Em outras palavras, não havia interesses genuinamente brasileiros. Os que havia eram portugueses, ainda que acampados nas terras de além-mar. As elites daqui estavam a serviço de lá.

Esse fenômeno se verificou, por exemplo, desde as Capitanias Hereditárias, na exploração madeireira, nas plantações de cana e de café, na mineração, na escravidão e na forma de sua “abolição”, na “independência”, no Império e na República. Mais recentemente, nos golpes militares do fim do século XIX e na década de 1960, nas ditaduras de Vargas e entre 1964-85, na exploração do Petróleo e na política entreguista do Pré-sal.

Em todos os momentos, uma tônica sempre se repetiu: o “combate” à corrupção. No Brasil político, corrupção sempre foi uma espécie de “pecado” do Brasil católico. Uma correspondência com forte apelo ideológico.

E foram as elites aqui forjadas que sempre reproduziram a cantilena da corrupção e de seu combate. As instituições (políticas, policiais, econômicas e religiosas) profundamente corrompidas e corruptas sempre se valeram do discurso anticorrupção para se perpetuarem no andar de cima. Num cenário de maior controle social e aparentemente mais investigação de corrupção, os corruptos institucionais resolveram a questão para se manterem no lucro ideologizando tudo, da sala de aula ao petróleo, da comida aos costumes. Ideologizando inclusive o controle social e (o combate) a corrupção.

A discussão sobre campos políticos e ideológicos (num falatório estéril e barulhento) acaba, sem querer, por ajudar a esconder, nas sombras e nas entrelinhas, os esquemas dos donos do poder. O serviço que os capitães do mato faziam no passado é reproduzido atualmente sem muito senso crítico por uma massa inspirada na tese moralista de combate a corrupção. Combate-se os sintomas sociais cujas causas permanecem inatacadas. Mira-se o desvio da verba, mas se ignora a profunda desigualdade.

Nossas elites aprenderam, faz tempo, a perder alguns anéis em nome de preservarem dedos, mãos e braços. E o curioso é que fazem isso silenciosamente. A algazarra faz barulho nas televisões e redes sociais, enquanto nos salões onde efetivamente as decisões são tomadas não um único suspiro de incômodo.

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”

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