27/10/2019

A caverna platônica está ruindo (Uma análise filosófica do real)

Dib Curi Dib Curi
"Nos afastamos de vez da sanidade e estamos ultrapassando perigosamente os limites do delírio psicótico ou paranoico, que vê inimigos em todos os cantos"

Que baita confusão em que nos metemos. A propagada Teoria da Conspiração tomou conta do imaginário coletivo e tudo parece ter se tornado mentiroso, confuso e manipulado. Sabemos que “os indivíduos formulam teorias conspiratórias para explicar, por exemplo, as relações de poder em grupos sociais e a existência de forças malignas.”

Em função de todo este conspiracionismo, ninguém parece acreditar mais no FATO, só ocasionalmente, se a notícia disser o que gostaríamos que ela dissesse, responsabilizando este ou aquele segmento social pela conspiração.

Creio que esta enorme desconfiança de uns sobre os outros tem a ver com o poder que o dinheiro adquiriu nos últimos duzentos anos, ou seja, o de transformar consciências em mercadorias. A conspiração maior seria - então - a do Deus dinheiro e ele é que engendrou o novo maniqueísmo. No fim das contas, acreditamos que o único tendencioso que presta somos nós mesmos ou - talvez - aqueles que pensam como nós.

Nesta carência de referências mais estáveis em forma de grandes narrativas que possam nos unir (o dinheiro favorece interesses individuais e corporativos), o número de variáveis da equação tornou-se o mesmo número de indivíduos ou de empresas no mundo, ou seja, passa a valer um certo Princípio de Incerteza, do qual nos falou o físico Werner Heisenberg, comandando nossa imaginação e nossas convicções e crenças. Nossos novos Mitos são líquidos, voláteis e modistas e tem quase a mesma consistencia de mulas sem cabeças ou unicórnios. Aguardamos a próxima fofoca ou fake news.

Estamos perdendo os frágeis critérios que ainda tínhamos para distinguir imaginação e realidade. No máximo, nos tornamos convictos como se fossemos espectros repetidores - sem interioridade e discernimento nenhum - simples reflexos dos grandes espelhos globalizados.

Chegamos, finalmente, no ponto onde o filósofo Platão dizia que iríamos chegar, ou seja, em um mundo onde tudo se tornaria mera simulação, o mundo dos simulacros, onde todas as imagens perderiam sua semelhança com a ideia verdadeira das coisas e se fundiriam caoticamente umas com as outras sem nenhuma transcendencia ou princípio que lhes servisse de modelo, no máximo, o interesse momentâneo daqueles que adquiriram força para influenciar milhões de mentes.

Neste momento da História, parecemos estar totalmente desorientados e perdidos em algum ponto do Hades, como fantasmas lamentosos e acusadores, fantoches transitando entre a conspiração dos ricos contra os pobres, da qual nos falou Karl Marx e da conspiração dos fracos contra os fortes, tão enfatizada por Friedrich Nietzsche. E como dizia o próprio Nietzsche, não haverão mais fatos, somente interpretações.

Para nos tirar desta situação de confusão, descrença e ceticismo, só mesmo alguma especialidade Espiritual em desatar nós, a definitiva saída da caverna platônica ou um Dédalo qualquer inventando asas que nos retirem do labirinto.

Dentro da caverna, perdemos completamente os critérios maiores da Verdade e nos arrastamos entre reflexos de reflexos, sombras de sombras, sempre manipulados. Nos afastamos de vez da sanidade e ultrapassamos perigosamente os limites do delírio psicótico ou paranoico que vê inimigos em todos os cantos.

No fim das contas, não passamos de crianças narcisistas e mal formadas, vendo em todas as coisas o perigo do velho do saco. Nossa epidemia é a Síndrome do Pânico. Os próprios germes e princípios caóticos que geraram este momento atual tendem a agravá-lo ainda mais. A caverna está ruindo, só nos resta sair para a luz do Sol. Este labirinto não nos levará a lugar nenhum.

Dib Curi é professor de Filosofia e Editor do Jornal Século XXI

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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