26/10/2019

Setembro Verde e Amarelo

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Uma nação que se automutila destruindo suas florestas e que se mata, pois possui altos índices de morte por policiais, precisa de um Setembro Verde e Amarelo."

Nossa sociedade já é violenta e a situação piora quando autoridades que deveriam promover a paz e a concórdia emitem declarações que jogam mais lenha na fogueira. Seja estimulando a derrubada das florestas, seja estimulando a violência policial, nossos governantes só fazem aumentar o clima de medo, que, afinal, os favorece.

Em setembro, costumamos refletir sobre o suicídio e chamamos esse exercício coletivo de Setembro Amarelo. Setembro também é o mês no qual celebramos nossa data cívica mais importante, Sete de Setembro. Uma nação que se automutila destruindo suas florestas e que se mata, pois possui altos índices de morte por policiais, precisa de um Setembro Verde e Amarelo.

Para compreender as origens de nosso comportamento suicida enquanto nação é preciso refletir sobre as raízes da violência em nosso país.

Os países de nosso continente tiveram origem no passado colonial. Várias ondas de globalização da economia e dos costumes se sucederam. Sei que é duro e desagradável pensar sobre isso, mas nossa origem colonial se deu na base do genocídio dos povos indígenas, da escravização de negros africanos e do uso predatório do território para fins puramente mercantis.

A esse período a teoria marxista chamou de acumulação primitiva do capital, para o qual a cidade do Rio de Janeiro teve um importante papel.

Situada entre a Europa, a África e o estuário do Rio da Prata, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro começou como entreposto militar que fazia um comércio triangular que consistia basicamente na troca de escravos por açúcar, aguardente e tabaco com a finalidade de enviá-los para o trabalho nas minas de prata de Potosí. Daí a prata seguia para o México, cruzava o Pacífico em direção à China, onde servia de moeda de troca para a obtenção de mercadorias como especiarias, porcelanas, sedas, móveis e objetos decorativos.

O Rio de Janeiro esteve, portanto, nessa época, na base do processo de acumulação primitiva do capital. A cidade teve sua proeminência no período, tendo sido o maior porto negreiro fora da África nos séculos XVIII e XIX. Fomos uma das últimas nações a abolir o trabalho escravo, em parte porque não tínhamos reservas abundantes de carvão na época da primeira revolução industrial.

O encontro entre as civilizações promovido pela Era dos Descobrimentos, além da acumulação de capital através dos fluxos de ouro e prata das colônias, gerou, também, uma grande revolução agrícola com a introdução de plantas comestíveis originárias das Américas, como o milho e a batata, no mundo inteiro, o que tirou a humanidade de um estado de crescimento vegetativo, as chamadas sociedades estacionárias, para uma explosão demográfica sem precedentes.

O século XIX foi o auge da globalização econômica. A humanidade tornou-se cada vez mais urbana e os países europeus dominaram as populações mais atrasadas nos quatro cantos do planeta.

No século XX, o Brasil experimentou décadas de crescimento acelerado, inclusive durante a ditadura militar. Desde a época de Getúlio e JK, o País se urbanizava rapidamente. Nos anos 60 e 70, grandes ondas migratórias vieram do Nordeste Brasileiro para o “Sul Maravilha”. As favelas, as novas senzalas, originadas dos soldados negros que retornaram de campanhas militares como as de Canudos e da Guerra do Paraguai, acolhem até hoje nordestinos que tentam romper o ciclo da pobreza através da imigração.

De tudo isso resultou uma nação altamente mesclada e até mesmo exemplo de sociedade multirracial. Entretanto, paradoxalmente, somos uma das nações mais desiguais e violentas do mundo.

É claro que todo esse passado continua presente nas nossas relações interpessoais, apesar de sermos considerados amáveis e cordiais por outros povos. Como é possível toda essa cordialidade conviver com tanta perversidade? Não acredito que se possa fazer muita coisa sobre isso sem encarar nossa História e sem compreender as raízes da violência entre nós.

O suicídio é chocante porque contradiz a lógica do marketing do desejo. Mas morremos mais por causas como obesidade, diabetes, alcoolismo e tabagismo. Ironicamente, essas doenças são causadas por aquelas mesmas mercadorias que trocávamos há 500 anos por escravos na costa atlântica da África. Por outro lado, morrem mais pessoas por suicídio do que a soma de todas as mortes violentas, incluindo aí acidentes, crimes e guerras.

Façamos, então, um esforço de compreensão das raízes da violência neste Setembro Verde e Amarelo.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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