25/09/2019

Populismo e Desigualdade

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Adoramos construir mitos para depois derrubá-los. Fazemos isso há séculos."

Por que precisamos de líderes populistas? Esta é a pergunta do momento no mundo todo.

O jornal Folha de São Paulo está trazendo uma série de reportagens sobre o assunto e a palavra chave para a compreensão do problema é desigualdade. A globalização promovida pelo neoliberalismo através da desregulamentação financeira, da transnacionalização de companhias, da privatização de empresas públicas e da redução dos direitos sociais do trabalhadores produziu efeitos paradoxais. Se, por um lado, só a China retirou 750 milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas por conta da globalização da economia, por outro a quantidade de apropriação da riqueza mundial pelo 1% mais rico aumentou consideravelmente.

A classe média dos países ocidentais, que viveu a era de ouro do capitalismo no pós-guerra, sofreu com a migração dos empregos para o Oriente atraídos pela mão de obra barata, abundante e educada. Sofre mais ainda com a crescente automação da indústria que também elimina postos de trabalho. Porém, ela também se beneficiou com os preços baixos de roupas e produtos eletrônicos made in China. Essa classe média enraivecida por suas perdas enxerga no chinês, no migrante e no pobre os bodes expiatórios dos seus problemas, enquanto que seu inimigo real é o robô (automação + inteligência artificial).

O problema é complexo e exige um pensamento flexível para resolvê-lo e não o simplismo dogmático dos populistas. A desigualdade tem atrás de si causas ligadas às injustiças do mercado financeiro, às megacorporações de tecnologia e informação e às velhas disputas por recursos naturais, principalmente água, terras, minérios e energia.

Os populistas são chamados à cena porque tanto a direita quanto a esquerda parecem não ter respostas para a crise do capitalismo. A direita acha que são crises cíclicas de destruição criativa. A esquerda pensa que são crises cíclicas que levarão o capitalismo a sua autodestruição.

O fato é que o conjunto de avanços em busca da produtividade levou o Ocidente moderno a criar um sistema produtivo que dispensa em larga escala o uso de mão de obra intensiva. A telemática está aí para fazer o serviço de bilhões de pessoas. Logo, a receita, para o populista, passa a ser o isolamento dos países e o fim da cooperação internacional em todos os níveis.

É impossível não se lembrar do final do século XIX, quando décadas de internacionalização da economia foram revertidas bruscamente em nacionalismos e protecionismos que levaram às duas Grandes Guerras Mundiais.

Durante essas guerras, os países capitalistas se aliaram aos seus inimigos comunistas para fazerem frente à ameaça nazifascista, expressão máxima do populismo de extrema-direita. Direita e esquerda passaram por cima de suas diferenças históricas para defender suas raízes comuns na modernidade.

O uso da razão como meio de administração da vida dotou tanto o mundo capitalista quanto o comunista de meios para levar a modernidade a todos os cantos do planeta. O modo de vida moderno fez enorme sucesso. Primeiro com máquinas a vapor, depois com a eletricidade, os combustíveis fósseis e a evolução dos meios de comunicação de massa.

Contudo, os problemas começaram a aparecer e a razão, por si só, já não pode dar mais conta dos problemas criados por ela mesma.

É quando surge o populista com suas ideias rígidas e simplistas e seus bodes expiatórios. Adoramos construir mitos para depois derrubá-los. Fazemos isso há séculos.

Vivemos um momento de transição hegemônica. Uma tempestade perfeita parece reunir mudanças geopolíticas, tecnológicas, econômicas e culturais que levam a um sentimento de fragilidade e incerteza. Grande parte do eleitorado sente, então, a necessidade de afirmações simplistas e radicais. O problema é que a solução de problemas difíceis dependem de um pensamento cada vez mais complexo e flexível.

O momento parece pedir que, novamente, direita e esquerda ultrapassem seus limites e dialoguem pela manutenção da herança moderna. O primeiro passo é celebrar tudo de bom que a ciência, a democracia representativa e o estado nacional trouxeram para a humanidade.

O segundo passo é admitir que a razão também tenha seus limites e que a extrema racionalização da vida, seja pela economia planificada comunista, seja pelo livre mercado capitalista levaram a ciência, a democracia e o estado a mostrarem um esgotamento de suas forças. Por isso, é bom que as forças políticas que defendem o legado da modernidade compreendam, reconheçam, respeitem e aprendam com a cultura de povos tradicionais, como, por exemplo, a dos nossos índios.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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