28/08/2019

A Realidade não tem história

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"A realidade não tem história, nós é que criamos uma história para a realidade. Nós é que ficamos contando para nós mesmos o conto de fadas (que muitas vezes se torna um conto de terror) do “eu fui, eu sou (...)"

“Quando começamos a perceber o que somos, quem somos, por que somos, começamos a perceber o que não somos, quem não somos, por que não somos. Começamos a perceber que não temos base fundamental, substancial, sólida e fundamental que possamos exercer mais. Começamos a perceber que nossas idéias de segurança e nosso conceito de liberdade têm sido puramente experiências fantasmas.” Chogyam Trungpa Rinpoche

Tanto sofrimento poderia ser evitado se olhássemos melhor a verdadeira natureza da nossa realidade antes de querermos obter alguma coisa dela. Se olhássemos como as coisas funcionam, como nós funcionamos, como acontecem nossas experiências veríamos que tudo aquilo que sentimos nos mover para obter algo envolve uma visão equivocada de nós mesmos e de nossa realidade. O problema não está nas coisas, mas sim em como a percepção e relação com as coisas se manifestam em nós, a partir de que base nos movemos.

Vivemos iludidos com a idéia de nos completar, de alcançar perfeitas condições e total poder sobre as coisas. Desta forma, nossos relacionamentos sejam íntimos ou sociais, e até mesmo nossa busca espiritual, se tornam o campo desta luta para nos tornarmos alguma coisa. Não vemos que este tipo de idéia na verdade é a nossa maior fraqueza, nossa maior ameaça, pois a dinâmica da vida vai sempre nos contradizer. Mais cedo ou mais tarde a vida vai nos decepcionar, a realidade vai nos mostrar que não existe esta fantasiosa idéia de alcançar alguma coisa e ter domínio sobre condições. Se desistíssemos desta abordagem e nos dedicássemos mais a aprender a nos tornar mais livres para atravessar as experiências no mundo sem o conflito de querer realizar nossos fúteis e enganosos desejos, teríamos menos insatisfações e mais contentamento na vida.

Quando nos deparamos com a realidade da mudança e da morte, muitas vezes nos sentimos traídos e injustiçados pela vida, mas na verdade, neste caso a realidade está sendo como uma mãe que tenta te nos acordar do sonho de querer ser alguma coisa e tentar realizar ou perpetuar uma história. A realidade não tem história, nós é que criamos uma história para a realidade. Nós é que ficamos contando para nós mesmos o conto de fadas (que muitas vezes se torna um conto de terror) do “eu fui, eu sou, eu serei” achando que esta é a nossa verdadeira realidade. Não nos damos conta da nossa essência livre de história que vivencia as coisas como elas são sem a fixação em como elas devem ser e sem a luta de alcançar ou se desfazer de algo, sem um futuro a se realizar ou um passado para preservar, livre para apreciar o mundo como ele se apresenta em cada momento com pura receptividade, puro acolhimento e amor. E esta liberdade não nos tira a possibilidade de experienciar uma história e apreciá-la e se emocionar com ela como fazemos quando vamos a um cinema e nos envolvemos os acontecimentos de um filme.

Quando falo sobre esta possibilidade de liberdade, é comum ouvir das pessoas se, assim, não teríamos menos gosto pelas coisas do mundo, se perderíamos o prazer de viver. Sempre digo que pelo contrário. Tal realização nos brinda com o destemor de viver. E livres para saborear cada momento como ele é, podemos descobrir toda a gama de nuances, texturas e vivências que são subtraídas quando são experienciadas através da nossa percepção equivocada da realidade.

Novamente citando Chogyam Trungpa Rinpoche:

“Você pode quase que se apaixonar pelo universo, com a situação geral. Nesse ponto, não há ponto de referência para alguém ou alguma coisa. É apenas estar apaixonado, apenas apreciando o seu mundo. Você não precisa mexer em nada. O ponto principal é desenvolver algum tipo de apetite pelo universo em que tudo seja viável e amável.”

Como disse no começo, tanto sofrimento poderia ser evitado se olhássemos melhor a nossa realidade antes de querer obter alguma coisa dela. Este desejo que nos acompanha constantemente sem satisfação duradoura é fruto de não olharmos o que somos e ver a perfeição plena que não precisa de mais nada neste exato momento, em cada momento que é completo em si mesmo em cada inspiração até a última expiração.

Como complemento desta reflexão, deixo abaixo um belo texto de Joseph Goldstein do seu livro “One Dharma” onde ele nos inspira a olhar melhor a nossa realidade.

“Sendo sujeitos à mudança, por que procuramos o que também está sujeito à mudança? Embora possamos ver e compreender, em algum grau, a futilidade de buscar satisfação em coisas que — devido à sua própria natureza — não duram, nos encontramos com frequência vivendo nossas vidas apenas esperando pela próxima grande experiência; tanto faz se são as próximas férias, o próximo relacionamento, a próxima refeição ou até mesmo a próxima respiração.

Nós nos inclinamos e ficamos eternamente amarrados na antecipação. Refletir sobre, e observar diretamente a impermanência nos lembra de novo e de novo que toda experiência é apenas parte de um show transitório sem fim.

Meu primeiro professor do dharma, Anagarika Munindra, costumava nos perguntar: “Onde está o fim de se ficar vendo, saboreando ou sentindo?”. Claro que não há nada de errado nessas experiências; elas simplesmente não têm a capacidade de satisfazer nosso anseio profundo por felicidade.

O maravilhoso paradoxo do caminho espiritual é que todos esses fenômenos efêmeros que — como objetos de nosso desejo — nos deixam insatisfeitos, enquanto objetos do estado desperto se tornam o próprio veículo do despertar. Quando tentamos tomar posse e agarrar experiências que são transitórias por natureza, acabamos no final sempre insatisfeitos. Mas quando olhamos com atenção plena a natureza de constante mudança dessas mesmas experiências, não ficamos mais tão possuídos pela sede do desejo. Por estado desperto me refiro à qualidade de prestar atenção completa ao momento, se abrindo para a verdade da mudança.

Então não é uma questão de fechar nossos sentidos e se retirar do mundo, mas de abrir nosso olho de sabedoria e viver livre no mundo.”

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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