25/08/2019

As escolhas do Brasil e a espada de Dâmocles

Dib Curi Dib Curi
"Parecemos estar no final de um ciclo histórico. Evidente que algo assim tem a ver com morte e renascimento"

Tenho plena convicção de que estamos na Vida para algo muito maior do que somente obter segurança, posses, reconhecimento, etc. Creio também que sempre sofremos as consequências das escolhas que fazemos. Talvez nossa vida pessoal e social seja pouco mais do que um desfilar de consequências. Uma estória muito antiga poderá nos ensinar mais sobre as danosas consequências de nossos atos:

“Dâmocles era um cortesão no palácio do rei Dionísio de Siracusa. Ele costumava dizer que o rei Dionísio era um homem verdadeiramente afortunado. Certa vez, o rei Dionísio ofereceu-se, então, para trocar de lugar com ele por um dia, para que ele pudesse sentir o gosto de toda esta sorte, sendo servido em ouro e prata, atendido por garotas de extraordinária beleza e servido das melhores comidas e bebidas.

No meio de todos estes prazeres, luxo e ostentação, Dionísio ordenou que uma espada fosse pendurada sobre o pescoço de Dâmocles, presa apenas por um fio de rabo de cavalo. Com isto, Dionísio queria mostrar a Dâmocles qual era a verdadeira natureza de tal poder e conquistas. Ao ver a espada afiada suspensa diretamente sobre sua cabeça, Dâmocles perdeu totalmente o interesse pela excelente comida e pelas belas garotas e abdicou de seu posto, dizendo que não queria mais ser tão afortunado.”

Creio que o Brasil se tornou encantado demais com as promessas materiais do mercado global, abdicando de muitas de suas verdadeiras riquezas, sua natureza, o cuidado com o seu povo simples e alegre, a promoção de sua cultura diversa e a valorização de sua própria maneira de ser e viver. No fundo, foi a nossa falta de consciência sobre a espada de Dâmocles pendurada sobre nossas cabeças é que nos trouxe a este momento conturbado. Será que poderemos voltar atrás agora? Ou tudo terá o seu próprio fluxo, sua finalidade?

Por falar em fluxo ou finalidade, parecemos estar num momento muito especial da história humana, um tipo de final/recomeço de ciclos históricos. Evidente que algo assim tem a ver com limites trágicos, exageros e tensões sem conta, com morte e renascimento, com a descida ao Hades e a subida aos Campos Elíseos, com o plantio e a colheita, com as nascentes e os mares. Neste último sentido, a água deve evaporar e voltar à nascente.

As referências interpretativas e ideológicas do velho mundo parecem estar perdendo o seu viço e apenas permanecem como mortalhas ou cascas de lagartas jogadas ao chão, assim como roupas velhas; como ideias exaustivamente usadas e cansadas. Neste momento quase podemos ouvir um clamor no céu estrelado na voz de algum grande mestre do passado nos dizendo:

- Não olheis as cascas secas jogadas à terra, mas as borboletas nascidas que esvoaçam livres e alegremente.

Como disse, todos os conceitos usados para explicar o mundo nos últimos mil anos parecem como cascas mortas. Acabo de me lembrar do que o amado mestre nos disse:

- “Deixem os mortos enterrarem seus mortos”.

Para terminar, a pergunta que se tornou fundamental para cada um de nós responder: Quanto de nós mesmos se tornou uma casca e nos aprisiona? É preciso que repitamos como o velho Nietzsche:

- “Que o meu NÃO seja como um desvio do olhar.”

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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