24/08/2019

Hybris

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Não nos importamos mais com partidos e instituições e estamos mais preocupados com temperamentos e individualidades. "

Hybris é uma palavra grega que significa desmesura, desmedida, exagero, passando a se referir, também, a orgulho e vaidade. A filosofia grega presava a moderação e a prudência (sophrosine). A hybris era ultrapassar o mentron, a justa medida, o que ofendia os deuses e fazia com que eles punissem quem a ela sucumbisse com terríveis aflições.

A proeminência da tragédia na cultura grega é o reconhecimento da atração que o homem sente pela desmesura e das consequências nefastas dessa compulsão.

Os heróis gregos, aqueles que ultrapassam a esfera humana, têm sempre um fim trágico e geralmente são destruídos por um homem pequeno, vil e covarde. Os humanos, quando tentam enganar e superar os deuses, são punidos com terríveis castigos. Os Titãs, que resolveram desafiar os deuses olímpicos, também acabam castigados.

Falo da mitologia grega porque quero tentar explicar a compulsão que temos em buscar mitos e heróis como solução para nossos problemas políticos. Adoramos criar heróis míticos para logo em seguida destruí-los sem aprender que a política trata dos problemas dos homens, dos mortais.

Na política brasileira, os homens que se resignam a ser simplesmente mortais têm cada vez menos vez. Elegemos agora os nossos pequenos heróis: atletas, artistas, religiosos, apresentadores de programa, enfim, celebridades em geral. Um palhaço famoso, o Tiririca, é o quarto deputado mais votado da história do Brasil.

Isso mostra que não nos importamos mais com partidos e instituições e que estamos mais preocupados com temperamentos e individualidades. Obviamente essa situação é reflexo do individualismo, que é uma espécie de hybris, pois o desenvolvimento das potencialidades pessoais depende da vida coletiva. E foi por isso que a humanidade criou instituições como o Estado e a República.

Ao criar o Estado, este passa a ter o monopólio da violência, da qual os indivíduos abrem mão. Ao criar a República, inventa-se um sistema de governo no qual as instituições estão acima dos indivíduos e no qual todos os homens são iguais perante a lei.

Pois a crise política que vivemos é tão grave porque afeta os pilares da ideia de Estado e de República.

Ao pretender armar os cidadãos, se está abandonando o monopólio da violência por parte do Estado e estimulando o regresso do mundo bárbaro do todos contra todos. O poder crescente das chamadas milícias e a identificação com ela que os novos governantes têm demonstrado é um indicativo do grau de ruína em que se encontra a capacidade do Estado de promover a paz social.

Quanto à República, ela é sustentada por valores como impessoalidade, improbidade, competência e transparência. Todos esses valores estão no momento sob forte ataque.

A disputa pelo poder numa República deve obedecer a um sistema de freios e contrapesos no qual os poderes executivo, legislativo e judiciário atuam de modo a oferecer limites uns aos outros com o intuito de evitar excessos autoritários de cada uma das partes.

Pois esse sistema também se encontra em crise. O executivo manipula o legislativo através da liberação seletiva de emendas parlamentares e da distribuição de cargos e manipula também o judiciário, como está explícito agora, através da politização de sentenças judiciais. O legislativo não legisla, mas tornou-se um órgão que julga, como vimos no impeachment de Dilma. O judiciário julga com uma celeridade seletiva e o Supremo legisla ao decidir sobre matérias que deveriam ser definidas pelo voto no Congresso.

Gravemente ferida, a democracia representativa, que depende da existência de ideais como o Estado e a República, agoniza.

Em sua A República, Platão sugere outro sistema de freios e contrapeso. Lá, a tripartição se dá entre trabalhadores, guardiões e governantes. Os primeiros detém o poder econômico, mas nunca o político. Os guardiões e os governantes são responsáveis pelos assuntos políticos, mas a eles é vedado o poder econômico. Aos governantes, é exigido sabedoria e aos guardiões, coragem. Aos trabalhadores, pede-se moderação, sophrosine, que é o contrário da hybris.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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